Segunda-feira, 18 de Março de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1028
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CADERNO DA CIDADANIA >

O assunto que ninguém discute

Por Ligia Martins de Almeida em 23/02/2009 na edição 526

O caso da menina Isabella, morta em São Paulo em abril de 2008, chocou leitores de jornais e revistas e espectadores de TV. Chocou porque a mídia, fascinada com o fato do crime envolver pessoas de classe média, explorou o caso à exaustão, com direito a plantão de TV na frente do prédio e perseguição dia e noite ao pai e à madrasta até o confinamento dos dois na prisão.

Mas o que a imprensa não disse, nem na época nem depois, é que o trágico caso da menina Isabella não foi uma raridade, quando se trata de violência contra crianças. E, o que é pior, violência praticada pelos próprios pais.

Mães que admitem que xingam os filhos de burro, ou dizem que vão expulsar as crianças de casa (agressão psicológica), mães que reconhecem ser negligentes (não dão aos filhos os cuidados médicos e a alimentação adequada de acordo com suas possibilidades financeiras), mães que usam beliscões, tapas e agressões com objetos para educar os filhos: esse é o terrível quadro descrito em uma pesquisa sobre ‘um assunto que ninguém quer escutar’, realizada pela pediatra Ana Teresa Miranda e publicada pelo jornal O Estado de S. Paulo.

Agressor é pós-graduado pela USP

A violência vai além, segundo dados do Laboratório de Estudos da Criança (Lacri), da Universidade de São Paulo: entre 1996 e 2007, foram registrados mais de 160 mil casos de maus-tratos a crianças e adolescentes em todo o território nacional: ‘Quanto maior o poder aquisitivo da família, mais velada fica a violência doméstica contra crianças e adolescentes. Quando se mora num apartamento de classe média, a prática de denúncia não existe. Quando há denúncia, é a escola que encaminha. Na cidade de São Paulo, 307 crianças e adolescentes morreram vítimas de violência doméstica entre 2000 e 2007. Em números absolutos, foram assassinadas no Brasil 8.700 crianças de 0 a 19 anos – em 2006, segundo o Ministério da Saúde. Em 1995, eram 5.638 assassinatos’ (O Estado de S. Paulo, 17/02/2009).

O resultado dessa pesquisa leva a uma conclusão óbvia: a de que a mídia só se sensibiliza com casos como o de Isabella e da adolescente seqüestrada – e depois morta – em Santo André. Os outros 305 casos registrados nesse período de sete anos não devem ter comovido editores e pauteiros. Os outros casos acabam se tornando apenas um pequeno registro nas páginas policiais, como, por exemplo, o caso divulgado pela imprensa esta semana: ‘O gerente de projetos Jacques D´Arc Cristiano Elias e Silva, de 46 anos, foi preso em flagrante na noite de anteontem acusado de abusar sexualmente de uma garota de 10 anos no Brooklin, zona sul de São Paulo. Ele foi surpreendido por policiais militares dentro do seu carro, um Renault Logan, às 19h45. Silva é casado e tem duas filhas, de 8 e 9 anos. O gerente, que é pós-graduado em Tecnologia da Informação pela USP, deve permanecer em cela especial… A garota disse aos policiais que costuma ficar nos semáforos onde faz malabarismos. Segundo ela, Silva a chamou e disse que ia pagar um lanche.’

Violência contra crianças existe

Em poucas linhas, temos o retrato de uma tragédia que merecia um desdobramento até maior do que o caso Isabella: uma menina de 10 anos, que não freqüenta escola e faz malabarismos na rua para ganhar uns trocados, agredida por um homem de nível universitário, que é pai de duas meninas da idade de sua vítima.

Talvez esteja na hora da imprensa fazer um pouco mais do que noticiar. A imprensa escrita pode discutir o assunto e cobrar das autoridades, ONGs, escolas e educadores uma atitude mais objetiva para tentar mostrar às crianças que podem e devem se defender. E a televisão, que gasta tanto tempo com bobagens, poderia começar uma campanha de educação dos pais, mostrando que até uma ameaça de pôr a criança para fora de casa é um ato de agressão, e deve ser evitado. O que a mídia tem a obrigação de fazer é mostrar que a violência contra as crianças existe – existe em todas as classes sociais e precisa ser combatida.

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Jornalista

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