Quinta-feira, 19 de Setembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1055
Menu

CADERNO DA CIDADANIA >

O diploma e as panelas

Por Felipe Barth em 23/06/2009 na edição 543

Fazer comida é igual a fazer jornalismo? Quem afirmou não sabe o que é comunicação.

A palhaçada foi feita. Todavia, não podemos reclamar pelo ‘leite derramado’. Podemos, isso sim, lutar para tentar mudar a ‘sacanagem’. Em Brasília, no dia 17 de junho, oito ministros, que de comunicação nada entendem, transformaram o jornalismo em prostituição.

Sim, prostituição. Desde quando governantes votam na não exigência do diploma para uma das profissões mais importantes de uma nação? Desde quando qualquer cidadão pode exercer uma profissão desprovido de instrução? Para mim isso é prostituir o jornalismo. E não me venham dizer que fazer jornalismo é igual a fazer comida, porque não é.

E se assim for, então eu quero que o Direito, a Publicidade, o Marketing e muitos outros cursos – teóricos por sinal – tenham a exigência de diploma dispensada de igual forma. Pois o fazer direito, publicidade, marketing e outros são iguais a fazer comida, conforme afirmara o ministro Gilmar Mendes.

Só tenho uma dúvida, e se tivesse oportunidade perguntaria aos ministros que votaram contra o jornalismo, se eles contratarão agora assessores que não tem formação em comunicação social com habilitação em jornalismo. Duvido!

***

O fim da obrigatoriedade do diploma para jornalismo nada tem a ver com a liberdade de expressão. É necessário que profissionais habilitados para tal façam os jornais e outras mídias para que todos os demais tenham veículos para se informar adequadamente e expressar livremente suas opiniões. O jornalismo deve ser investigativo e informativo. Faculdade não dá azia. Também não concordo com a argumentação de que jornalismo não é profissão de risco à população, não precisando, por isso, de formação adequada. Estar bem informado é fundamental. Uma notícia mal transmitida pode causar sérios danos. Sou leiga no assunto, mas esta é minha opinião de leitora e ounvinte de notícias. (Nadia Couri, psicanalista, Rio de Janeiro, RJ)

***

Um tema recorrente no programa é o polêmico debate sobre a formação do jornalista. Eu penso que é extremamente fácil colocar um ponto final a essa questão. Tenho certeza de que houveram grandes jornalistas que não tiveram formação acadêmica em jornalismo. Assim como existe músico que toca de ouvido, fazendeiro que nunca estudou agronomia ou comerciante nato que nunca estudou administração. O problema é a indústria do diploma, bastante lucrativa e com lastro no conhecimento de grandes pensadores. Essa indústria gera advogados que não conseguem passar no exame da OAB ou professores que aprenderam conteúdos apenas ‘decorando’. Jornalista é aquele que tem opinião, que conhece diversas áreas do saber e tem visão crítica acerca do que está sendo tratado. Outro problema é a separação do conhecimento em pastas ou compartimentos, onde o jornalista pode aprender a diagramação mas, na hora de escrever, é como se fosse um velório, porque lhe faltam as palavras. (Anderson Miranda Amoedo, compositor, Salvador, BA)

***

Para onde caminham os jornalistas que não precisam mais ter diploma para exercer a profissão? Diante das notícias divulgadas sobre a decisão do STF de derrubar a obrigatoriedade do diploma de jornalista surge uma série de questões sobre o futuro da profissão:

1. Como pode a advogada do Sertesp, Tais Gasparian, dizer que ‘a profissão não depende de um conhecimento técnico específico. A profissão de jornalista é desprovida de técnicas’? Por que o STF acata um argumento desse?

2. O que acontecerá com as faculdades de comunicação?

3. E os direitos trabalhistas dos jornalistas, como ficam?

4. Por que e para que fazer agora uma faculdade de comunicação?

5. Quais serão os critérios das empresas para contratar jornalistas?

6. O que pensam os jornalistas da decisão do STF? Por que há um silêncio sobre o tema desde 2001?

7. Por que os jornalistas do Brasil não se unem? Que bom que neste país existe o Observatório da Imprensa para pensarmos no que há por trás da decisão do STF e dos que são a favor da decisão. (Elis Galvão, jornalista, Rio de Janeiro, RJ)

***

Gostaria de perguntar ao sr. Gilmar Mendes que por não respeitar a classe de jornalistas? Ele merece todo o nosso repúdio por comparar-nos a costureiras e culinaristas. Ora bolas, perguntamos a este senhor o que nós fazemos agora com o nosso diploma? O sr. Gilmar Mendes vai certamente promover uma fogueira coletiva dos diplomas? E o que gastamos na faculdade cobramos de quem? Dele? Vergonha Nacional! (Evelise de Oliveira)

***

Escrevi aos ministros do STF. Nao está bem escrito, tenho diploma, não escrevo bem. Mas, não pensei duas vezes, escrevi. Chamo este impulso de ‘liberdade de expressão’, e eles adoram.

Ao plenário do STF

Meu nome é Alexssandro Loyola Freitas, sou jornalista formado. Concordo com a inconstitucionalidade da Lei outorgada por três generais, principalmente pela exigência do registro profissional junto ao Ministério do Trabalho. Mas não posso concordar com a decição do STF sobre o diploma de jornalista.

O Supremo extrapolou suas prerrogativas constitucionais neste momento, principalmente quando decide determinar o que é ou não é Ciência. Ou, pior ainda, decide autocraticamente se existem ou não prerrogativas técnicas para o exercício profissional. Se este raciocínio fosse correto, ainda teriamos rábulas nas cortes, e o exame da Ordem dos Advogados do Brasil seria completamente inútil.

