Quinta-feira, 17 de Outubro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1059
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CADERNO DA CIDADANIA >

O Enem e a cobertura da mídia

Por Eliane Bardanachvili em 28/07/2009 na edição 548

No dia 19 de julho encerraram-se as inscrições para o Enem 2009 e o Ministério da Educação (MEC) publicou em seu site testes simulados para os 4.500 alunos inscritos se exercitarem no novo perfil do exame a ser realizado em outubro. Esses alunos talvez não saibam, mas ditarão, de acordo com seu desempenho, o perfil das matérias sobre educação que a mídia publicará em 2010, quando forem divulgados os resultados.

A forma como a imprensa se comporta na cobertura do Enem é uma boa oportunidade de se discutir a cobertura de educação de forma geral. Embora o Enem não avalie escolas, mas alunos, os resultados do exame têm sido utilizados para a produção de matérias que põem as instituições de ensino no centro da pauta de forma espetacularizada. Em abril deste ano, quando foram divulgadas as notas da edição 2008 do exame, a imprensa fartou-se de apontar ‘as piores e melhores escolas’ – do estado, da cidade, do bairro, do país… –, a partir de um ranking indevido, fabricado nas redações com as informações enviadas pelo MEC – que não divulga ranking, apenas as notas obtidas pelos alunos e o local onde estudam.

Podemos conferir, por exemplo, no site do jornal O Dia, o Enem tratado como disputa; a matéria usa inclusive o termo bicampeonato para se referir a uma escola que se apresentou no topo da lista das melhores pelo segundo ano consecutivo. As ‘melhores’ e as ‘piores’ estão ali, listadas, julgadas e sentenciadas.

Desafios do novo século

Por mais que estejamos diante dos desafios da imprensa no século 21, em que qualquer pessoa pode ser produtora e divulgadora de informação – mas não jornalista! –, aquilo que os grandes veículos de massa publicam tem peso especial e orienta formas de pensar. Estudiosos do jornalismo nos mostram que a notícia, ao mesmo tempo em que define, também dá forma a um acontecimento, ajudando a constituir a realidade como um fenômeno social compartilhado. Assim, não só o acontecimento cria a notícia, como a notícia cria o acontecimento (Traquina, 1993).

E a serviço de que estão matérias como essas? De reforçar estigmas, limitar olhares, emperrar o compartilhamento de propostas de mudanças. Como não é surpresa que a educação brasileira tem muito a melhorar, as matérias em tom espetacularizado e de denúncia pouco dizem de novo ao leitor. Não se trata de camuflar a realidade – se os resultados não foram bons, que isso seja noticiado –, mas de enriquecer a forma como se olha para essa realidade. E isso, sim, é um papel que a mídia pode assumir ao se dirigir aos seus leitores/espectadores/ouvintes/internautas. A denúncia pura e simples, embora atraente, é pouco para um jornalismo que pode cumprir importante função social, fornecendo régua e compasso para que seu público trilhe os próprios caminhos na análise dos cenários. As escolas, os professores, os alunos, os cidadãos nem sempre se veem representados nas denúncias que a mídia publica. São muitas vezes, os primeiros a protestar ao verem sua escola no centro de denúncias e problemas.

A mídia produzida de forma aligeirada, pouco convidativa à reflexão, tratando de temas profundos e complexos de forma superficial – e, por vezes, leviana – desperdiça possibilidades. No caso do Enem, por exemplo, a avaliação aparece como algo que julga e condena (as piores escolas…), quando poderia ser mostrada como propiciadora de diagnóstico e de correção de rumos. Não temos no país uma cultura da avaliação como parte de um processo. Para nós, o resultado de uma avaliação é o fim da linha: deu certo ou não deu certo, e ponto final. A forma como se veiculam as matérias sobre o Enem só vem reforçar isso.

Se aumentou a atenção de jornais, revistas e telejornais para a temática da Educação, ainda não se chegou à compreensão do que é necessário para que se garanta uma boa cobertura. Esta carece, ainda, de muitos ajustes por parte da mídia. Algumas de suas características merecem ser lembradas para ajudar na reflexão.

Relevante mas sem editoria

Uma primeira constatação é que Educação não tem status de editoria nas redações – tal como ocorre não só com Cultura, Política, Economia e Esportes, para ficarmos entre as grandes, que integram de forma perene o organograma, mas também com Ciência, Meio Ambiente e Saúde. Todos esses assuntos merecem espaço próprio nas páginas dos jornais. Já a Educação, a despeito de sua relevância, não merece… As matérias de educação disputam espaço com a prisão do traficante, a queda do avião etc. Com isso, prevalece o tom de denúncia no tratamento do tema, para tornar a matéria ‘interessante’ e capaz de se sobressair em meio a outros considerados mais ‘atraentes’ aos olhos do leitor.

Outra constatação importante, que explica um pouco a primeira, é que, geralmente, quem cobre Educação é um jornalista de Cidades ou de Brasil, deslocado para tratar do tema sem qualquer informação prévia, sem preparo, sem conhecimento adequado. Existem poucos setoristas. E menos ainda que se dediquem a uma cobertura qualitativa, analítica. Em televisão, essa lacuna é ainda mais gritante. O repórter que mostra ‘a pior escola no Enem’ é o que acabou de tratar do acidente de trânsito ou da falta de médicos no hospital municipal. E, quando há jornalistas voltados a ‘cobrir educação’, esses o fazem pelo viés do factual, do oficial, da denúncia ou do serviço (como escolher uma boa escola para o seu filho, como ganhar bolsa para o exterior, como estudar para o vestibular etc.).

Um ponto interessante, ainda, é que, uma vez que Educação não integra as redações de forma estrutural, o perfil dessa cobertura, em geral, condiciona-se aos profissionais que estão ali em determinado momento. É, em geral, em brechas que um editor-chefe mais sensível ao tema cria um caderno ou abre espaço regular para a Educação, designando um profissional específico para a produção de reportagens de fundo, analíticas, contextualizadas. Se vai embora o editor ou o repórter, a cobertura com esse perfil cessa imediatamente.

Falta reflexão nas redações

O fato de a (boa) cobertura de Educação vir rebocada por visões, desejos e empenho de jornalistas que assumem de forma pontual o comando de jornais e/ou de editorias, bem como de repórteres especializados no tema, capazes de enxergar pautas que vão para além da cobertura das mazelas das escolas públicas do país, demonstra a forma como a grande mídia encara ‘o que é notícia’. Leva-nos, ainda, a perceber o quanto um jornalismo reflexivo, em franca expansão no meio acadêmico – nos cursos de pós-graduação, nos artigos e livros publicados, nos congressos e seminários – não se transporta para o dia a dia das redações. O jornalista consciente de sua função de mediador, como profissional capaz de lidar de forma crítica na relação que faz entre a realidade e o processo de produção jornalística e seus necessários filtros e recortes, ainda está por se constituir.

A forma como esses recortes da realidade se dão, os critérios utilizados para fazer as escolhas de fontes de informação, de temas, de conteúdos, o aprofundamento ou o aligeiramento que podem caracterizar a apresentação de determinado assunto definem o quanto a mídia/o jornal aproxima-se ou se afasta de uma pertinente natureza educativa, ao informar. E é justamente a cobertura de Educação que nos mostra com nitidez o quanto essa mídia ainda está distante de seu potencial de… educar.

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Jornalista, mestre em Educação pela UFRJ

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