Terça-feira, 19 de Março de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1028
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CADERNO DA CIDADANIA >

Números de ‘ebulição’ merecem grandes reportagens

Por Rodrigo Conceição Santos em 01/04/2008 na edição 479

Octavio Ribeiro, o lendário ‘Pena Branca’, não foi majestoso somente nas reportagens policiais. Ele também desvendou os mistérios da caçada a uma onça-pintada em uma empreitada no coração da floresta amazônica. Como dá saudade seu espírito insaciável pela reportagem. Nessa caçada, por exemplo, só retornou após ver o couro da fera amarrado em duas árvores e estendido para secar o sangue aos fundos do acampamento tenebroso no qual passou várias noites esperando por aquele momento. ‘Pena Branca’, apelido que ganhou por conta de uma mecha de cabelos brancos no topo da testa, realmente só se satisfazia quando via o couro estendido.

Como ele iria se esbaldar de contar histórias sobre a infra-estrutura brasileira se vivesse nos dias de hoje. Estenderia o couro das obras de hidrelétricas, gasodutos, transposição do rio São Francisco, recapeamento de rodovias, construção de aeroportos, máfia dos portos e tudo mais que rodeia a nossa infra-estrutura. Que, por sinal, nunca esteve tão ascendente.

Os números divulgados pela imprensa e por entidades do setor relatam esta crescente, que ainda é obscura, sem detalhes e sem histórias. Para contextualizar a dita ‘ebulição infra-estrutural’, podemos contar que a frota de equipamentos pesados usados na construção civil, mineração e setor agrícola, por exemplo, aumentou 46% em 2007, de acordo com estudo realizado pela Associação Brasileira de Tecnologia para Equipamentos e Manutenção (Sobratema). E ainda é insuficiente. O mercado reclama incessantemente sobre a falta de máquinas e insumos. A fila de espera para a locação de um guindaste de grande porte chega a dois anos e a falta de aço atrasa diversas construções civis em todo o país, para ficarmos em dois exemplos.

Benefício para todos

Resta saber o que tanto se faz para gerar essa demanda. Onde estão essas obras, para que estão sendo feitas e como são executadas? Alguém, além dos paraibanos, pernambucanos e alagoanos – e, mesmo assim, só os que passam no local –, sabe que a BR 101-Nordeste está sendo recapeada com concreto compactado em toda a sua extensão nesses três estados? Por que usar uma tecnologia tão avançada como esta num trecho onde trafegam apenas 25 mil veículos ao dia?

Antes que o caro leitor se angustie com o desejo de obter as respostas, conto que a obra na BR 101-Nordeste está sendo gerenciada pelo exército brasileiro numa região de solo úmido, no qual são necessários poucos golpes para perfurá-lo. Contudo, uma recapagem comum não suportaria, teoricamente, tráfego, nem sequer dos poucos 25 mil veículos/dia que lá circulam. Nessa obra, há uma técnica muito evoluída de tratamento de solo antes da recapagem, na qual são instalados drenos que perduram por cerca de nove meses para tirar a umidade do solo antes da etapa de terraplanagem.

E a instalação do gasoduto Urucu-Manaus, que parte da reserva de gás de Urucu, a mais de 600 quilômetros da capital amazonense e se propõe a levar gás natural até ela? Para que? Onde será usado esse gás? Quanto e o que essa obra movimenta e por que é um dos maiores desafios logísticos e de engenharia já enfrentados em instalação de gasoduto no mundo inteiro?

A resposta inicial é que a instalação de 653 quilômetros de dutos decorre para abastecer as termelétricas de Manaus com 4,7 milhões de metros cúbicos de gás natural por dia para substituir o diesel utilizado atualmente. Não é preciso dizer que a operação será mais barata e a emissão de dióxido de carbono para a atmosfera muito menor. Todos os brasileiros se beneficiarão com a obra, pois a Petrobrás estima a economia de R$ 1,2 bilhão ao ano, que serão abatidos do subsídio cobrado na conta de energia elétrica de cada cidadão. São mais de 7 mil funcionários diretos e indiretos lá presentes e a Petrobrás é a responsável pela obra, que é executada por três consórcios de construtoras brasileiras.

Couros de onças

As imagens dessas obras, principalmente desta última, são encantadoras para os fotógrafos. As histórias – que vão desde onças dormindo nos tratores e urubus que desfilam nas ruas da pequena cidade de Coari (AM) como se fossem pombos, até dutos que ficam sobre balsas flutuando nos igarapés esperando a estiagem para só então serem instalados – com certeza instigariam grandes repórteres como o ‘Pena Branca’. A quantidade de empresas de grande porte que estão tendo que se virar para atender à obra – caso da Mercedes-Benz, que teve esteira adaptada no eixo traseiro de alguns dos seus caminhões para conseguir vencer o solo encharcado – é ainda mais fascinante para os publishers.

Resta saber, caros leitores, por que não achamos grandes reportagens explicativas sobre obras de infra-estrutura. Temos gana por histórias feitas em estudos de caso e é por isso que temos saudade do extinto Última Hora, de Samuel Wainer, e no qual o nosso ‘Pena Branca’ teve a sua maior ascensão ao entrevistar o delinqüente Mineirinho, após várias semanas de reclusão no Morro da Mangueira.

Aliás, justiça seja feita e lembremo-nos das grandes reportagens publicadas por veículos especializados no setor, como a Revista M&T, que publicou reportagens sobre os dois temas acima referidos e o anuário da Associação Nacional de Transporte de Cargas (NTC), que replicou a reportagem sobre a obra do gasoduto Urucu-Manaus. Também temos a revista InTheMine, dirigida pelo competente Wilson Bigarelli e onde podemos ler histórias bem contatas sobre a mineração brasileira como a que conta o projeto da mina de Serra Azul, uma área mineral pouco explorada e que hoje representa um aporte importantíssimo para a Vale.

Invoquemos leitores insaciáveis, Octavio Ribeiro, o determinado ‘Pena Branca’, que com certeza se aventuraria nessas histórias também de forma insaciável, propondo um caderno especial de estudos de caso para os jornais de domingo e estendendo muitos couros de onças-pintadas, sejam as que habitam os tratores estacionados nas noites de Urucu ou as que estão sentadas diante aos mastros de navios dos portos brasileiros, ou nas cadeiras confortáveis dos escritórios da Infraero.

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Jornalista, São Paulo, SP

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