Segunda-feira, 11 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº969

CADERNO DA CIDADANIA > JOEL SILVEIRA (1918-2007)

Necrológios apressados, carpideiras profissionais

Por Alberto Dines em 21/08/2007 na edição 447

Joel Silveira merecia homenagens mais caprichadas do que as publicadas em seguida à sua morte. Em plena era da Wikipedia e do Google, os obituários produzidos em nossa mídia continuam precários, em geral alimentados por amigos (lacrimosos ou pretensiosos) que se ocupam mais de si mesmos do que do mérito dos falecidos. Salvo as honrosas exceções de praxe.


Ninguém se deu ao trabalho de buscar o verbete do jornalista Joel Silveira no formidável acervo do Dicionário Histórico-Biográfico Brasileiro (FGV-CPDOC) [ver aqui imagem do verbete] nem do seu irmão mais novo, Paulo Silveira, também jornalista.


Falou-se muito no ‘maior repórter brasileiro’ (e com isso secundarizou-se a figura de Edmar Morel), mas não foi lembrado o secretário de redação de Diretrizes, nem o editor de Sete Dias e Comício, três experiências precursoras de um gênero que mais tarde seria denominado de ‘imprensa alternativa’ (Sete Dias foi a primeira tentativa de reproduzir o formato da americana Time).


Não se falou na dupla Joel Silveira-Rubem Braga, sempre juntos, participantes de vários projetos de renovação jornalística. Não se falou do falecido Diário de Notícias do Rio onde ambos trabalharam e que em certo momento foi muito mais importante do que o Correio da Manhã, sobretudo na resistência ao Estado Novo e ao getulismo (o DN fazia uma oposição à esquerda).


Esforço de guerra


Não se falou de Joel Silveira militante político, um dos fundadores da esquecida Esquerda Democrática (precursora do PSB agora em festas pelo seu 60º aniversário, mas envergonhado da sua ascendência). Rubem Braga assinou a ata de fundação da ED e Joel foi candidato a vereador no Rio de Janeiro nas eleições de 1947, as primeiras em que apresentou-se como partido organizado. Isso também consta do Dicionário da FGV, mas poderia ser relembrado pelo professor Antonio Cândido ou pelos experts em Sérgio Buarque de Holanda (ambos fundadores da ED).


O trabalho como correspondente de guerra não foi o mais importante da sua carreira de jornalista. O acompanhamento das ações militares durante a 2ª Guerra Mundial hoje seria considerado ‘chapa-branca’. Os correspondentes de guerra usavam uniforme, seus despachos eram geralmente controlados pelos militares embora pudessem acompanhar algumas operações, geralmente as mais demoradas.


Os jornalistas recrutados para a FEB eram os mais famosos (caso de Joel e Rubem; Samuel Wainer tinha problemas de saúde), a intenção do governo era valorizar o esforço de guerra contra o Eixo para uma população que até poucos anos antes era bastante simpática ao integralismo e ao fascismo.


Rebelde com causa


Como ainda não está claro o que seja exatamente o New Journalism, pode-se classificar Joel Silveira como um precursor do ‘jornalismo narrativo’ ou ‘jornalismo literário’ – denominação que tanto agrada o Nobel e ex-jornalista Gabriel García Márquez.


As primeiras obras publicadas de Joel eram majoritariamente literárias (como o atesta o verbete do Dicionário, geralmente preparado pelo próprio personagem) e parte da sua fama vem do longo convívio com a crônica, gênero no qual seu parceiro Rubem Braga foi considerado o grande mestre pela tonalidade romântica dos escritos. O texto de Joel era ácido, ferino, arrasador.


Um rebelde dos anos 1940, amadurecido num centro cultural chamado Rio de Janeiro que a longevidade tornou um impagável gozador.

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