A Comunicação Social pode ser um ramo novo, mal enquadrado nas ciências humanas, mas, negá-la ou não ver que caminha positivamente para a construção de relações cada vez mais democráticas, éticas e independentes entre o que é ‘notícia’, noticiador e público é lamentável, enganoso e ultrajante. O STF erra, extrapola suas atribuições democrativas e confunde liberdade de expressão com jornalismo. Espero que o legislativo reverta o engano com a PEC do jornalista. (Alexssandro Loyola, Campo Grande, MS)

***

Em tempos de tão aguda crise no Senado, não seria nada mal se os estudantes do nosso país aprendessem ainda na escola disciplinas como Ética Social e Política.

Esse é justamente o núcleo do Projeto de Lei do Senado nº 103/2009, que pretende implantar tais disciplinas como obrigatórias em todas as séries do ensino médio. O projeto sugere que se altere artigo da lei nº 9.394/96, que já havia incluído como compulsórios ao mesmo ensino médio os conteúdos de Filosofia e Sociologia.

Como bem se conhece o virtuosismo do nosso Senado em lançar fatos dos mais excêntricos e prosaicos, não poderia ser diferente no que diz respeito a uma certa peculiaridade do referido projeto, não em seu teor, mas naquele que teve a ideia.

Pois eis que o autor da matéria, o nobre senador Expedito Júnior (PR-RO), acaba de ter a cassação do seu mandato confirmada pelo TSE. Confirmada, porque já havia sido assim determinada pelo TRE de Rondônia em 2008. A acusação? Compra de votos e abuso de poder econômico nas eleições de 2006. Alguém aí falou em Ética Social e Política?

Até o fechamento desse texto, o nobre senador ainda não havia resolvido com os seus advogados se recorreria de mais essa condenação ao STF. É provável e natural que recorra e que permaneça legislando (o que quer que isso venha a significar hoje em dia).

Recorrendo ou não, reavendo ou não o mandato, fica a sugestão que se redija um projeto de lei a determinar, como obrigatório a qualquer postulante a cargo político, curso extensivo e avançado em Ética Social e Política. Tenho certeza de que Expedito Júnior, um homem intimamente ligado à educação, que concluiu o magistério em 1979 e já lecionou matemática, não se importaria em voltar à vida de estudante.

Para alguns de seus pares, poderia até ser uma valiosa forma de reciclagem. Para outros tantos, porém, seria o ato de enveredar-se por um surpreendente mundo nunca antes explorado: o da moralidade pública e administrativa. (Heitor Diniz, jornalista, Belo Horizonte, MG)

***

Gostaria de deixar meu depoimento sobre este excelente programa jornalístico, que trata os assuntos discutidos na mídia de forma coerente e ética. Acredito que a televisão deveria ter muito mais programas deste nível, mas infelizmente o que se vê é a transformação do jornalismo em mero espetáculo televisivo. Sou estudante de jornalismo pela PUC Minas e espero ainda ver surgir mais profissionais como Alberto Dines e seus convidados. (Elmo Gomes, estudante de jornalismo, Belo Horizonte, MG)

***

Meu nome é Ricardo Casaca e moro em São José dos Campos, SP. Atuo em uma das muitas novas profissões que inundaram o nosso país nos últimos 15 anos. Sou um headhunter. Em minha profissão, monitorar o mercado é obrigação de quem almeja a perenidade.

Por ofício, monitoro os cadernos de emprego de alguns dos principais jornais do país. Nisso a internet me é fundamental. Imagino que a atenção do Observatório seja toda dedicada à matéria jornalística, mas me proponho a escrever-lhes para tratar de um assunto menos nobre: os classificados.

Por vezes, não raras, encontro anúncios de ‘emprego’ que emporcalham a história e o compromisso social dos veículos que os estampam. O jornal Vale Paraibano é também, por questões óbvias, alvo de minhas pesquisas dominicais. E é no caderno de empregos que encontro uma chaga aberta. É lá que se vê, todo domingo, anúncios de cooptação de moças para zonas de meretrício. Transcrevo dois anúncios publicados na edição de domingo (14/6), abaixo:

MOÇAS p/casa de massagem masculina SJC. ganhos R$ 6.000 mês Enviar CV c/ FOTO p/ contato@****

PRECISA-SE DE MOÇAS Maiores de 18 anos, ambiciosas, para trabalhar em privê. Ganhos acima de R$ 1.500, Falar c/ Fernanda (12) 3921****

Não sou um moralista. Mas não creio que um jornal precise de receita com origem tão suja. Tal qual o exemplo do jornal Vale Paraibano, muitos outros veículos permitem que tal informação circule em sua páginas. É algo tão grave quanto anunciar a venda de papelotes de cocaína!

Um jornal que se esforça para se aproximar da comunidade e das escolas não deveria, em minha opinião, ser vetor desse tipo de ‘acesso’. Não consigo crer que os criminosos que fizeram esses anúncios dispensarão uma menina de 16 anos que os procure simplesmente por ser menor de idade. Veja, as implicações de anunciar tal informação são terríveis. Não se trata de pecar por omissão. O jornal passa a figurar como agente facilitador de exploração sexual e, pior, em muitos casos de exploração sexual de jovens e crianças. Esses anúncios têm que ser banidos dos jornais. (Ricardo Casaca, headhunter, São José dos Campos, SP)

******

Locutor de rádio e acadêmico de jornalismo

Todos os comentários

x

Indique a um amigo

Este é um espaço para você indicar conteúdo do site aos seus amigos.

O Campos com * são obrigatórios.

Seus dados

Dados do amigo (1)

Dados do amigo (2)

Mensagem