Sábado, 18 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

CADERNO DA CIDADANIA > ENTREVISTA / SANDRA MARTINS

Mídia trata relações raciais de forma preconceituosa

Por Flávia Mattar em 16/01/2007 na edição 416

Em 13 de dezembro, foi realizado no Rio de Janeiro o seminário ‘Sobre relações raciais e direitos humanos no Brasil: o jornalismo no meio disso?’. O objetivo da iniciativa – promovida pelo Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Município do Rio de Janeiro por meio de sua Comissão de Jornalistas pela Igualdade Racial (Cojira-Rio) – é proporcionar a jornalistas e demais interessados(as) um fórum de debates a respeito da responsabilidade dos meios de comunicação na produção de informações sobre relações raciais e direitos humanos. Confira a importância de uma discussão como essa na entrevista com uma das coordenadoras do Conjira-Rio, Sandra Martins.

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O que mais chama a sua atenção na forma como os grandes meios de comunicação nacionais abordam as relações raciais e os direitos humanos?

Sandra Martins – Os meios de comunicação trabalham com a perspectiva de relações raciais de uma forma muito preconceituosa. O negro ainda é visto pelo viés de estereótipos. Muitas vezes, aparece na página de polícia. Poucas vezes é retratado de forma positiva. Por exemplo, esta semana foi publicada uma matéria em um jornal de grande mídia falando das pessoas que se beneficiaram com o programa Bolsa Família. O texto dava a entender que elas estão optando por não trabalhar porque estão acomodadas por conta do dinheiro. Mas, ao mesmo tempo em que a matéria apontava a acomodação, falava que elas agora têm a possibilidade de escolha, não querem mais os empregos de subserviência de forma venal como até então lhes era oferecido. A matéria retratava de forma preconceituosa as comunidades pobres. O mesmo se dá com o povo negro. O homem negro ainda é visto como o melhor no futebol e a mulher como a melhor dançarina, mas não são vistas as suas potencialidades como cidadão, como ser humano. São vistos como consumidores, mas não como cidadãos.

Como surgiu a idéia de criar a Conjira, dar início a esse trabalho de reflexão sobre relações raciais e direitos humanos na mídia?

S.M. – Quando a Conjira propõe a triangulação entre comunicação, direitos humanos e relações raciais é com o objetivo de fazer com que o profissional de comunicação comece a repensar o seu papel no cotidiano do trabalho. O sindicato dos jornalistas fazia essas discussões, mas não de forma sistemática. Começaram a ser sistemáticas por volta de 2003, com a criação da Conjira, a partir de uma matéria que saiu na revista Lide, do próprio sindicato, que falava sobre racismo nas redações. Anualmente, realizamos próximo a 10 de dezembro, quando se comemora a assinatura da Declaração dos Direitos Humanos, um evento de reflexão. É um momento em que trazemos pessoas que estão produzindo no campo acadêmico, no mercado, no movimento negro para que apresentem para os jornalistas questionamentos sobre as relações de vigência até então. Já discutimos a Lei Caô; a imagem visual do negro na mídia; o grupo Diálogos contra o racismo, que realizou a campanha ‘Onde você guarda o seu racismo?’. Este ano focamos a mulher negra na mídia.

E o trabalho realizado pela Conjira-RJ ocorre em outros estados do Brasil?

S.M. – Em 60 anos de Federação Nacional de Jornalismo (Fenaj) temos somente três sindicatos desenvolvendo essa discussão: Núcleo de Comunicadores Afro-brasileiros, no Rio Grande do Sul, Cojira-SP e Conjira-RJ. Estamos envolvidos na discussão sobre o item cor nas fichas cadastrais para a produção de dados, porque não há Censo. Em são Paulo temos alguma coisa, o Rio Grande do Sul estão agora apresentando dados sobre quem são os comunicadores negros. E da medo, tristeza. Lá são apenas quatro comunicadores que se apresentam no vídeo, em todo o estado. Continuamos escutando os mesmo exemplos: tem o Aroldo, tem a Gloria. Os eternos. Agora é que entrou um ou outro, mas são sós as exceções. A Fenaj este ano, além de aceitar as nossas discussões, criou o primeiro painel de comunicadores afro-brasileiros, ou seja, entramos na agenda nacional. Agora, precisamos que os jornalistas, independentemente da melanina, defendam um Brasil para todos: todos têm que ter acesso à produção, à informação e ao mercado de trabalho.

De que forma o tratamento preconceituoso da mídia influencia nosso cotidiano?

S.M. – Acarreta baixa auto-estima, desinformação. Na primeira gestão do governo Lula o Brasil teve aproximação direta dos países africanos, mas isso foi pouco explorado na mídia. Ano passado, tivemos um encontro internacional em São Paulo com representantes de vários países africanos, inclusive jornalistas. Perdemos uma oportunidade ímpar de fazer interlocução direta com jornalistas africanos. Não temos pautas comprometidas, não há visão ampla dos países em desenvolvimento e isso prejudica a produção de produtos que possam dar visibilidade a outros grupos étnicos no país. Em qualquer parte do país, o que vemos é o que é produzido no eixo Rio-São Paulo. Há apenas algumas produções regionais nas quais o negro quase não aparece. Temos que dar visibilidade a nossa cara: a cara indígena, negra, nordestina. As crianças acabam sendo muito aviltadas com essas produções. Assistimos as novelas brasileiras e vemos uma fantasia, uma irrealidade. Precisamos trazer o tom da terra para a produção midiática.

Você acredita que isso seria possível incluindo afro-brasileiros nas redações?

S.M. – Não adianta encher a redação de afrodescendentes com visão europocêntrica. Precisamos incluir nas redações pessoas de diferentes grupos sociais. É pegar o estudante de jornalismo da universidade do subúrbio e deixar ele trabalhar. Ele tem uma visão de mundo diferenciada do garoto que vem de Ipanema. Além da diversidade racial, é importante a diversidade social, para que haja a contaminação de pautas.

Mas mesmo havendo uma redação que inclua a diversidade, as cabeças dos grandes mesmo de comunicação não impediriam a disseminação de outras pautas?

S.M. – A hierarquização se dá de forma muito penosa para o elemento negro. O sujeito quando chega na redação acaba incorporando o branqueamento. Ele não traz para o cotidiano da redação as discussões de sua realidade. É como a mulher, quando chega ao cargo de gerenciamento acaba ficando tão fálica quanto o homem. Esquece que tem suas especificidades. Temos que inserir negros nas redações e fazer com que essa inserção se dê em todos os patamares da redação. É uma discussão que tem que ser internalizada e naturalizada. É preciso haver uma desconstrução.

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Editora da Agência Ibase

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