Segunda-feira, 17 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1017
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CADERNO DA CIDADANIA >

O acerto de contas

Por Gabriel Perissé em 21/10/2008 na edição 508

O Dia dos Professores é excelente ocasião para sabermos o que se pensa a respeito desses profissionais. Oportunidade para descobrirmos em que medida a admiração unânime pela figura idealizada da professora e do professor se traduz em compreensão da sua realidade e em valorização concreta do seu trabalho.

Artigos, editoriais, entrevistas e reportagens em torno dos professores têm como pano de fundo, atualmente, a luta pela qualidade do ensino brasileiro, diagnosticada como deficiente por diversos instrumentos de avaliação.

Muito bem. Como repercutiu na mídia o último dia 15 de outubro? O que dizem e propõem aqueles que têm voz e vez?

Cláudio de Moura Castro, com base numa pesquisa da Fundação Carlos Chagas encomendada pela Fundação Victor Civita (ver, por exemplo, a notícia do Estado de S. Paulo), afirma que ‘nossos professores não aprenderam a ensinar e, como conseqüência, nossos alunos não aprendem o que deveriam aprender’ (revista Veja, ed. nº 2083). Como solução, descarta as faculdades de Educação, nas quais os futuros professores ‘ouvem falar dos livros de muitos autores, vivos e defuntos, nenhum dos quais ensina a dar aula’, e recomenda o uso de receituários que expliquem nos mínimos detalhes como ensinar regra de três, análise sintática, acidentes geográficos, datas históricas etc.

Bônus por mérito

É evidente, embora não explícita, a referência a Paulo Freire, Piaget, Vigotsky, Freinet, Montessori… para ficarmos apenas com os ‘defuntos’. A saída, portanto, seria transformar o professor numa espécie de técnico do ensino, capacitado para transmitir conteúdos, sem filosofias e reflexões que perturbem essa tarefa.

Quem serão os autores desses receituários, Moura Castro não nos revela. Suponho que deveremos esperar o cumprimento daquele desejo da secretária estadual de Educação em São Paulo, Maria Helena Guimarães de Castro, expresso na mesma Veja (ed. nº 2047), em fevereiro deste ano: ‘Num mundo ideal, eu fecharia todas as faculdades de pedagogia do país, até mesmo as mais conceituadas, como a da USP e a da Unicamp, e recomeçaria tudo do zero.’

A propósito, a secretária Maria Helena assina um artigo (Folha de S. Paulo, 15/10/2008) sobre ‘o mérito do professor’. Um texto escrito de maneira confusa, apresentando a bonificação por mérito como a forma mais adequada de valorizar e motivar os docentes. A secretária apóia-se na premissa de que acenar com esses bônus fará os professores se esforçarem mais. Condições de trabalho, salário e plano de carreira não produziriam igual efeito.

Formação em faculdades públicas

É outro, porém, o pensamento do MEC. Valorizar o professor, conforme entrevista do ministro Fernando Haddad à Gazeta Mercantil, no mesmo dia 15 de outubro, começa com a questão salarial:

‘A valorização passa por três ingredientes: o primeiro, já superado, foi a fixação do piso da categoria. Ouve uma grita de alguns prefeitos e governadores, mas penso que esta questão está vencida porque estas vozes ficaram isoladas no debate público. Segundo lugar, a aprovação das diretrizes nacionais para a carreira do magistério, que o Congresso Nacional já está enfrentando e deve pronunciar-se seguramente até o final do ano. E terceiro, e não menos importante, a questão da formação. Nossa legislação anterior, felizmente superada, previa que a responsabilidade pela formação do magistério cabia a estados e municípios e a União lavava as mãos. Depois do Plano de Desenvolvimento da Educação, foi a União que assumiu maior responsabilidade pela formação dos professores.’

É bom esclarecer que esta formação (inicial e continuada) que o MEC pretende implantar, de acordo com o Sistema Nacional Público de Formação do Magistério, estará sob a responsabilidade justamente das faculdades públicas que Maria Helena de Castro tanto gostaria de fechar.

Pensar por conta própria

De fato, a formação dos professores envolve pelo menos duas graves questões: os salários baixos não atraem novos talentos, que preferem empregar suas capacidades em outras profissões; e muitos professores hoje atuantes se formaram em escolas públicas de ensino médio e faculdades particulares de qualidade duvidosa. Daí, os esforços do MEC para definir o piso salarial mínimo, investir na expansão das universidades federais e cobrar melhor desempenho das faculdades privadas.

O ministro fez um pronunciamento em cadeia nacional no mesmo dia 15, reafirmando a sua convicção de que os professores são os protagonistas do ensino e, por conseguinte, merecem ser valorizados e mais bem preparados. Tal preparação – isso o ministro não disse, mas podemos concluir – vai requerer dos professores do ensino superior que se dediquem a orientar aqueles que, na educação básica, têm o compromisso de ensinar crianças e adolescentes a pensarem por conta própria… além de fazerem regra de três, é claro.

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Doutor em Educação pela USP e escritor; www.perisse.com.br

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