Domingo, 17 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

CADERNO DA CIDADANIA > MÍDIA & MULHER

O aborto da classe média

Por Ligia Martins de Almeida em 27/01/2009 na edição 522

A imprensa parece fazer questão de tratar aborto como um assunto que não diz respeito aos seus leitores, limitando-se a dar estatísticas – baseadas no número de atendimentos feitos pelo SUS – ou a mostrar a opinião de juristas, religiosos e entidades feministas que defendem a legalização do procedimento. Parece que fazer uma matéria que não discuta o aspecto religioso e ético da questão é difícil. Mas não, impossível. Foi o que mostrou a revista Veja na matéria de capa ‘Aborto: os médicos rompem o silêncio’ (edição nº 2097, de 28/1/2009).

A revista mostra o que todo mundo sabe: as mulheres bem informadas e com condições de pagar um plano de saúde ou uma consulta médica também praticam aborto. E precisam um médico de confiança – seja para abortar, seja para dar acompanhamento depois do procedimento. Se não tiverem esse acompanhamento, podem acabar engrossando os estudos que dizem que ‘as complicações decorrentes de abortos malfeitos, sem condições de higiene ou segurança, representam a quarta causa de morte materna, atingindo cerca de 200 mulheres por ano’ (Veja).

Sem tomar posição – a favor ou contra o aborto –, Veja diz:

‘Em um mundo ideal, o aumento da eficiência, a diminuição do custo e a facilidade de acesso aos métodos anticoncepcionais femininos e masculinos poderiam ter reduzido o aborto no Brasil a sua dimensão puramente médica. Ele seria praticado apenas para salvar a vida da mãe ou na circunstância de o feto que ela carrega no útero ter sido gerado por estupro ou ser inviável, por um defeito grave de formação. Mas não existe o mundo ideal. O aborto continua sendo um dilema social, humano, jurídico e um risco para a saúde de quase 1 milhão de mulheres brasileiras todos os anos.

‘Essa questão, sem solução unânime no campo religioso (quando o feto passa a ter alma?) e no científico (quando a vida começa?), vem sendo encarada no dia-a-dia dos consultórios. Tem crescido o número de médicos que, diante da irredutibilidade das pacientes em abortar, consideram seu dever profissional ajudá-las a enfrentar da melhor maneira possível as conseqüências da decisão.’

Depoimentos de médicos

A grande novidade da matéria é conseguir que médicos admitam uma mudança no seu comportamento, tanto ao orientar as pacientes sobre o procedimento, como ao dizer que dão acompanhamento posterior às que pedem ajuda depois de abortar:

** ‘Quando uma mulher está decidida a fazer um aborto, não há quem a faça mudar de idéia. É uma decisão muito pessoal. E, ao longo da carreira, aprendi que não posso ser médico apenas nas horas boas. Se minha paciente não quer levar a gestação adiante, eu devo orientá-la sobre a maneira mais segura de fazer isso. Não posso deixá-la desamparada, sob o risco de sofrer as conseqüências de um aborto malfeito’ (Malcolm Montgomery, ginecologista do Hospital Albert Einstein).

** ‘Se uma paciente chega a meu consultório querendo interromper a gravidez, eu sou categórico: `Não faço.´ Mas também não deixo que ela saia de lá sem estar devidamente informada sobre os métodos mais seguros de abortamento. É meu dever ainda acompanhá-la depois do aborto e, se necessário, acudi-la em qualquer maternidade de ponta’ (Osmar Ribeiro Colas – obstetra da Universidade Federal de São Paulo).

** ‘Eu já fiz cerca de 400 abortos legais. Nunca uma história é igual à outra. Uma das que mais me tocaram foi a de uma mulher de 42 anos, separada, grávida em decorrência de um estupro. Aquela seria provavelmente sua última chance de ter um filho. No dia da cirurgia, porém, com a sala já preparada, ela me disse, chorando, que estava em dúvida. Mandei-a para casa para pensar. Dez dias depois, ela voltou decidida e o aborto foi realizado’ (Jorge Andalaft – ginecologista da Casa de Saúde da Mulher, da Universidade Federal de São Paulo).

Além dos médicos, a revista trouxe depoimentos de mulheres (famosas e anônimas) que mostram que, apesar de não se arrependerem do aborto, não conseguem encarar o fato como uma rotineira consulta médica. Com esses depoimentos, a revista foi além do seu dever de informar os leitores sobre uma realidade que está aí: mostrou que, apesar da culpa, apesar das dificuldades, há um momento em que as mulheres se vêem sem opção e não devem ser julgadas por isso.

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Jornalista

Todos os comentários

  1. Comentou em 29/01/2009 Filipe Fonseca

    Cara Zê Dalcin, é lamentável a sua opinião. Não temos o direito de decidir matar alguém porque sua vida será potencialmente ruim. O direito à vida tem que ser universal, ou estaremos no terreno da barbárie. A propósito: matar criancinhas de fome ou na guerra não é pior que abortar. Um aborto é um assassinato consciente e dirigido especialmente à criança em questão. Quando crianças morrem de fome ou numa guerra, são vítimas de efeitos não desejados de eventos muitas vezes não planejados. Comparar acidentes com mortes intencionais por motivo fútil é inaceitável. Defender o aborto é sempre uma atitude imoral, indulgente e inconsistente. A mulher sempre tem a opção de não fazer sexo ou de usar anticoncepcionais. Uma vez grávida, resta apenas a escolha entre respeitar a nova vida dentro dela ou assassiná-la antes que tenha um rosto.

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