Quinta-feira, 21 de Junho de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº992
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CADERNO DA CIDADANIA > ENTREVISTA / NELSON HOINEFF

‘Não é função específica da televisão educar as crianças’

13/04/2004 na edição 272

Definir o que é qualidade em mídia parece ser tarefa complicada até mesmo para quem entende do assunto. Sabe-se que selecionar o conteúdo é um grande passo, mas não é tudo. Tão importante quanto escolher o que irá ao ar, será publicado, filmado, editado ou encenado, é adequar formalmente o conteúdo ao meio: ‘Uma televisão pode ser ruim mesmo exibindo uma sinfonia de Beethoven e pode ser boa mesmo falando para as massas. Não basta filmar um texto de Shakespeare para se fazer um bom filme, pelo contrário, a maioria das adaptações é muito ruim’.

A afirmação é do jornalista Nelson Hoineff, especialista em TV por assinatura, crítico de cinema e diretor de documentários, com passagem por grandes emissoras de TV do Brasil, como Manchete e SBT.

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Como podemos definir qualidade em televisão?

Nelson Hoineff – Tenho forte oposição à idéia de que a qualidade do meio depende exclusivamente da aceitação institucional do seu conteúdo. Uma televisão pode ser ruim mesmo exibindo uma sinfonia de Beethoven e pode ser boa mesmo falando para as massas. Qualidade em televisão depende, em grande medida, da adequação formal e narrativa do conteúdo ao meio, o que, aliás, vale também para qualquer outra forma de expressão. Não basta, por exemplo, filmar um texto de Shakespeare para se fazer um bom filme, pelo contrário, a maioria das adaptações é muito ruim.

Como é possível assegurar a qualidade da produção de mídia? E, especialmente, da produção de mídia para crianças e jovens?

N.H. – Considero que não é função específica da televisão educar as crianças. Ou então: a televisão tem tanto dever de educar quanto um jogo de futebol, por exemplo. Dito isto, podemos pensar num modelo de televisão que seja compatível com a dignidade do espectador e de modelos de programação adequados à criança (que a meu ver não devem reproduzir a educação formal e sempre que possível se antepor a ela). É muito difícil assegurar isto quando o entorno da televisão é tão medíocre e imune a qualquer forma de controle. O que a televisão gera hoje é em grande parte não apenas ofensivo ao cidadão como inibidor de seu crescimento. A maior parte dos brasileiros se forma através da televisão e o tipo de formação que ela vem produzindo é indiscutivelmente nefasta.

De que forma podemos usar a mídia em favor da melhor educação para crianças e jovens?

N.H. – Não vejo a televisão como um mecanismo de complementação à educação formal. Mas tudo que o jovem possa ver na televisão de verdadeiro, de ético, tudo que estimule sua reflexão e facilite o entendimento do mundo é profundamente educativo.

Em que medida a sociedade pode intervir para controlar a qualidade do que é veiculado pela mídia?

N.H. – A sociedade tem que saber, em primeiro lugar, que é ela quem está pagando a televisão e que as outorgas são dadas em seu nome. Deve ter em mente, também, que a televisão é um meio de comunicação que constitucionalmente não pode estar sujeito à censura prévia. Portanto, não há como reclamar formas de controle mais rígidas do governo, por exemplo. É uma equação difícil de resolver. Mas o melhor caminho, a meu ver, é chamar a atenção para o fato de que a sociedade não está satisfeita com a televisão que lhe está sendo oferecida. Há caminhos para se fazer isso.

Quais?

N.H. – É necessário que haja organização suficiente. Em muitos países existem instituições voltadas para o controle de qualidade da TV. No Brasil há algumas bastante sérias, mas que acabam tendo pouca penetração na mídia. As televisões públicas poderiam ser um ótimo foro para se discutir a qualidade da TV no Brasil, de maneira transparente e séria. Pode-se através dela estimular a sociedade a perceber as potencialidades não exploradas da televisão e a maneira pela qual a TV acaba sendo nociva às pessoas. Pode-se mudar a TV a partir da própria TV. Isso ressalta também uma das faces mais importantes das TVs públicas, que não podem vir a reboque da TV comercial, mas ter a sua própria cara, discutir questões que não poderiam ser discutidas em outro âmbito, fazer uma boa televisão (o que no caso mais geral não vem acontecendo) e assim mostrar à sociedade como uma televisão de qualidade é viável no Brasil.

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