Sexta-feira, 15 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

CADERNO DA CIDADANIA > FIM DE SEMANA, 15 E 16/12

O Estado de S. Paulo

18/12/2007 na edição 464

GOVERNO LULA
João Domingos

Planalto gastará R$ 150 milhões com propaganda

‘A Presidência da República vai contratar três agências de publicidade para cuidar de sua propaganda institucional nos próximos anos. Serão gastos R$ 150 milhões por ano. Os contratos terão vigência de 12 meses, prorrogáveis por mais 48. Trinta e seis agências disputam a licitação. O prazo para a entrega terminou na quinta-feira. Os envelopes serão abertos amanhã.

Durante os primeiros três anos do governo de Luiz Inácio Lula da Silva, a conta da Presidência foi atendida pela Duda Mendonça, pela Matisse e pela Lew, Lara. Com a crise do mensalão, em 2005, e a suspeita levantada pela Polícia Federal de envolvimento de Duda Mendonça no escândalo, sua agência deixou o governo em 2006. Desde então, a publicidade institucional ficou a cargo das outras duas.

De acordo com informação da Secretaria de Comunicação Social (Secom), desta vez as agências dividirão o bolo publicitário em nacos semelhantes. Nos cinco anos anteriores, uma delas poderia ficar com até 70% – parte que coube à agência Duda Mendonça – e as outras com, no mínimo, 15%.

Os contratos puderam ser prorrogados por 48 meses, regra que valerá para a atual licitação.

Desta vez, porém, haverá um importante diferencial em relação ao processo anterior. Na fase de avaliação da proposta técnica, o item plano de comunicação publicitária – parte considerada a mais importante desta etapa – não terá identificação do nome das agências participantes.

A licitação será do tipo ‘melhor técnica’. A proposta de melhor preço será submetida à aceitação pelas três agências vencedoras do processo licitatório na fase técnica.

O tema da campanha apontada no edital é relacionado ao programa de revitalização e ao projeto de interligação das bacias do Rio São Francisco – o anterior era sobre o Fome Zero, programa que o candidato Lula considerava o mais importante de seu primeiro ano de governo.

De acordo com o edital, as agências devem manter, no mínimo, 13 profissionais instalados em Brasília. Além de contar com um núcleo de mídia, com pelo menos seis técnicos, para prestar atendimento à Secom.

Por determinação do Tribunal de Contas da União (TCU), as agências vencedoras ficarão proibidas de fazer para a Presidência da República serviços de assessoramento e apoio na execução de ações de assessoria de imprensa, relações públicas, promoção, patrocínios, organização de eventos, planejamento e montagem de eventos em feiras e exposições.

A Secom fará também licitação para a produção da nova página da Presidência da República na internet e para a contratação de uma empresa de promoção do Brasil no Exterior. Outra concorrência deverá escolher uma empresa de pesquisas de opinião e avaliação sobre temas ligados às políticas públicas e serviços do Poder Executivo federal, para orientação das ações de comunicação.’

 

TELECOMUNICAÇÕES

Ethevaldo Siqueira

Governo confisca bilhões e encarece telefonia

‘O ministro das Comunicações, Hélio Costa, costuma criticar as elevadas tarifas telefônicas brasileiras. Não diz, contudo, que um dos maiores responsáveis por esses preços elevados é o próprio governo, já que os tributos – impostos, taxas, fundos e outras contribuições – representam mais de 40% do valor dos serviços telefônicos no País e cuja arrecadação anual supera a recém-falecida CPMF.

Neste ano, nós, usuários de telefonia, estamos pagando R$ 52 bilhões de tributos aos governos estaduais, municipais e federal. Da receita global do setor – R$ 132 bilhões – só R$ 80 bilhões são serviços. O resto é tributo.

É claro que existem outras causas para o preço elevado dos serviços, tais como o baixo grau de competição na telefonia local e o reduzido poder aquisitivo da maioria da população. E, para agravar esse quadro, o cidadão brasileiro não parece estar ciente dos tributos que paga.

Minha conta de energia elétrica residencial, que inclui meu escritório doméstico (ou home office), totalizou neste mês R$ 898,27. Embutidos nesse valor, estão R$ 224,56 de ICMS, mais R$ 28,55 de PIS e Cofins. Tomando por base a tarifa líquida de serviços, de R$ 645,16, a tributação alcança o nível absurdo de 39,24%.

O que ameniza um pouco a situação da energia elétrica são os critérios de tarifa social. Quanto menor o consumo, menor o valor do quilowatt-hora (kWh). Em telefonia residencial, não há qualquer diferenciação de tarifa. Banqueiro e lavadeira pagam a mesma coisa, tanto na telefonia fixa como no celular.

CAMPEÃO DO MUNDO

Nenhum país no mundo tributa em níveis tão elevados as telecomunicações como o Brasil. Utilidades essenciais, como energia e comunicações, são taxadas aqui com as mesmas alíquotas dos artigos de luxo.

Estou pagando minha conta telefônica de dezembro, no total de R$ 788,29. Desse montante, R$ 566,15 são serviços. O resto são tributos: R$ 197,06 de ICMS, com uma alíquota de 25% calculada ‘por dentro’ – e mais PIS e Cofins, no valor R$ 25,08. Total de tributos: 39,24%.

No caso concreto da telefonia, além dos 39,24% de tributos que pagamos, a concessionária recolhe, outras contribuições, a título de Fundo de Universalização dos Serviços de Telecomunicações (Fust), Fundo de Fiscalização das Telecomunicações (Fistel) e Fundo para o Desenvolvimento Tecnológico das Telecomunicações (Funttel).

Mesmo abocanhando tanto de nossas contas telefônicas, o Estado brasileiro não tem nenhuma obrigação de investir no setor de telecomunicações, diferentemente do que ocorre no setor de energia elétrica. Só lhe compete arrecadar. Na prática, depois de ter privatizado a Telebrás, o governo se tornou o maior sócio das receitas setoriais.

O cálculo de imposto ‘por dentro’ é artifício matemático. Veja a malícia, leitor, de uma conta hipotética de R$ 100, com um único imposto de 25%. Nela, há duas parcelas distintas: R$ 75 de serviços e R$ 25 de imposto (como ICMS). Assim calculado, o imposto equivale a 25% do total da conta. Comparando-se os R$ 25 de imposto com os R$ 75 de serviços, comprova-se que o tributo equivale a 33,33% dos serviços.

Com a expansão acelerada da base instalada de telefones, cresce a cada dia o volume de tributos cobrados das telecomunicações, sem falar no confisco de mais R$ 3 bilhões de fundos de destinação específica (Fust, Fistel e Funttel), que são simplesmente enxugados pelo Tesouro Nacional.

FUST E FISTEL

O Fust, criado no ano 2000, já acumulou mais de R$ 6 bilhões de recursos sugados das receitas setoriais, sem ter aplicado praticamente nada nas finalidades de sua criação, que incluem coisas importantes como levar a telefonia às áreas mais pobres, informatizar escolas e hospitais e ampliar a inclusão digital no País. Esses R$ 6 bilhões já foram transformados em superávit fiscal. Não voltam mais.

Resta ainda o Fistel, recolhido pelas empresas, que deveria ser integralmente aplicado na fiscalização dos serviços, por intermédio da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel). Neste ano, só de taxas do Fistel, serão recolhidos de R$ 2,4 bilhões, valor que supera o total recolhido em todo o ano passado. Desse total, o governo destina apenas R$ 355 milhões para o orçamento da Anatel de 2007. Os excedentes R$ 2 bilhões do Fistel são embolsados pelo governo.

Conforme estudo da Associação Brasileira de Telecomunicações (Telebrasil), em parceria com a consultoria Teleco, a arrecadação acumulada do Fistel, de 2001 a 2006, foi R$ 6,5 bilhões, enquanto os orçamentos da Anatel somados não passaram de R$ 1,4 bilhão. Resultado: uma diferença de R$ 5,1 bilhões que foram destinados ao superávit primário. Ou, na linguagem popular: foram para o ralo.

