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Sexta-feira, 17 de Agosto de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1000
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CADERNO DA CIDADANIA > MÍDIA & EDUCAÇÃO

O ensino vai mal e Veja conhece os culpados

Por Gabriel Perissé em 19/08/2008 na edição 499

A principal reportagem da revista Veja desta semana (edição nº 2074) aborda, uma vez mais, a qualidade do nosso ensino, aproveitando a oportunidade para (de novo!) comparar o Brasil medíocre à insuperável Finlândia.

A idéia central da matéria é a de que não temos consciência do quanto vai mal o ensino brasileiro. A fonte desta certeza é uma pesquisa encomendada pela própria Veja à CNT/Sensus. As jornalistas Monica Weinberg e Camila Pereira querem abrir nossos olhos. A pesquisa revela que a maioria dos docentes, pais e estudantes está satisfeita, embora indicadores e resultados em abundância demonstrem graves problemas: alunos semi-analfabetos, professores com preparação insuficiente, repetência e outros.

Conclusão: nós não nos enxergamos direito. Estaríamos conformados perante uma situação muito longe da ideal. Os pais cujos filhos freqüentam escolas particulares, investindo no fracasso. Os pais cujos filhos estão nas escolas públicas, acreditando na ilusão.

Mas a matéria prossegue. E pretende colocar o dedo na chaga. Estamos nessa situação porque professores, livros didáticos e apostilas antepõem ao ensino a doutrinação esquerdista. Os professores, segundo a mesma pesquisa, identificam-se com Paulo Freire e Marx. Em sala de aula, elogiam Che Guevara e Lênin. Deixam em segundo plano o ensino de língua portuguesa, aritmética, física. Não ensinam o que interessa… em nome da ideologia.

Mera coincidência

Aproveitando a carona, o economista Gustavo Ioschpe aponta a neutralidade como um dever dos professores. Essa história de ‘formar cidadãos conscientes’ e ‘desenvolver a criatividade e o espírito crítico dos alunos’ seria, no fundo, sonegar o conhecimento necessário à profissionalização do indivíduo. Aulas politicamente neutras solucionariam nossos problemas.

De fato, é desejável acompanhar o que ‘rola’ em nossas salas de aula, identificando motivações ideológicas (afinal, isso é também formar cidadãos críticos), mas fica difícil aceitar o véu ideológico da neutralidade política com que a revista Veja se cobre. Denunciando a mistura entre ideologia de esquerda e educação, defende (dissimuladamente) a mistura que faz entre ideologia de direita e informação, entre interesses econômicos e jornalismo.

Curiosamente, entre as páginas 72 e 87, em que Monica Weinberg, Camila Pereira e Ioschpe escrevem, surgem três páginas (79, 81 e 83) publicitárias, nas quais o grupo Santander Brasil se apresenta como o melhor banco do mundo. Será uma alusão à ‘educação bancária’ de que falava Paulo Freire? Não… isso é mera coincidência. Pura neutralidade.

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Doutor em Educação pela USP e escritor; www.perisse.com.br

Todos os comentários

  1. Comentou em 21/08/2008 Roberto Silva

    Lendo sobre o tema ‘qualidade de educação’ acho que o comportamento do avestruz diante do perigo é a melhor representação do quadro. Um dado objetivo da reportagem da Veja (nossos resultados em exames internacionais) foi olimpicamente ignorado pelo articulista em prol da desqualificação da revista. Evidentemente está em seu direito. Agora, alguem aí me aponte: onde é que nossa educação foi comparada com a da Finlândia? Não somos iguais a eles? Claro que não! Agora não dá para se conformar com as colocações de nossos alunos em exames como Pisa, etc. O que resta fazer então? Ignoremos os resultados (conteúdo) e vamos discutir o sexo dos anjos (forma). Neste caso, enquanto o mensageiro for mais importante que a mensagem nossa mediocridade sempre terá um terreno fértil para prosperar…

  2. Comentou em 20/08/2008 Carlos N Mendes

    Se doutrinação de esquerda destrói o ensino, os cubanos devem ser analfabetos…

  3. Comentou em 19/08/2008 Ivan Moraes

    1-‘Estamos nessa situação porque professores, livros didáticos e apostilas antepõem ao ensino a doutrinação esquerdista’: isso eh mito plantado no Brasil (que eu saiba) no fim dos anos 60. Nao, nao esta vivo, esta mortinho, essa eh a razao que apareceu na Veja. Os dois unicos professores que eu tive que faziam pregacao politica aberta na escola eram ambos militares, portanto direitistas. Tenho certeza que ambos casaram com gorduchas que batiam neles. 2-A Veja ja deixou de atacar professores algum dia? O google esta ai pra quem quer pesquizar.

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