Segunda-feira, 22 de Outubro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1009
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CADERNO DA CIDADANIA >

Minha pele não tem cor

Por Elka Macedo em 24/11/2009 na edição 565

É costume pedirem para eu classificar minha pele em preto, branco, vermelho ou amarelo, mas ninguém entende que, como o disco de Newton, sou fruto da junção de todas essas cores. Não adianta perguntar, eu não sei qual pele visto porque minha amarelada pele negra não consegue se separar da minha epiderme branco-avermelhada.

Mas se mesmo assim quiserem que eu busque em minhas características físicas traços que me agrupem numa única etnia, provarei mais uma vez a impossibilidade desse feito – afinal, segundo a química, não é possível diferenciar os elementos que compõem uma mistura homogênea, logo, não poderei me enquadrar em um único grupo.

Talvez nem assim haja desistência, mas aí é só buscar um trunfo chamado árvore genealógica, quem sabe vendo a miscigenação que é a minha família, desistam dessa vil classificação que sobrevive de marginalizar e enobrecer pessoas pelo seu fenótipo, sem levar em conta sua condição primeira de pessoa-cidadã.

E a quem interessa isso? Quem inventou a hierarquia das cores? Quem estipulou o valor comercial da pele? Acaso somos produtos que precisamos passar por um controle de qualidade ditado pelo (mau) humor do poder? Por que se fazem milhares de conferências, seminários e congressos para discutir uma igualdade de discurso e sempre se chega à conclusão de que o racismo ainda existe e de que o preconceito ainda persiste? E você já parou para pensar o que está sendo feito pra mudar essa realidade?

A cor dominante

Em que gaveta está guardado o livro que trata dos Direitos Humanos? Em que lixeira ficou jogada a ética? E a moral, será que se perdeu em alguma turnê de conferências? Não há como não refletir sobre essas questões. Todos nós temos um conceito pré-estabelecido, ou melhor, um preconceito sobre alguém ou alguma coisa – e você, já se perguntou onde esconde o seu preconceito?

Sabe o que é mais preocupante? Costuma-se comemorar dias como o 13 de maio (‘abolição da escravatura’) e o 20 de novembro (dia da consciência negra). Nas escolas de ensino fundamental fazem até concurso para escolher o negro mais bonito, mas se esquecem de refletir sobre o sofrimento e a luta desse povo que foi arrancado de sua pátria para servir à aristocracia de outra terra.

E como o Dia da Consciência Negra não movimenta o mercado consumidor, o máximo que a mídia traz é uma nota falando que, dos mais de cinco mil municípios do país, pouco mais de duzentos decretaram feriado nesse dia. É, parece que na hierarquia da nossa TV em cores, o branco é a cor dominante.

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Graduanda em jornalismo em multimeios na Universidade do Estado da Bahia (Uneb), Juazeiro, BA

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