Conclusão: o governo não aplica os recursos do Fust na universalização dos serviços de telecomunicações, como determina a lei que criou esse fundo. E pior: tudo que foi acumulado e não utilizado já desapareceu para sempre, pois o governo não devolve, direta ou indiretamente, esses recursos aos contribuintes. Nem do Fust, nem do Fistel, nem do Funttel.’

 

THE TIMES

William Rees-Mogg

Uma história de vida e o jornal ‘The Times’

‘O jornal The Times foi fundado em 1785, como The Daily Universal Register, por John Walter, que acumulava as funções de empresário, publisher, proprietário e editor. Em 1789, a Bastilha foi tomada, o que levou à Revolução Francesa, ao Terror, à ascensão de Napoleão e às guerras napoleônicas. Em 1815, aquele período foi encerrado pela vitória anglo-prussiana em Waterloo. Ao navegar rumo a Santa Helena, Napoleão pediu um exemplar do Times, então o jornal mais respeitado do mundo. Mais tarde, Abraham Lincoln comparou o poder do Times ao do Mississippi, mas mesmo naquela época tratava-se de bajulação vinda de um político.

Na semana passada, a News Corporation anunciou que James Murdoch assumiria, entre outras responsabilidades, a supervisão da administração da Times Newspapers, incluindo o desenvolvimento estratégico e operacional do jornal The Times. Ao mesmo tempo, Robert Thomson, editor do diário, será o publisher do Wall Street Journal e James Harding o próximo editor do Times.

Pelos padrões da imprensa britânica, o Times tem sido uma instituição bastante estável. Pelos meus cálculos, Murdoch é o 11.º publisher em 220 anos, numa lista que inclui proprietários como lorde Northcliffe, lorde Thomson of Fleet e seu próprio pai; obviamente, a contagem depende de quem consideramos publishers. Harding será o 17.º editor desde 1817, quando as funções de publisher e editor foram separadas e Thomas Barnes foi nomeado editor.

Na história do Times, tornou-se rara a mudança simultânea do proprietário ou publisher e do editor. As duas ocasiões anteriores foram em 1967 e 1981; estive envolvido em ambas. Em 1967, Roy Thomson comprou o Times do lorde Astor of Hever e formou uma nova companhia, Times Newspapers Limited, que uniu o Times e o Sunday Times. Fui nomeado editor do Times; Harold Evans assumiu a edição do Sunday Times.

Em 1981, Kenneth Thomson vendeu a Times Newspapers a Rupert Murdoch. Apoiei totalmente essa transação como a melhor maneira de salvar o Times, mas senti que o jornal precisava de um novo editor, depois da paralisação de um ano, que havia cansado a todos.

A paralisação fora uma tentativa malsucedida de fazer com que os sindicatos de gráficos aceitassem novas tecnologias. Murdoch conseguiu introduzir as novas tecnologias, mas só depois da mudança para a área londrina de Wapping e de uma dura disputa com os sindicatos.

No século 20, três proprietários salvaram o Times: lorde Northcliffe, lorde Thomson e Rupert Murdoch. E Murdoch teve a tarefa mais difícil. Todo jornal deve ser capaz de se modernizar, em termos editoriais, comerciais, tecnológicos e competitivos. Um jornal precisa ser modernizado para um público contemporâneo.

O Times tira vantagens consideráveis de seu caráter tradicional e institucional. O caráter histórico lhe dá autoridade adicional; os leitores do Times nem sempre aceitam sua interpretação dos fatos, mas tendem a acreditar que o jornal tenta honestamente noticiá-los corretamente. Essa confiança é um grande bem, mas é contrabalançada por uma imagem quase inevitável de ligação com o establishment. No período pós-guerra, hoje de 60 anos, o Times sempre foi um jornal altamente independente, mas estivemos próximos demais do establishment nos anos 30.

Em janeiro de 1967, quando a nova diretoria da Times Newspapers me nomeou editor, a visão tradicional do Times ainda era muito forte, com suas vantagens e desvantagens. Meu antecessor, sir William Haley, havia sido diretor-geral da BBC quando a emissora ainda era um monopólio nacional. Ele era um bom editor de jornal, que me deixou uma equipe muito forte, mas era naturalmente sério e tinha um temperamento um pouco puritano. Seu Times havia mantido boas relações com um establishment britânico que dedicara todas as suas energias a vencer a guerra. Isso havia endurecido sua alma.

Ainda havia um respeito por posições de autoridade que parecia natural para a velha cultura britânica. Um dia depois de minha nomeação, recebi uma nota de felicitação de John Sparrow, então diretor do All Souls College, em Oxford, afirmando que agora que eu havia me tornado editor do Times, poderia morrer tranqüilamente durante a noite, pois havia atingido um dos pontos mais altos possíveis na vida de um inglês.

Naquela época, existiam cargos indubitavelmente ingleses com uma certa dignidade romântica, às vezes associada a nomes excêntricos – Warden of All Souls, Master of the Rolls, Lord Chancellor, Archbishop of Canterbury, Provost of Eton, Viceroy of India (até 1947), President of the Royal Society e, devemos admitir, Editor of The Times. Isso podia subir à cabeça.

Ainda há um elemento romântico associado ao cargo, mesmo numa era mais prosaica. Ele não se equipara a nenhuma outra função de editor na Grã-Bretanha, no mínimo porque, em termos globais, é muito mais conhecido. Mesmo como ex-editor, o cargo me deu acesso para entrevistar o presidente da China, Jiang Zemin; acesso é a chave para a informação e o editor do Times tem muito acesso ao redor do mundo.

Em 1967, trabalhávamos para atingir os potenciais leitores que estavam com menos de 40 anos, e ainda têm menos de 80. A primeira grande decisão que tomamos foi desenvolver uma seção de Economia separada. Eu havia sido responsável no Sunday Times pela criação da seção de Economia, que fora um grande sucesso. Meu aprendizado ocorrera no Financial Times, como no caso de Robert Thomson e James Harding. Em 1967, nosso objetivo era transformar o Times num jornal de assuntos gerais atraente para os empresários – algo que o jornal certamente é hoje.

Agora haverá, inevitavelmente, competição global entre o Financial Times e o Wall Street Journal sob a propriedade da News Corporation. O FT formou três editores do Times nos últimos 40 anos; talvez haja alguma ironia nisso.’

 

REVISTA NORTE

Francisco Quinteiro Pires

Quando o norte da produção cultural é traçado pelo Sul

‘O editorial de apresentação da estreante Norte recebe título de Carta de Navegação. Ali a revista apresenta informações sobre a gênese e as justificações do novo periódico cultural, publicado pela editora Arquipélago (www.arquipelagoeditorial.com.br), baseada no Rio Grande do Sul. ‘A idéia era criar uma revista que, produzida no extremo sul do Brasil, não tivesse em sua pauta a restrição dos assuntos locais.’

Fugindo ao bairrismo que por vezes afeta a produção cultural na Região Sul, a bimestral Norte (34 págs., R$ 3,50) adota o ponto de vista sulista, mas sem prescindir do diálogo e da diversidade para compreender as coisas do mundo.

A primeira edição tem a predominância da literatura, entre ensaios e ficções. O crítico literário José Castello assina o artigo Crônica: Um Gênero Brasileiro. Ele defende a idéia de que os cronistas trazem à literatura a leveza da escrita sobre o que é gratuito e impulsivo, sem a obrigação de brilho, superação ou choque no processo literário.

Embora tenha seu elemento de leveza, não é nem um pouco fácil praticar a crônica, considerada gênero menor por alguns e jornalismo por outros. Mas, apesar dos críticos e da difícil classificação, ela permanece. E vem de longe: José Castello chama de primeiros cronistas os missivistas que relatavam o Novo Mundo na época dos Grandes Descobrimentos, embora tivessem uma função pragmática e estivessem ligados mais à História do que à literatura. A crônica se aproximou da ficção com a expansão da imprensa, no século 19. Os primeiros cronistas regulares no Brasil foram também grandes escritores, como José Alencar, Machado de Assis, Olavo Bilac e João do Rio. Mas ela se firmou como gênero brasileiro ao longo do século 20 graças à contribuição dos inventivos Rubem Braga, Paulo Mendes Campos, Sérgio Porto, Carlos Oliveira, Raquel de Queiroz, Fernando Sabino e Henrique Pongetti.

