Sexta-feira, 21 de Setembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1005
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CADERNO DA CIDADANIA > VIOLÊNCIA URBANA

Notícias do ovo da serpente

Por Muniz Sodré em 29/07/2008 na edição 496

Uma historinha destinada a ser exemplar:

Um indivíduo de classe média alta, profissional liberal, régia aposentadoria pública, escritório bem mobiliado e movimentado no centro da grande cidade, resolve de repente, não mais que de repente, criar uma igreja, dessas que hoje vivem, e proliferam, da miséria dos outros. Bem falante, alguma militância político-partidária, secundado por um sócio, ele aluga um imóvel em lugar estratégico e dá partida às suas pregações, entremeadas de orientações políticas. Se já vivia bem, segundo consta, ele está agora muito – mas muito mesmo – melhor.

Pode parecer insólito começar com um relato desses um texto de observação de imprensa, por isso é oportuno lembrar que a antropologia e a sociologia contemporâneas recorrem cada vez mais às histórias de vida e aos casos como recursos de elucidação teórica. Clifford Geertz, Richard Sennet e outros têm publicado análises profundas, e de leitura aprazível, com essa metodologia.

Quanto à informação jornalística, não raro exige uma complementação cognitiva para além do acontecimento em sentido estrito, o que pode se traduzir na prática como a observação comunitária ou a participação cidadã, de onde costumam provir facetas da realidade cotidiana normalmente postas à margem das pautas jornalísticas.

A quebra inaceitável do poder

O relato acima é uma historinha, certo, mas pode se revelar muito significativo para o que vem ocorrendo, por exemplo, no Rio de Janeiro, nestes tempos pré-eleitorais. Diz-se que cada cabeça é mundo, certo, mas para determinadas cabeças, a antiga Capital Federal vivencia uma verdadeira desgraça cívica. Por mais que os jornais batam na tecla, ainda não ressoou com o estrondo devido, junto aos ouvidos da maioria da população local e do resto do país, o gongo que sinaliza grave ameaça para a estabilidade institucional.

Um simples dado: segundo a denúncia apresentada por um deputado federal ao Tribunal Regional Eleitoral (24/7/2008), cerca de 1 milhão de pessoas estão sendo coagidas por traficantes e milicianos, direta ou obliquamente teleguiados por políticos, a votar em candidatos únicos, patrocinados pelos bandos ilegalistas ou associações mafiosas.

De pouco vale lembrar que foi mais ou menos este o começo do terror paramilitar na Colômbia, hoje combatido pelo governo. Pouco porque essas comparações, geralmente feitas por repórteres ou articulistas na imprensa, terminam soando abstratas demais para o comum da cidadania. De argumentações espontâneas de entrevistados, aqui e ali captadas pela imprensa, partem às vezes indícios da existência de uma outra lógica, radicalmente estranha ao que se costuma entender por partilha democrática do espaço público.

Assim é que o presidente da associação de moradores de uma comunidade carioca controlada por milicianos justificou a hostilidade a um candidato a prefeito que pretendeu falar com moradores: ‘Você não entra na casa dos outros sem pedir licença’. Até a palavra ‘casa’, funciona a lógica conhecida. O problema é que não se tratava da casa de ninguém, mas de andar pelas ruas – espaço público – de um bairro. A ‘ata’ de um chefe do tráfico na favela da Rocinha, a maior da cidade, comprova a quebra inaceitável do poder de Estado e da noção de ‘cidade’, à vista de todos.

Laboratório de relações sociais

Claro, já se sabe muito dos impasses sociais na transformação contemporânea das metrópoles em megalópoles, das mutações éticas ou humanas geradas pela urbanização desenfreada do mundo – 80% da população dos países industrializados vivem hoje em cidades. E a cidade em nada mais se parece com os modelos, reproduzidos até o final do século 18 na Europa, que a concebiam como monumento harmonioso da residência e da atividade dos homens. Permanece, porém, na memória coletiva da cidadania, algo semelhante ao ideário de São Tomás de Aquino, para quem a existência da cidade supõe um bem comum, que dá sentido ao corpo social por meio das noções de ordem, comunidade e participação. Sem isso, não se trata sequer de cidade partida, mas de cidade morta.

Não, a imprensa tem-se esforçado, mas não consegue dar conta plenamente da extensão da fratura da ordem constitucional e institucional que os políticos, no afã de conquistar eleitores, fingem não ver. Vale mais simplesmente olhar ao redor e dar-se conta com os próprios olhos que o espaço urbano carioca foi guetificado e, na prática, redefinido como uma vasta extensão de territórios ‘idiossincráticos’, feudos do tráfico, da extorsão e dos carniceiros locais. Cada matador de um bando desses é, em escala local, um Radovan Karadzic, o ex-presidente sérvio-bósnio, conhecido como ‘Carniceiro da Bósnia’ recém-capturado, que vivia sob a pele de guia espiritual. Dava conselhos e fazia curas. Aqui, teria montado tranqüilamente uma igreja.

Igreja – não à toa começamos contando uma historinha exemplar. Por quê? Porque ela deixa ver, de modo quase pitoresco, o estado da regressão existencial ou psicológica atingida por enormes frações da gente urbana, que parecem ter rompido o velho pacto implícito com a Ordem constituída. Na falta de cenários cívicos ou políticos de esperança, está aberta a brecha para a retórica salvífica dos oportunistas ou para a justiça a curto prazo de milicianos e traficantes.

Sempre se disse que a antiga Capital Federal era um laboratório de relações sociais. A frase, de conotação benigna, fazia alusão ao interculturalismo dos migrantes e da cidade. Mas vinham se multiplicando as suspeitas de que o ‘laboratório’ poderia estar incubando o ovo da serpente. Pois bem, a serpente nasceu.

E, a propósito, a historinha é rigorosamente verdadeira.

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Jornalista, escritor e professor titular da Universidade Federal do Rio de Janeiro

Todos os comentários

  1. Comentou em 29/07/2008 Juca Crispim

    Quem é o cara da historinha? Destesto essa mania que os escrivinhadores têm de não dar nome aos bois.

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