Sábado, 22 de Setembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1005
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CADERNO DA CIDADANIA > MÍDIA & CORRUPÇÃO

O crime organizado pode acabar com o sonho democrático

Por Luiz Carlos Santos Lopes em 05/08/2008 na edição 497

Ainda está muita vivo na lembrança do povo brasileiro o longo período da ditadura militar (1964-1985). Um movimento que degradou o orgulho nacional, afundou o país num despotismo crescente, liquidou a vida partidária, anulou o Congresso Nacional, decapitou o Poder Judiciário, calou a imprensa, liquidou as manifestações culturais e artísticas, cassou direitos políticos, demitiu, prendeu, assassinou e exilou milhares de cidadãos. Uma geração de estadistas deixou de ser formada e, em seu lugar, os militares abriram espaço para os negocistas a serviço dos interesses estrangeiros e de uma elite subserviente, atrasada e perversa, porém unida e inteligente, ainda hoje encastelada no poder.

Em 1985, o povo deu um basta. Foi às ruas, protestou, brigou, apanhou, mas mandou os generais de volta às casernas. Desde então, o Brasil respira melhor, embora a liberdade possa ter seus alicerces abalados pelo aumento desenfreado de escândalos políticos que tomou conta da nação. Nunca se viu tanta corrupção quanto agora. Os escândalos são tantos, e surgem de lugares tão diferentes, que não se tem tempo sequer de assimilar um, logo surge outro. Nos tempos do autoritarismo, o inimigo era um só: o governo militar. Agora, não.

‘Está tudo ligado’

Como declarou Lucas Figueiredo, repórter especial do Estado de Minas, em entrevista a Mauro Malin (Observatório da Imprensa, 30/05/07):

‘(…) Hoje se tem uma grande ação entre amigos na política e nas instituições. Fica muito mais claro, por essas operações todas da Polícia Federal, que o nome disso é crime organizado. Não tem outra palavra. Quando há grandes organizações que incluem o grande poder capitalista (e aí estamos falando do poder capitalista mesmo, é gente que não faz negócio com menos de duas casas de milhão). São empresários desse porte, são grupos empresariais, muitas vezes com participação de capital estrangeiro, que estão operando, alguns, há décadas no Brasil, corrompendo grupos políticos. Hoje não se tem mais uma separação de quem está de um lado e de quem está em outro.

O PT, hoje, a base do PT é de partidos absolutamente envolvidos com esses casos de corrupção, e isso acontecer já é uma coisa grave. Mais grave ainda é a mídia não dissecar isso. A mídia não ir a fundo para entender esse fenômeno de como o crime organizado tomou as instituições – Legislativo, Executivo e Judiciário. Todo dia se tem uma história de um juiz que recebeu dinheiro de um empresário, que tinha uma liminar para julgar, que corrompeu também um parlamentar, que deu propina para um ministro. Está tudo ligado…’.

O maior inimigo do Brasil

O mais recente escândalo, envolvendo o banqueiro Daniel Dantas, comprova as declarações do repórter.

O Brasil, infelizmente, virou o paraíso da improbidade administrativa, da corrupção, dos desvios envolvendo recursos públicos, do nepotismo, do superfaturamento, das fraudes eleitorais, dos mensalões, da impunidade e de tantas outras mazelas.

Cadê os caras-pintadas? E os homens de bem deste país, onde estão? A hora é de todos irem às ruas dizer não a essa bandalheira, antes que o Estado Democrático de Direito acabe e com ele se vá também o sonho de liberdade que custou tão caro ao povo. Chega de tanta discussão estéril entre esquerda e direita. O maior inimigo do Brasil, como mostram todos dias os meios de comunicação, é o crime organizado, esteja ele acobertado por qualquer sigla partidária, ou estribado em qualquer esfera do poder.

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Jornalista, Salvador, BA

Todos os comentários

  1. Comentou em 05/08/2008 José Orair Silva

    Concordo com o articulista. Essa celeuma em torno das algemas em punhos rendados é um sinal de decomposição moral irreversível. No andar da carruagem, só falta a votação de uma lei pelos nossos impolutos parlamentares regulamentando de vez o uso das algemas e restringindo a sua utilização somente aos pulsos dos pobres, pretos e prostitutas e definindo os limites de patrimônio e de renda necessários para que os cidadãos tenham direito a uma inscrição na sua carteira de identidade com o termo ‘ISENTO DE ALGEMAS – TRATAMENTO VIP’. A polícia chega, o cidadão apresenta a carteira de identidade e a partir daí passa a merecer o tratamento VIP. Em vez de ser arremessado nos camburões por agentes fortões trajando aqueles coletes esteticamente horrorosos o cidadão rico seria preso por belas e simpáticas jovens, elegantemente trajadas, que transformariam a prisão num espetáculo de amabilidades e gentilezas. Seria conduzido em veículo confortável, com ar condicionado e outros confortos compatíveis com a sua condição, de forma a tornar mais agradáveis as poucas horas em que permancerá detido até a obtenção do habeas corpus junto ao Supremo Tribunal Federal…Se já existe esse tratamento VIP nos bancos, nos aeroportos, etc. não custa nada implantá-lo na Polícia Federal de forma a que as prisões não venham a ofender o apurado senso estético dessa clientela privilegiada…

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