Ele tornaram a crônica um espaço da liberdade, em que se dispensavam pompas e cânones literários. O cronista não tem compromisso com nada nem com ninguém – nem com a verdade dos fatos, estrutura do jornalismo, tampouco com a prevalência da imaginação, alicerce da literatura.

O escritor manipula verdade e ficção a seu bel-prazer e a partir de uma perspectiva pessoal e confessional. José Castello afirma que o cronista é incompreendido porque habita a zona limítrofe entre o verdadeiro e o inventado. E é ele quem continua a fazer a quente conexão entre vida e literatura.’

 

TÚNEL DO TEMPO

O Estado de S. Paulo

O jornalismo do passado para leitores do presente

‘Quando o jornalista Moacir Japiassu criou a revista Jornal dos Jornais, em 1999, a intenção era denunciar a incompetência, a burrice e a picaretagem da imprensa . Dentro desse periódico, existia uma seção sob os cuidados de José Sebastião Witter chamada de Túnel do Tempo. Nela Witter, que dirigiu o Museu do Ipiranga, publicava artigos e matérias veiculadas por jornais da época do Império e da República Velha. O objetivo era familiarizar o leitor com o jornalismo do passado por meio de editoriais escritos por autores como Ferreira de Araújo, José do Patrocínio, Medeiros e Albuquerque, Olavo Bilac, etc. E, ao relevar o passado, propiciava a possibilidade de cultura jornalística aos brasileiros.

Túnel do Tempo José Sebastião Witter Ateliê 128 págs., R$ 22′

 

MEU NOME NÃO É JOHNNY
Flávia Guerra

Nasce um Estrella

‘O nome dele não é Johnny. É João Guilherme Estrella. E a sina do sobrenome traçou para a vida desse carioca da gema uma trajetória meteórica. Hoje é o João Guilherme, produtor musical. O João Guilherme empresário de Ivo Meirelles, presidente da bateria da Mangueira, cujo morro ele sempre sobe para sambar na pista e tomar raras cervejas.

Muito longe de ser um joão-ninguém, hoje ele é um ‘cara normal’. Mas João já foi Johnny, ‘o maior vendedor de cocaína da Zona Sul carioca’. Sua estrela esteve em franca ascendência e garantia ‘muito brilho’ às festas estelares da elite carioca dos anos 80, quando a cocaína caiu na corrente sanguínea da cidade. E despencou na década seguinte. Digna de uma quasar, a estrela de João quase foi sugada por buracos negros astronômicos. Ele foi preso, processado por tráfico de drogas e se viu diante da ameaça de passar a vida na cadeia.

‘O poderoso traficante Johnny foi preso hoje pela Polícia Federal’, diziam os telejornais em 25 de outubro de 1995. ‘Meu nome não é Johnny’, limitou-se a bradar João na nova casa que havia ganhado: uma cela em que dividia o exíguo espaço com dezenas de outros ‘indivíduos perigosos’. Como todo calibre grosso do tráfico que se preze, João tinha um apelido. Ou quase. A alcunha ele ganhou da imprensa. Material para as ficções cotidianas que precisam rechear os noticiários diários. O calibre nunca foi muito grosso. Nem de mérito. Nem de fato. Em poucos anos, mais com lábia que com força, ele tinha se tornado um ponto-chave de uma vertiginosa rede de tráfico. Era a bola da vez da Polícia Federal. Sua arma, contudo, eram seu carisma e sua lábia. Para ele, dar um tiro nunca havia significado mais que traçar a tradicional ‘carreira’, aquela em que cartões de crédito se tornam espátulas para separar o pó branco em superfícies muito lisas.

Nenhum tiro foi disparado. Mas João morreu naquele dia de outubro, quando o apartamento em Copacabana, onde ele e dois amigos preparavam seis quilos de cocaína que, mais uma vez, levaria para a Europa, foi invadido pela polícia. Era de se pensar que o destino que os astros haviam reservado para Estrella tivesse se cumprido. Mas a jornada estava apenas começando.

Depois de meses na cadeia, condenado a passar dois anos no Manicômio Judiciário e muitos tempo depois de sua mãe descobrir qual era o trabalho do filho – ela só soube com a notícia da prisão, divulgada no Jornal Nacional,- o sobrenome Estrella nunca ecoou tão alto. Hoje basta ir a qualquer grande cadeia de cinema para se deparar com o trailer de Meu Nome não é Johnny, longa-metragem estrelado por Selton Mello e dirigido por Mauro Lima, que refaz a trajetória de João e é inspirado no livro homônimo que o jornalista Guilherme Fiúza lançou nos anos 90. ‘Então, você é o famoso João Estrella?’ Quando a Cleo Pires disse isso eu afundei na cadeira e parecia que o mundo estava olhando para mim’, diz o dono da fama. ‘Fui ao cinema com minha mulher e não sabia que o trailer já estava sendo exibido. Muito menos que meu nome era mencionado em alto e bom som!’

Escancarar sua trajetória e tirar a névoa que sempre paira sobre a história de qualquer ex-criminoso não foi e não é motivo de susto para João. Muito menos falar sem tomar precauções e checar se se está sendo politicamente correto a cada vírgula. O que tem de fato surpreendido esse ex-garoto de praia, que resolveu surfar por ondas mais sinuosas que as de Ipanema, é a reação dos jovens que eram crianças quando ele foi preso.

Desde sua libertação em 1998, João já concedeu centenas de entrevistas, mas surpreende-se com um fato novo: nada de novo. Ou quase. ‘Vejo que hoje, depois de tanto tempo e tanto se falar de drogas, liberação e uso, na mídia, na TV, na escola, é ainda um assunto tabu, sim. Não no sentido do que não se fala. Mas não se fala com sinceridade. A grande maioria dos jovens ainda não encontra em casa uma posição que, em vez de julgar, oriente. O que não significa que não se deva impor limite.’

De limite, ele hoje entende. Como bem o diz o slogan do filme, João tinha tudo. Menos limite. E, até entender em que ponto se deve parar e traçar a fina linha vermelha entre o certo e o errado, rodou muito. ‘Na minha vida nunca teve muito o dentro e o fora da lei. As coisas foram acontecendo. Em um dos debates, um dos garotos ia fazer o jornal da escola. E ele, bem jornalista, perguntou: ‘E a hipocrisia? Você curtiu pra caramba e agora vem dizer para a gente não fazer nada e ser santo!’ Aquilo me baqueou. Caiu a ficha da responsabilidade que é falar com o adolescente.’

A franqueza surpreendeu João. ‘Os jovens não me julgam. Muito menos são condescendentes. Eles me tratam de igual para igual. Querem saber quem é o João e não o Johnny. Muitos me procuram depois dos debates para falar de suas dúvidas. Os na fase de 15, 16 têm mais curiosidade. É um rito de passagem, a primeira vez que se experimenta uma droga.’ A velha combinação fatídica do ‘jovem de família disfuncional que acaba se perdendo pelo caminho dos tóxicos’ não se aplica a João. ‘Não tem nada disso. Tinha problemas como todos. Eu tive tudo. É claro que a primeira vez que acendi um baseado estava a fim de aventura, de transpor meus limites e de me integrar à minha turma’, admite, deixando a hipocrisia em outra galáxia.

De fato. De hipocrisia os olhares caridosos estão cheios. Como fugir do clichê de perguntar a um ex-vendedor de cocaína se ele é a favor ou não da liberação do uso e da venda de drogas? E se ele sabia, como diz um amigo no filme, ‘que não estava vendendo pulseirinha de crochê em centro acadêmico’?

