Terça-feira, 12 de Novembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1062
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CADERNO DA CIDADANIA >

O brasileiro está “se achando”

Por Luciano Martins Costa em 03/11/2011 na edição 666

Está em todos os grandes jornais brasileiros o relatório do Índice de Desenvolvimento Humano 2011 (IDH-2011), divulgado pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento. Para muitos especialistas, esse estudo deveria substituir ou complementar as análises de desenvolvimento econômico e social muito dependentes dos indicadores do Produto Interno Bruto.

Alguns economistas brasileiros também se debruçam sobre planilhas capazes de mensurar o grau de felicidade, ou bem-estar, dos cidadãos, distinguindo a questão do desenvolvimento dos indicadores meramente econômicos e agregando outras variáveis. Essa tese nasceu numa pequena monarquia asiática, o Butão, onde o governo mede a situação econômica pelas manifestações de felicidade de seu povo. O indicador é chamado de Felicidade Interna Bruta, FIB.

O que está explícito nos quadros do IDH é que os indicadores tradicionais utilizados pelos governos e pela imprensa para avaliar o processo de desenvolvimento dos países estão sendo substituidos, no amplo processo de mudança de paradigmas influenciado pela questão da sustentabilidade.

O IDH foi criado há menos de vinte anos e vem sendo aperfeiçoado continuamente, mas há apenas cerca de cinco anos passou a ser considerado o relatório mais completo sobre a evolução econômica e social das nações, agregando elementos antes considerados intangíveis. Entre as novidades destaca-se o indicador de desigualdade, no qual o Brasil tem melhorado muito nos últimos sete anos, mas ainda precisa de um grande salto para poder ser considerado um país desenvolvido.

Os esforços de economistas e sociólogos em busca de planilhas mais completas acabam agregando outros especialistas, como os geneticistas, na tentativa de explicar como determinados números da economia produzem mais ou menos a percepção de bem-estar nas populações. Um desses gráficos mostra o grau de otimismo de uma sociedade, medido pela percepção de satisfação e sensação de segurança com relação ao futuro.

Nesta quinta-feira, 3/11, os jornais destacam que, no conjunto de dados do relatório do IDH-2011, o brasileiro aparece entre os cidadãos mais satisfeitos do mundo. Para se ter uma idéia, a percepção de bem-estar dos brasileiros se equipara à dos habitantes de países altamente desenvolvidos, como a França e a Alemanha.

Paralelamente à melhoria das condições econômicas, o estudo registra o aumento da autoestima dos brasileiros nos últimos sete anos, que por outro lado melhora o desempenho pessoal e do conjunto da sociedade, com o otimismo realimentando a economia.

Os gráficos da felicidade

Outro elemento interessante a destacar é o aumento da consciência dos brasileiros quanto à vinculação entre desenvolvimento e preservação ambiental. Comparado aos dez países com melhor índice de desenvolvimento humano, o Brasil demonstra maior preocupação com o aquecimento global, reconhece a responsabilidade do ser humano sobre as mudanças climáticas e é mais crítico com relação às providências que têm sido tomadas no mundo para mitigar seus efeitos.

Os gráficos do IDH mostram claramente que há um ponto de inflexão na mudança da visão de mundo do brasileiro: o estado de espírito dos brasileiros começou a melhorar com a consolidação do fenômeno da mobilidade social, registrado em meados da década passada com a ascensão de grandes contingentes de famílias pobres a um novo patamar de renda.

Não há dúvidas de que o brasileiro está mais feliz hoje do que estava há apenas dez anos. Os números da economia e o aumento das condições de vida para milhões de pessoas são parte da explicação para esse fenômeno.

Estudiosos como o economista e filósofo Fábio Gallo, professor da FGV e articulista do Estado de S. Paulo, vêm se esforçando para juntar os números dos gráficos econômicos com medidas menos tangíveis, como o grau de felicidade dos indivíduos.

Por outro lado, há pesquisadores tentando determinar quais são as causas do otimismo e da sensação de bem-estar. A geneticista Mayana Zatz, por exemplo, observa que grande porcentagem dos brasileiros tem propensão genética ao otimismo, por causa da predominância na população do gene transportador da serotonina.

Sabe-se que os brasileiros são geneticamente mais propensos a encarar positivamente suas circunstâncias, mas, como o comportamento humano depende da interação entre os genes e o ambiente, não há certeza quanto às causas centrais do otimismo da população.

O certo é que o brasileiro médio parece ter se curado recentemente do complexo de vira-lata.

De qualquer modo, registre-se que o ambiente comunicacional é essencial para a manutenção ou a deterioração de uma tendência social otimista ou depressiva, que por sua vez tem grande influência no desempenho econômico. Daí a necessidade de se repensar o papel da imprensa como indutora de otimismo ou pessimismo.

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