Quinta-feira, 27 de Junho de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1043
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CADERNO DA CIDADANIA >

O caráter francês do atendimento

Por Deonisio da Silva em 09/06/2009 na edição 541

O ministro Nelson Jobim tratou de piorar a tragédia do voo 447 ao lembrar aos parentes das vítimas, sem nenhuma compaixão, que os tubarões já poderiam ter comido os seus entes queridos.

Nenhum ministro francês fez algo parecido. Todos eles levaram a sério a dor dos outros. E procederam como toda pessoa sensata: quem não pode ajudar, não atrapalha.

Na pós-tragédia do voo 447 da Air France, o caráter francês no tratamento dos parentes das vítimas vem revelando traços complexos dessa nacionalidade.

A palavra caráter tem o mesmo étimo de caractere, o latim charater, trazido do grego kharakter, que originalmente designou o ferro com que eram marcados os animais e depois o próprio sinal que resultava de sua aplicação em brasa sobre o couro deles, identificando o proprietário.

Naturalmente, as nacionalidades não têm apenas marcas físicas que atestam individualidades e permitem sua identificação. Têm também marcas psicológicas que trazem impressas as variações de personalidade, tornando todos diferentes uns dos outros.

Parentes em mesas individuais

E não apenas as pessoas têm personalidades. Também as nacionalidades e as empresas as têm diferenciadas. Um francês não sofre a morte de um ente querido do mesmo modo que a sofre um brasileiro. As cerimônias e os ritos revelam sutis diferenças na hora da dor. As duas nacionalidades sofrem, tratam e expressam o sofrimento de modos diferentes.

Há diferenças também entre as empresas. Os primeiros grandes desastres da Varig revelaram um modo de ser da empresa, acontecendo o mesmo com a TAM e com a Gol. Mas enquanto as três brasileiras trataram os parentes das vítimas de seus desastres de modo coletivo, em amplas salas, a Air France os reuniu por família.

No Hotel Windsor, na Barra da Tijuca, no Rio, onde foram recebidos, os parentes das vítimas do voo 447 foram agrupados em mesas individuais e tratados separadamente. A burocracia francesa, ainda mais forte do que a brasileira, fez cadastro dos parentes, não dos amigos das vítimas, e somente parentes foram admitidos no recinto onde eram consolados e recebiam explicações.

Grupo de psicólogos

Nas mensagens eletrônicas dos leitores é possível verificar também certas marcas próprias de cada nacionalidade. Uma leitora francesa citou Paul Claudel: ‘Dieu n´est pas venu pour supprimer la douleur’ (Deus não veio para eliminar a dor). Outra contestou, dizendo que o escritor não era um bom exemplo, pois tinha abandonado a irmã, Camille Claudel, que acabou sendo internada num hospício.

Nicolas Sarkozy, o presidente francês, tão logo soube da tragédia, correu para o aeroporto para consolar os parentes das vítimas. Já o presidente Lula não pôde fazer o mesmo, pois estava no exterior, longe do Rio, de onde partira o trágico voo. Mas não precisava misturar alhos com bugalhos e dizer que ‘um país que acha petróleo a 6.000 metros pode achar um avião a 2.000’.

Por fim, no Rio não apareceu ninguém da qualidade do professor francês Didier Comniter, coordenador do grupo de psicólogos que atendia os parentes das vítimas em Paris.

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Escritor, doutor em Letras pela USP e professor da Universidade Estácio de Sá, onde é coordenador de Letras e de teleaulas de Língua Portuguesa; seus livros mais recentes são o romance Goethe e Barrabás e A Língua Nossa de Cada Dia (ambos da Editora Novo Século)

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