‘Não considero séria esta discussão no Brasil. Não diria hoje que sou a favor ou contra. Mas não estamos preparados para isso. Não é só questão de liberar ou não. O tráfico de drogas virou uma questão social importante. Mas é ridículo culpar a classe média por isso. Se liberar, toda essa ‘economia informal’ vai para a rede formal de serviços. Como é que os grandes traficantes dos morros vão ganhar o que ganham hoje? Vão partir para ‘outra atividade’. É preciso criar oportunidades nas favelas para que a comunidade não dependa do tráfico’, diz. ‘Não é só questão de ser bandido ou não. Vejo os meninos da Mangueira. Como todo jovem, chegam a uma idade em que vão querer, sim, ter um tênis bacana. Como pagar isso? Vão ter trabalho? A grande maioria ou vai ser da bateria da escola ou vai entrar pro tráfico. Enquanto isso, toda hora também se vê jovem da classe média e média alta ser preso por tráfico. Só que de ecstasy, que hoje é a droga que não passa pela favela.’

Qualquer semelhança com jovens da classe média alta carioca que estamparam, há pouco, as páginas dos periódicos, não é mero destino. ‘No meu tempo, quem cheirava cocaína era rico. Hoje pobre também cheira. Rico cheira a boa. Pobre cheira a ruim. Droga de rico hoje é ecstasy. Nem celular existia. Mas o problema ainda é o mesmo.’

Celular, internet e o buraco negro social que o tráfico de drogas se tornou no Brasil não passavam perto das festinhas regadas a Nelore Puro, a ‘cocaína de grife’ que João vendia para moças e rapazes de fino trato, que, assim como seu fornecedor, não eram freqüentadores das bocas em tantas favelas. Trazida do Mato Grosso, a cocaína com nome de gado (o negócio de fachada) era refinada em um dos maiores laboratórios da América do Sul, em Rondonópolis, a 400 quilômetros da fronteira com a Bolívia.

Era repassada direto da fonte para João, que a vendia e distribuía com fartura para amigos. Vale citar o livro de Fiúza para entender sua filosofia. Em uma de suas idas à Europa, seu contato disse: ‘Meu objetivo é juntar um milhão de dólares’. E João: ‘O meu é torrar um milhão’.

Foi essa falta de visão empresarial o seu maior defeito e sua tábua de salvação. Quando se viu diante da juíza Marilena Soares, que era osso duro de roer, usar a fraqueza como força de defesa foi mais que estratégico. Foi legítimo. João alegou ser dependente e consumidor da droga que vendia. Marilena viu em sua história mais que a trajetória de um bandido comum. ‘Ele é a prova viva de que é viável recuperar as pessoas. É o atestado de que nossa luta não é em vão’, apostou ela. Apostou e ganhou. Mas o discurso ‘estava escrito nas estrelas’ e entregar a responsabilidade a Zeus não se aplica. ‘Hoje, minha vida virou filme, e penso na volta que tive de dar para conseguir ser o que queria desde criança: músico.’ Era o preço a ser pago? ‘ Passei o que tinha de passar. Claro que o apelo de lançar um disco do cara que já foi preso é grande. Mas meu maior prazer hoje é a normalidade.’

Hoje João se prepara para concluir, com a estréia do filme, em 4 de janeiro, sua maior operação: um CD. ‘O verdadeiro lugar de nascimento é aquele em que lançamos pela primeira vez um olhar inteligente sobre nós mesmos (…)’, dizia o cartão enviado pela juíza Marilena no primeiro Natal que ele passou preso. Depois do colapso, nasce sempre uma supernova. Hoje, João Estrella, o músico, sabe disso. Nasceu no palco. E para brilhar.

EM QUEDA

Sua estrela fez o ‘brilho’ de muita festa da elite nos anos 80. Mas despencou nos 90

TRANCADO

‘Meu nome não é Johnny’, ele se limitou a dizer na cela reservada aos’perigosos’

PERDULÁRIO

‘A falta de visão empresarial foi seu maior defeito e sua tábua de salvação’’

 

TELEVISÃO

Renata Gallo

‘É bom fingir que sou outra’

‘Ela é uma das jornalistas mais conceituadas do País, entrevistou personalidades de grande quilate, comandou o TV Mulher, programa revolucionário na TV brasileira, mas queria ser outra. Sim, essa mesma que foi casada por oito anos com Reynaldo Gianecchini. Não precisa recomendar, Marília Gabriela já fez análise, recebeu alta e, mesmo assim, não parou de se lamuriar: ‘Ai, acho a minha vida tão tediosa!’, diz, relembrando as conversas que tinha com seu psicanalista. Talvez por isso tenha se lançado aos palcos e, agora, encara uma novela do começo ao fim, como Guigui, de Duas Caras. A cabeça dessas mulheres…

Precisava do desafio de encarar uma novela inteira a essa altura da sua vida?

Precisava. É do meu temperamento buscar desafios. Quando fazia TV Mulher e fazia aquele sucesso, pensava: ‘Meu Deus, nunca mais vão me deixar sair daqui!’

Com tamanha inquietação, como encara o GNT há 10 anos?

O GNT é minha régua e compasso, porque sentar e ouvir bem os outros, para mim, tem sido a maior fonte de aprendizado. Ouço tudo e arquivo o que me é necessário. E ouvir os outros é fundamental no quesito interpretar.

Aprende com seus entrevistados, mas o que leva para a sua vida dos seus papéis?

Preciso pensar… (pausa) Acho que ali exerço da forma mais definitiva a fantasia, que é uma coisa que sempre foi importantíssima na minha vida, a fantasia e a possibilidade de ser outras pessoas. Sou uma geminiana inquieta que sempre está pensando: ‘Ah, eu podia tanto ter sido outra pessoa.’ Então, a essa altura do meu campeonato, poder fingir que sou outra é muito bom.

Você assiste à novela?

Tenho dificuldade de me ver fisicamente, mas acho que a cada dia está ficando mais fácil, vai ver que estou ficando mais cara-de-pau (risos). Sou muito autocrítica, então vejo e penso: ‘Meu Deus, que perfil pavoroso!’ Às vezes acho que podia ter andado com o passo mais fechado… Tolices, mas que resultam em um desconforto. Porque o básico é: estou boa atriz? E eu honestamente acho que estou me defendendo legal.

Já se acostumou a ser notícia?

Depende. Sou uma pessoa tão aberta, acho que todo mundo é tão parecido que, o que me choca, é quando as pessoas querem mais, para tirar sangue, para ir atrás da pior fofoca. Nessas horas posso ser muito malcriada, dar dedo, essas coisas.

Em uma entrevista de 2001, você dizia que Gerald Thomas havia dito que você é ‘mimada, sábia e tola, racional e louca, generosa e egoísta’. O que há de verdade nisso?

(risos ) Tudo! Ele descreveu a si mesmo, a mim e a muitas outras pessoas… expansivas.

Expansiva poderia ser traduzida como difícil?

(risos) Difícil pra c.! Mas depende da hora! Sabe o que é, sou uma pessoa de verdade e exijo que as pessoas sejam de verdade. E isso pode me tornar uma pessoa muito difícil porque tenho um radar para mentira que é uma coisa alucinante. Sou muito atenta e posso ser muito desagradável – para mim mesma até. De vez em quando tenho que dizer isso..: ‘Eu não sou confortável, mas sou gratificante no final.’ (risos) Gostou?

Longe do preconceito

Marília diz que hoje em dia não enfrenta mais o preconceito de ser jornalista e atriz. Acredita que as pessoas, em geral, admiram seu trabalho.

‘A sensação que eu tenho é que, quando as pessoas não gostam, elas mandam ver, mas, quando não falam, é porque está legal. E não falaram quase nada e quem falou, me gratificou’, conta ela. ‘Recebi um e-mail deslumbrante do autor, um telefonema de Bibi Ferreira, que me comoveu. Ela me disse uma coisa tão séria que tenho pudor de repetir… Ela me disse: ‘Eu gostaria de ser você’. Quase desmaiei!’, continua Marília, garantindo que nunca foi de se entusiasmar consigo mesma.

‘Quando me dizem ‘poderosa’, olho com estranhamento, porque não é o tipo de avaliação que consiga fazer de mim mesma. Não sou aquela que se acha a rainha da cocada preta.’

