Terça-feira, 26 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº959

CADERNO DA CIDADANIA > LIVE EARTH

Muito barulho, estrelas poluentes e pouca cobertura

Por Leticia Nunes (edição), com Larriza Thurler em 10/07/2007 na edição 441

Sábado (7/7) foi dia de festa mundial. Dez cidades de oito países diferentes abrigaram o grande evento idealizado pelo ex-vice-presidente americano Al Gore, hoje ativista ecológico de carteirinha. O Live Earth, série de shows que contou com estrelas da música pop como Madonna, Bon Jovi e Red Hot Chili Peppers, tinha como objetivo chamar a atenção para os problemas do aquecimento global. O projeto era uma tentativa de conscientizar cidadãos comuns a mudar seus hábitos e a pressionar seus líderes a assinar um tratado em 2009 que pode vir a reduzir, até o ano de 2050, a poluição causadora do aquecimento global em 90% nos países ricos e pela metade em nível mundial.

Se o plano funcionou, aí já é outra história. Ainda que os organizadores estimem que o público total, contando TV, rádio e internet, tenha atingido a marca dos dois bilhões de pessoas, a cobertura na imprensa foi morna. Segundo artigo de Mike Collett-White [Reuters, 8/7/07], apenas na Alemanha os jornais deram grande destaque ao evento. O tema dominou as manchetes no domingo (8/7). ‘O ponto é que, se nada mais, a questão da proteção climática proporcionou bastante diversão para dois bilhões de pessoas por um dia’, dizia frase no positivo Bild am Sonntag, jornal mais vendido no país aos domingos. Nos EUA e na Inglaterra, os jornais estamparam fotos pequenas e fizeram relatos frios.

Madonna, a catástrofe

Para piorar a repercussão do Live Earth, jornais britânicos como o tablóide News of the World e o Sunday Telegraph resolveram implicar com os artistas participantes, avaliando sua contribuição em prol do meio ambiente. A vítima preferida foi Madonna, que se apresentou em Londres. As publicações checaram as ‘credenciais verdes’ da estrela veterana, e sentenciaram que as emissões de carbono dela são cerca de cem vezes maiores do que as de um cidadão britânico comum. Foram calculadas as emissões de suas nove casas, dezenas de carros, um avião particular e os gastos da turnê Confessions. Foram listadas também as ligações comerciais da cantora com empresas consideradas altamente poluentes.

No total, Madonna foi definida como uma ‘catástrofe’ quando o assunto é aquecimento global. Sua porta-voz, tentando contornar as críticas, afirmou que a participação da estrela no Live Earth foi um dos primeiros passos de seu compromisso em se tornar ecologicamente responsável.

Será que funciona?

Os shows do evento, distribuídos por Nova York e Washington (EUA), Sydney (Austrália), Tóquio e Kioto (Japão), Londres (Inglaterra), Rio de Janeiro (Brasil), Joanesburgo (África do Sul), Xangai (China) e Hamburgo (Alemanha), foram divididos por longos intervalos, em que vídeos com temas ligados ao meio ambiente eram exibidos. Artistas também enviavam mensagens ao público, e pediam que eles se comprometessem em adotar uma atitude responsável, diminuindo suas emissões de carbono e reciclando.

Foi o comediante americano Chris Rock, no entanto, quem expressou a descrença de muitos de que a grande festa, no fim das contas, vá fazer alguma diferença. Ainda que ele estivesse fazendo piada, ficou a alfinetada. ‘Eu rezo para que este evento acabe com o aquecimento global do mesmo jeito que o Live Aid acabou com a fome no mundo’, brincou, em Londres. O Live Aid foi o primeiro concerto do tipo, organizado pelo músico e ativista Bob Geldof em 1985 para arrecadar fundos para os famintos na África.

Todos os comentários

  1. Comentou em 11/07/2007 Walter de Silva

    Apesar de todas as alfinetadas, o Live Earth foi um evento muito importante no sentido de abordar o assunto de maneira global e simultânea. Sobre o fato de ser uma grande festa, creio que não poderia ser de outra forma. Manifestações políticas populares agressivas não seriam adequadas. Trata-se de uma das inciativas de conscientizar num processo de (re)educação. A melhor maneira de (re)educar um indivíduo é através de manifestações culturais. Comparar com o Live Aid e dar crédito a Chris Rock não é muito inteligente por parte da imprensa, que, como de costume, apenas cobre eventos de importância social com o seu costumeiro distanciamento irônico e frio. Abordar de forma fria e dar crédito à cobertura fria, é tratar o frio de forma gelada. Em nada esse tipo de texto ajuda na proposta global de seus empreendedores. A própria imprensa que fala da imprensa assim o faz da mesma forma. Parece que ninguém mesmo consegue escapar dessa síndrome. Nem mesmo nesse veículo de crítica à imprensa. Nada muda. Tudo é pessoal. O articulista se preocupa mais com a sua assinatura do que com um possível objetivo maior de benefício à sociedade e à humanidade global. Destruir e diminuir parece ser a sínfrome da imprensa em geral. Ainda estar para (re)nascer um jornalismo totalmente diferente e renovado. É como o cachorro correndo atrás de seu p´róprio rabo.
    Abraços.

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