Casamento

‘Meu casamento só existiu e sobreviveu à sobrecarga de especulação e torcida, porque valia a pena. Mas agora tenho uma vida mais quietinha. Acordo cedo, faço cursos o dia todo, às vezes tenho crises de solidão e tristeza, nada diferente do que eu tenho quase sempre porque sou mulher. Estou em fase de muda, que começou ano passado (quando seu filho teve um problema de saúde). É como se minha vida estivesse suspensa e vou aproveitando para repensá-la, rever conceitos, fazer novos planos, construir sonhos. E não há agora mais tanto interesse na minha vida, porque não estou casada com o galã, pô!’

Vaidade

‘Outro dia gravei uma cena e passei pelo switcher e perguntei: ‘Ficou bom?’. Disseram: ‘Ótimo, como sempre’. E disse: ‘Eu estava bonitinha?’ Porque a essa altura da minha vida não me interessa parecer nem inteligente nem boa atriz. Só quero parecer bonitinha! (risos) Tem hora que tenho vontade de ser bonitinha, mas, no geral, sei que a minha cabeça me torna uma pessoa muito atraente e é essa cabeça que procuro nos outros’

Jornalismo

‘Sou uma sobrevivente e sobrevivo pelo que eu treinei a vida toda, que é fazer perguntas para obter respostas, ser veículo de pessoas que pensam e dizem coisas que interessam. Ainda tenho todas as perguntas para receber todas as respostas. Inclusive exerço essa profissão fazendo perguntas para conseguir respostas para mim, em primeiro lugar. E espero fazer isso por muito tempo, porque minha curiosidade continua genuína’

Atriz, sim, e com orgulho

Alguns atores demoram anos para se apropriar da carreira, mas não é o caso de Marília Gabriela. Na primeira vez em que pisou no palco, na peça Esperando Beckett, em 2001, a jornalista já soube que tinha descoberto uma nova faceta. ‘Acho que fiz Beckett com muita propriedade e me considerei, a partir dali, uma boa atriz, porque estava dizendo bem um texto da maior importância’, conta. Desde então, Marília voltou ao teatro com Senhora Macbeth e A Peça sobre o Bebê e fez participações na TV em Senhora do Destino e na minissérie JK.

Isso porque o medo não faz parte da sua vida, como ela gosta de dizer. A jornalista-atriz é inquieta, questionadora e daquelas pessoas capazes de contar sua vida em quinze minutos. Para viver Guigui, em Duas Caras, Marília foi trabalhar o seu oposto. ‘Faço um curso que me ensina a ter um controle sobre o corpo trabalhando com o olhar, com a intenção’, explica. E precisava, mesmo. ‘A Guigui é calada, misteriosa demais. Imagine eu guardar um segredo por 10 anos? Impossível! Piada!’, ri.’

 

Fabio Vendrame

‘Aguinaldo, não mate Juvenal Antena!’

‘Confesso: virei fã de Juvenal Antena. Dele e de toda a galera da Portelinha. Mal posso esperar pelo ‘boa noite’ de despedida de William Bonner e de Fátima Bernardes. Gosto de pegar o capítulo desde o começo, de rever o que aconteceu no anterior e até de ouvir a música de abertura. Minha namorada não sabe (quer dizer, não sabia). Outro dia até levei um papo muito legal com a minha vó sobre Duas Caras. Vovó conhece tudo de novela, critica todas, e adora a atual das 9. Sensacional: voltei a me sentir integrado à família.

Mas essa história de acompanhar novela é uma coisa nova pra mim e ainda estou pouco à vontade pra falar, assim, abertamente sobre isso. Pudera! Desde Tieta nunca mais achei graça em nenhuma outra. Lá se vão quase 20 anos. Até tentei, com boa vontade e algum esforço, acompanhar um ou outro folhetim depois que a cabrita do Agreste saiu do ar. Mas sempre me dava a impressão de já ter visto aquilo antes. O bocejo seguia a zapeada em busca de outro programa que me alentasse as noites sem cinema nem bar.

Agora, não. Estou vivendo à vera a trama de Aguinaldo Silva. Até me peguei xeretando o blog dele outro dia – e tomei um baita susto com a notícia de que pretende matar o Juvenal Antena. Pô, Aguinaldo, não faça isso! Além de botafoguense, time melhor para torcer não há, o cara está arrebentando! Deixa disso. Só falta você querer fechar a boate onde a Alzira dança… Revolta total!

É bom nem pensar no que poderia acontecer se atentados desse porte viessem a se concretizar. Olha lá, hein? Nós, os novos noveleiros, não queremos ‘justamente’, como diz Juvenal Antena, correr o risco de pagar esse mico.’

 

Fabiane Bernardi

Zeca Pagodinho em ponta de luxo

‘Zé da Feira (Eri Johnson) vai levar um susto nos próximos capítulos de Duas Caras. Mas será para o bem dele.

Em breve, a produtora de Mariozinho Pedreira (Gláucio Gomes) receberá uma ilustre visita que fará o pagodeiro da Portelinha ficar com as pernas bambas: ninguém menos do que Zeca Pagodinho.

O cantor gravará uma participação especial na novela de Aguinaldo Silva, que deve ir ao ar ainda este mês. Ao ficar frente a frente com seu ídolo, Zé da Feira desmaia. Depois de recobrar a consciência, ele confessa ao cantor que é seu fã e conta toda a sua história. Zeca, muito simpático, ouve atentamente e ainda dá alguns conselhos.

Animado com o encontro, Zé da Feira incentiva Pedreira a promover um show de Zeca Pagodinho na quadra da Portelinha. Juvenal Antena (Antonio Fagundes) autoriza e, na ocasião, Zé acabará cantando ao lado de seu grande ídolo.’

 

Mário Viana

Descontrole remoto

‘Finalmente, aconteceu. Caminhos do Coração, a novela de Tiago Santiago, caiu na boca do povo e já se fala dela nas rodinhas de conversa por aí. Talvez o teor das conversas não seja o que o autor gostaria de ouvir, mas que a novela é assunto, não se discute. Embora tenha uma trama romântica, com mocinha carismática e mocinho bonito, o que pegou mesmo na novela foram os mutantes. Quem é que não gosta do menino-lobo Vavá (Cássio Ramos) ou da esvoaçante Ângela (Julia Maggessi) e suas asas brancas?

As crianças, especialmente, estão gostando muito da novela. Minha sobrinha, de 8 anos, não perde um capítulo (eu também acho que esse não é horário pra criança estar na frente da TV, mas não vou me meter na criação de filho alheio). Quando ela me falou que adorava os mutantes, passei a tentar entender o que há na trama da Record que possa agradar as pequenas criaturas.

A chave do sucesso infantil talvez esteja nos bons efeitos especiais que fazem Vavá virar lobinho ou que criam os vampiros que se transformam em qualquer pessoa. São efeitos já comuns no cinema e que, agora, chegam à TV brasileira. Pouco importam as explicações pseudo-genéticas da cientista maluca Julia (Ítala Nandi) ou as tramóias golpistas da família Mayer pelo controle da Progênese. A gurizada quer mesmo é ver os mutantinhos.

Talvez Santiago já estivesse de olho nesse público. Mas, se acertou o alvo, não foi com a arma que esperava. Um potencial atrativo para crianças seria o mundo do circo – mas não aquele circo, convenhamos. Se a trama da experimentação genética já soa forçada, o que dizer de um circo mambembe, cujo visual em tudo lembra o Cirque du Soleil e correlatos? O circo, tão presente no interior do Brasil e no imaginário coletivo das grandes cidades, acabou ficando tão falso quanto o sotaque paulistano de Batista (Taumaturgo Ferreira).

Além da tribo de mutantes, também estão marcando presença a escolada dupla Cássio Scapin e Patrícia Travassos. Ao passar pelo dilema de ser lobisomem, Cássio tira da chatice o advogado César e suas intermináveis frases em vários idiomas. Já Patrícia, não sei se por estilo ou tédio, faz sempre as cenas de Irmã com um ar de quem não leva aquilo muito a sério. Talvez, ela esteja certa…’

 

O Estado de S. Paulo

24 horas por dia na web, e hoje na TV

‘O Fiz TV (www.fiztv.com.br) – canal da TVA – tem o programa Blocão, que passa todos os finais de semana uma seleção com os melhores filmes de seu site. Hoje, a atração traz um especial com as melhores séries onlines tupiniquins.

A partir das 20 horas no canal 16 (do analógico) e 20, da TVA digital, serão exibidos seis seriados: Mina e Lisa, Conversas de Elevador, Pai Tingah, Webnews, Se Pá… e Euvídeo.

Desses, destacam-se os três primeiros. Conversas (youtube.com/kingreis) é simples, e tem como cenário o elevador do prédio de Edgar (Felipe Reis), um representante de vendas de uma indústria farmacêutica. A cada episódio, ele se confronta com algum vizinho bizarro.

Mina e Lisa (youtube.com/top10mina) mostra, de forma divertida, duas adolescentes japonesas à procura de um homem para sua ‘primeira vez’. Já Pai Tingah (www.redetingah.com) é um pai-de-santo charlatão, que sempre engana seus clientes.

Vale a pena conferir o trabalho dessa nova geração de atores e roteiristas. Se você não tiver TVA, sem problema: é só caçar os vídeos na web.’

 

Alline Dauroiz e Keila Jimezez

Cada um por si no ‘Pânico’

‘Silvio Santos bem que tentou. Mas quem conseguiu desfalcar a turma do Pânico foi a Record. A partir de fevereiro, Carlos Alberto da Silva, que interpreta o Mendigo e o Merchan Neves, e Vinicius Vieira, que vive Gluglu e Mano Quietinho, passam a integrar o Show do Tom, com promessa de estrelarem um programa só deles na emissora.

E olha que não é difícil as emissoras comprarem o passe da trupe – que este ano bateu recorde de faturamento e incomodou a concorrência. O assédio é incentivado pelo fato de os integrantes do Pânico terem contratos individuais com a Rede TV!, com valores e datas de validade diferentes. No caso dos cassetas, por exemplo, além de haver uma divisão igual do bolo, o contrato com a Globo praticamente vincula o grupo todo.

Para Vinicius Vieira, o Pânico sofre com isso. ‘Os contratos individuais fazem cada um pensar ‘no seu’, na sua carreira. Estão falando que a Record quer o Vesgo e o Silvio. Se isso acontecer… aí complica (para o Pânico).’

Os acordos da trupe do Pânico com a Rede TV! venciam em dezembro, e a emissora tratou de renová-los em julho, por mais três anos. Os únicos que ficaram de fora nessa leva foram justamente Silva e Vieira. ‘Eu e o Carlinhos dissemos não para a renovação da Rede TV!. Estávamos começando a paquera com a Record’, diz o intérprete de Gluglu. ‘Na renovação de contrato abrimos mão dos dois’, rebate o vice-presidente da Rede TV!, Marcelo de Carvalho. ‘Já tínhamos até contratado dois novos humoristas. O Pânico precisa de renovação.’

VÔ, NUM VÔ!

Foram oito meses de conversas da dupla com a Record. ‘No começo não queria ir, mas o Vinicius me convenceu’, conta Silva, que começou a trabalhar na Rádio Jovem Pan com 14 anos, como office boy. ‘Nunca quis sair do Pânico. Mas a proposta é muito boa. Não deu para recusar.’

A dupla ainda não sabe muito bem qual será seu papel na Record, mas detém o direito sobre os personagens e pretende continuar com quadros como o Dia de Tristeza e o Vô/ Num Vô, bordão que virou febre.’

 

 

A ordem dos fatores altera sim o produto

‘A Rede TV! sabe que o Pânico está na mira da concorrência há tempos. Sabe, mas não sofre com isso.

Pelo menos é o que diz o vice-presidente da emissora, Marcelo de Carvalho.

Para ele, é claro que o assédio em cima de sua principal atração incomoda. Mas levar os humoristas do Pânico isoladamente para outro canal está longe de ser uma estratégia de sucesso, acredita.

‘O Pânico só funciona em conjunto, só assim aquilo tem uma lógica. Isoladamente eles perdem a graça’, aposta Marcelo.

‘O programa é um sucesso, porque funciona dentro de um contexto, de uma estrutura e com uma liberdade oferecida pela Rede TV! Não sei se seria assim em outro lugar’, continua. ‘Acredito que eles não poderão espinafrar quem quer que seja em outra emissora como fazem aqui.’

Marcelo ainda diz que já passou a fase em que o Pânico era considerado um bom investimento, um programa de jovens promissores – com baixos salários – que rendia muito para a Rede TV! Mas também vale lembrar que a emissora fez de tudo para segurar a trupe quando Silvio Santos queria levá-la para o SBT, por duas vezes.

‘Eles realmente trazem muitos anunciantes (bateram recorde de faturamento este ano), mas não são mais promessas, são estrelas da casa’, diz. ‘Renovamos os contratos, porque os queremos aqui. No entanto, manter a estrutura do Pânico e todos aqueles salários, que não são baixos, sai caro, muito caro.’’

 

OSWALD DE ANDRADE
Walnice Nogueira Galvão

O radical do modernismo

‘A reedição simultânea de dois importantes trabalhos sobre Oswald de Andrade vem reacender a discussão em torno desse protagonista paradoxal. São eles uma biografia e uma coletânea de colunas de jornal, num total de 1.200 páginas. A biografia, de autoria de Maria Augusta Fonseca, chama-se simplesmente Oswald de Andrade; a coletânea, organizada por Vera Maria Chalmers, traz o título da coluna, Telefonema.

A voga do biografismo, que se alastra pelo panorama editorial do País, tem sido avarenta com duas coisas: uma, eleger escritores como objeto; outra, basear-se em anos a fio de labuta. Combinando com a ligeireza da maioria de suas realizações, o gênero tem dado preferência a heróis do entretenimento.

A presente biografia é das mais completas. A autora entrevistou testemunhas de primeira mão, como descendentes e outros parentes, amigos e inimigos, companheiros de combates, médicos, etc. Além de dominar amplamente a obra, pesquisou acervos públicos e pessoais, como os dos filhos Rudá e Marília, não desdenhando o mais mínimo papelucho. Utilizou os numerosos diários pouco ortodoxos a que desde cedo nosso autor se apegaria, ao manter cadernos de recortes onde ia anotando algumas coisas, desenhando outras e colando lembretes. O mais sensacional deles já foi publicado, O Perfeito Cozinheiro das Almas Deste Mundo, em edição fac-similar que é um primor. Encontrou e fez bom uso de materiais em princípio secundários, inéditos à altura, como o Dicionário de Nomes Ilustres e os Cem Cartões de Visita, estabelecendo correlações com passos do percurso do escritor. No vaivém entre vida e obra, mostra familiaridade com a recepção crítica, de que fala com autoridade.

Ali vemos Oswald (1890- 1954) de corpo inteiro, em toda a sua exuberância. As paixões e os amores; as birras e as rixas; os rompantes; as polêmicas em que se engalfinhou; a língua ferina; a agilidade verbal servida por um temperamento que preferia perder um amigo a perder uma piada – o que, aliás, fez repetidas vezes. Ao mesmo tempo, a generosidade e a inaptidão a guardar rancor, bem como o talento irreprimível e a fidelidade à escrita, que, de um modo ou de outro, praticou todos os dias de sua vida.

O jornalismo serviu bem ao ânimo aguerrido de Oswald, que estreou cedo e só a morte silenciou: produziu as últimas matérias no leito de hospital de que não mais se levantaria. Iniciando-se como repórter e redator do Diário Popular, cobrindo artes e espetáculos, dois anos depois sairia para abrir um semanário próprio, O Pirralho, de sobretons satíricos. Juntou uma boa turma, que incluiu o caricaturista Voltolino e o Juó Bananere das famosas crônicas em linguajar macarrônico. Seria fundador, diretor ou apenas membro dos mais relevantes periódicos do Modernismo, destacando-se entre eles Klaxon e a Revista de Antropofagia. Mais tarde criaria com Patrícia Galvão O Homem do Povo, trincheira comunista, que terminaria empastelado pela direita. Ademais, seria articulista dos principais jornais do País: apenas foram mudando os veículos e o que pretendia com eles. As finanças da família, que sustentaram O Pirralho, permitiriam que, aos 21 anos, Oswald zarpasse para Paris. A primeira de muitas, a viagem marcaria sua trajetória e seria decisiva para o Modernismo ao estabelecer uma ponte com a vanguarda francesa.

É de jornalismo que trata o segundo livro mencionado, Telefonema, nos quadros da bem cuidada reedição das Obras Completas pela Globo, em 22 volumes, sob a direção de um especialista, Jorge Schwartz – que coordenou a edição crítica de Oswald pela Col. Archives, há tempos aguardando publicação. A organizadora procede da Unicamp, que tem a guarda do Fundo Oswald de Andrade e se tem revelado uma fonte de estudiosos dessa obra, como ela mesma e mais Maria Eugênia Boaventura, Orna Messer Levin e Gênese Andrade.

Nessa coluna semanal, Oswald, em sua mais consistente colaboração, que lhe tomaria os dez últimos anos, comentava atualidades e um pouco de tudo. O fã do palhaço Piolim continuava atento ao panorama cultural e por seus textos desfilam eventos da literatura, do teatro, da dança, do cinema. E da política: lá estão destaques desses cruciais dez anos de pós-guerra e de resgate da democracia tanto aqui quanto em escala mundial.

Um pouco mais espinhoso será destrinçar as posições de Oswald, que não pecava pela constância. No caleidoscópio de seus pontos de vista, ressalta o pendor ao múltiplo. A essa altura, está quase saindo de 15 anos de militância no Partido Comunista e dá sinais de veleidades de participação eleitoral. A leitura de Telefonema surpreende o leitor desprevenido que espera volutas dadaístas: ele era sim apto a traçá-las, mas não neste formato. A retórica e até a grandiloqüência colidem com o coloquial e com as fulminantes fórmulas oswaldianas. Com ajuda da fina análise de Vinicius Dantas (O Canibal e o Capital, em Moderno de Nascença, 2006), notamos que Oswald oscila entre uma alarmada compreensão do que o mergulho do País na era industrial estava trazendo e uma pitada de nostalgia do passado rural: afinal, a alta do café subsidiara a eclosão do Modernismo. Entre ambas posta-se seu otimismo – impérvio a qualquer desmentido que o real insinuasse -, solidamente ancorado na fé que tinha nas utopias que nunca perdeu e às quais anexaria o ´progresso técnico´.

Tampouco se pode enquadrar a obra de Oswald nos trilhos de um processo evolutivo retilíneo. Sua excelente poesia jorrou por surtos. Seus sete romances se distribuem por uma primeira trilogia, dois avulsos e uma segunda trilogia que ficaria inacabada – as trilogias, bem mais convencionais que os avulsos. Todavia, a primeira trilogia vai sendo escrita ao mesmo tempo que os dois avulsos, o ´par ímpar´, como o denominou Antonio Candido. Como é sabido, Serafim e Miramar constituem, com Macunaíma, o auge do patamar experimental a que chegou a prosa modernista. Mais tarde sairiam de sua pena dois romances da outra trilogia, planejada mas incompleta, estes nada vanguardistas e muitos graus abaixo daquele patamar. Mas, entre uns e outros, incursionou pela dramaturgia, produzindo peças tão transgressoras que levariam quase meio século para ganhar os palcos, e ainda assim porque encontraram em José Celso Martinez Corrêa outro transgressor. Ao que parece, inclinava-se a operar em vários registros, indo e voltando, se tomarmos como parâmetro o que fez de mais avançado. Pouco depois de escrever o ‘par ímpar´, profere, conforme mostra a biografia, discursos a operários usando o vós, porque, com toda a seriedade, podia utilizar linguagem retrógrada apesar do objetivo progressista. E deixaria inédito, porém contemporâneo à ausência de ousadia da segunda trilogia, um dos mais subversivos de seus escritos, o poema O Santeiro do Mangue.

De resto, aqui estão dois livros para quem quiser deliciar-se com os achados desse que foi a ponta de lança e o enfant terrible do Modernismo, disparando dardos verbais para todos os lados; e, além de grande escritor, sua figura mais colorida.

Walnice Nogueira Galvão é professora de Teoria Literária e Literatura Comparada da USP, autora, entre outros, de As Musas sob Assédio e A Donzela Guerreira’

 

Francisco Quinteiro Pires

A ousadia do pensamento

‘Quem se arrisca a enquadrar o escritor Oswald de Andrade (1890-1954) flerta com o reducionismo ou a generalização. Um homem do teatro, da poesia, do romance, da filosofia, da imprensa: sua atuação – e personalidade – é múltipla e contraditória. Nascido no seio da elite, artista de vanguarda, mas com raízes nunca extirpadas na religião, herdadas do catolicismo ortodoxo da mãe, Oswald ousava pensar grande, porque pensava o País – lutava para conferir à nação uma identidade tão grandiosa quanto a extensão do território. Ele não tinha receio de ser petulante no combate intelectual – se errava, admitia. E seus equívocos não o impediram de exercitar o pensamento transgressor de artista. Não teve medo em nenhum momento de mostrar o que era. Esse é o retrato composto por dois relançamentos – Oswald de Andrade, biografia de Maria Augusta Fonseca, e Telefonema, organizado por Vera Maria Chalmers.

´Não se pode trivializar a figura de Oswald, o que o distingue são as suas contradições e complexidade´, diz a professora da Unicamp Vera Maria Chalmers. Os elementos ambivalentes em Oswald é que o tornam produtivo. ´E fazem a obra, o pensamento e a figura dele avançarem´, continua.

Do mesmo modo que o autor de Memórias Sentimentais de João Miramar (1924) não se furtava a expor o que tinha de contraditório, o homem atual precisa encarar as suas ambivalências. ´Há na atualidade uma pasteurização do saber, do conhecimento e das relações dos homens com o mundo´, diz Maria Augusta, professora da USP. Prevalece uma visão acrítica sobre as coisas.

O indivíduo que não critica, que não duvida, que não manifesta as próprias contradições vai agir seguindo fórmulas e buscar a todo custo um convívio sem arestas, segundo Maria Augusta. ´É importante que o homem apareça em muitas vertentes e procure a partir daí tirar questões que possam mobilizá-lo para a mudança´, ela continua. E também para cessar a reprodução de uma sociedade submetida a relações esgarçadas.

A personalidade do autor de Serafim Ponte Grande (1933) se debateu escandalosamente com o período histórico em que atuou – a primeira metade do século passado. ´Ele é um precursor, porque estava interessado no Brasil diferente daquele onde vivia, que era provinciano e carregado de preconceitos na arte e na vida cotidiana´, diz a biógrafa. Em 1990, Maria Augusta publicou a biografia do escritor paulista, que ganhou reedição revista e ampliada. Ela se dedica à obra e à vida de Oswald desde 1972. Como não se apequenava dentro de um mundo pequeno, o espírito crítico e mordaz de Oswald de Andrade, que busca a libertação do homem, do País e das idéias, não poupava nem os amigos, se fosse o caso.

Diante do pensamento colonizado e provinciano, os modernistas tomaram para si o papel de refletir sobre o País sem sacrificar a verve artística. ´A partir de São Paulo, Oswald e os outros modernistas assumiram a missão grandiosa de pensar o Brasil, sem atrapalhar a produção artística´, diz Maria Eugênia Boaventura, professora da Unicamp e autora de A Vanguarda Antropofágica (Ática, esgotado). A necessidade desse papel intelectual se mantém vigente, uma vez que o Brasil incorporou a modernidade tecnológica ao longo do século 20, mas preservou inabalados graves problemas sociais e políticos. ´É necessário pensar o País sem deixar de contextualizar, sem perder a personalidade num mundo globalizado como o atual´, afirma Maria Eugênia. As saídas para a crise brasileira continuam como tarefa premente, pois sem resolução.

As idéias de Oswald de Andrade influenciaram movimentos vanguardistas brasileiros em meados do século 20, como a Tropicália e o concretismo, apesar de ele nunca ter desenvolvido conceitos de modo sistemático. A antropofagia é uma metáfora, exibida em linhas gerais no Manifesto Antropofágico (1928). ´Ele desenvolve um pensamento aforismático, é muito difícil reduzir a produção filosófica de Oswald a conceitos formulados´, diz Vera Chalmers. O poeta paulista tem o estilo do artista e não do acadêmico, as idéias eram marcadas pela formulação rápida, incisiva, irônica – com uma palavra, ele era capaz de liquidar o rival. O Manifesto Antropofágico é escrito com base em estrutura coloquial, de frases cortantes e assertivas.

Os concretistas, em 1950, e os tropicalistas, em 1960, fazem uma leitura das obras literárias e da visão filosófica de Oswald, mas o interesse das duas correntes também recai sobre a personalidade do escritor, que antes de comunista era um libertário.

A antropofagia não é um conceito trabalhado à exaustão sobre a absorção crítica do mundo, segundo Maria Augusta. Para ela, Oswald era defensor do progresso humano, que se valia da técnica, como o patrimônio do homem antropofágico. No primeiro número ou ´dentição` da Revista de Antropofagia (1928), o modernista citou o irlandês Bernard Shaw para resumir sua crença: ´Está mais perto do homem natural quem come caviar com gosto do que quem se abstém do álcool por princípio.´

Oswald não temia a evolução técnica, vista como aliada. Poesia podia rimar com trabalho. As máquinas seriam capazes de libertar o homem para o ócio. O século 20 frustrou, porém, as expectativas de Oswald. O progresso técnico-científico confinou o homem a uma condição de esgotamento físico e mental: a exigência das máquinas sobre a humanidade é brutal. Ele alertava, no entanto, que a tendência do homem a adotar o novo devia ser permeada pelo crivo do questionamento. E que os brasileiros podiam absorver a técnica elaborada na Europa e amalgamá-la ao comunismo primitivo dos indígenas.

Oswald de Andrade se converte ao comunismo em 1931 pela mão de Patrícia Galvão (Pagu), com quem foi casado e fundou o jornal O Homem do Povo, em 1931. No mesmo ano, em viagem ao Uruguai, conhece Luís Carlos Prestes, exilado em Montevidéu. Naquele momento se dava uma conversão de neófito, segundo a professora Vera Chalmers.

´Ele tentou ser um homem de partido, stalinista, mas isso contrariava muito a natureza dele, Oswald não conseguia ter uma posição ortodoxa diante do marxismo´, ela explica.

Mas o escritor paulista transformava o ideário esquerdista em algo pessoal. Apesar do esforço pelo alinhamento partidário, como era de praxe, Oswald se manifesta sempre a partir de um posicionamento bem particular. ´Ele não era um homem de gabinete, mas um polemista profundamente ligado à noção de liberdade´, continua.

Quando viaja pela primeira vez à Europa, em 1912, o escritor modernista trava o contato inaugural com as vanguardas artísticas, que influenciaram o modernismo brasileiro nos anos 1920 e 1930. Mas ele mesmo admitia que sentou nos cafés europeus por onde Karl Marx passou sem nunca ter ouvido falar do filósofo alemão.

Em 1996, Vera Chalmers publicou Telefonema, organização de crônicas escritas por Oswald para o jornal carioca Correio da Manhã entre 1944 e 1954. A reedição atual ganhou 22 crônicas inéditas encontradas em manuscritos mantidos no Centro de Documentação Alexandre Eulálio (Cedae), da Unicamp. O que ele faz em centenas de textos, ditados por telefone para a redação do periódico, é emitir opiniões pessoais, principalmente sobre assuntos políticos; ele evita análises de conjuntura. Mas dá a cara a tapa no espaço oferecido na imprensa. A combatividade do autor da peça teatral Rei da Vela é diferente da atuação dos intelectuais contemporâneos. ´O interesse foi desviado da opinião pessoal e da atitude de combate para uma posição de conformidade com o pensamento único´, diz Chalmers.

Sua atuação como cronista atravessa a queda, a ascensão e o suicídio de Getúlio Vargas e as oscilações do Partido Comunista no Brasil. Em Telefonema, o modernista mantém uma relação ambígua, de aproximação e rejeição, mas sempre crítica com Luís Carlos Prestes.

´Ele é antivarguista desde 1945, mas durante todo o escândalo envolvendo Vargas em 1954 não há menção ao presidente, sequer ele usa a expressão ?mar de lama?.` Apesar da atitude combativa e visceral, Oswald não faz uso da sátira contra Vargas nem se deixa envolver em um debate turvo entre forças conflitantes e fortes interesses.

O esforço de entender a contemporaneidade em Telefonema não é desenvolvido em conceitos sistemáticos nem se realiza dentro de um esquema acadêmico, como é do estilo oswaldiano. Nas crônicas para o Correio da Manhã, ele exercita o pensamento livre de artista, como fazia nos romances, poemas e peças, nos quais empregou o pensamento antropofágico, o estilo coloquial e o interesse pelo cotidiano. ´O que caracterizam as crônicas são o coloquialismo, o dialogismo e a imagem do leitor como conivente do pensamento de Oswald´, diz.

Para a biógrafa Maria Augusta Fonseca, os romances Serafim Ponte Grande e Memórias Sentimentais de João Miramar são até hoje obras-primas desafiadoras por terem incorporado novidades, ainda não superadas, aos procedimentos literários. ´Elas são ponta-de-lança, continuam como um estímulo para um tipo de literatura avançada e questionadora de modos de ver e de apreender o mundo, por meio de uma linguagem ágil, pouco comum.´

Oswald escreveu as crônicas jornalísticas atado à urgência cotidiana, como é próprio do gênero. Mas antes de morrer, em 1954, ele alertava profeticamente que o Brasil estava farto de propostas de salvações messiânicas, feitas por sujeitos de personalidade autoritária. Passados quase 60 anos da morte do modernista, o risco desse tipo de solução não desapareceu.’

 

Daniel Piza

Nós que éramos tão modernos

‘Era natural que, entrados alguns anos do século 21, os livros de revisão do modernismo se multiplicassem. Não que sejam novidade: a saturação da arte moderna já é há tanto tempo um dado tão evidente que em 1981 Robert Hughes escreveu O Choque do Novo para fazer seu balanço; antes ainda, nos anos 70, autores como Roberto Venturi criaram o conceito de pós-modernismo para tentar superar os impasses. A rigor, já nos anos 30 os próprios defensores das utopias modernistas as punham em dúvida… Mas hoje, com a virada do calendário e a comemoração de datas como o centenário do quadro Senhoritas de Avignon, de Picasso, o marco mais famoso da pintura modernista, a tendência é que surjam cada vez mais livros sobre o tema.

Os três que acabam de sair nos EUA são muito interessantes: Modernism, do historiador Peter Gay (Norton, 610 págs., US$ 35), o terceiro volume da biografia de Picasso por John Richardson (Knopf, 592 págs., US$ 40) e The Rest Is Noise, do crítico Alex Ross (Farrar, Straus and Giroux, 624 págs., US$ 30).

Peter Gay é conhecido por sua biografia de Freud e por livros que tratam da relação entre períodos históricos e a sensibilidade, como Guerras do Prazer, sobre a burguesia e a cultura do século 19. Seu livro de mais de 600 páginas sobre o modernismo tem como subtítulo The Lure of Heresy, algo como ´a sedução da heresia´, e vai ´de Baudelaire a Beckett e além´. Seu critério é o do exame da atitude de desafio às convenções, aliada a uma auto-exposição maior do que a de ´heréticos` anteriores à segunda metade do século 19. Provocação e subjetividade, portanto, são os traços distintivos do artista modernista, cujos grandes pais são, por isso, Baudelaire e Flaubert, que há exatos 150 anos publicaram As Flores do Mal e Madame Bovary.

Mas a ênfase de Gay é nos artistas e autores do século 20: Picasso, Duchamp, Joyce, Proust, Kafka, Stravinsky, Schoenberg, Balanchine, Frank Lloyd Wright, Le Corbusier, Chaplin, Orson Welles – para citar seus favoritos. Cada capítulo da segunda parte do livro trata de um par de artes. O autor não tem muito a dizer sobre cada um desses nomes, e até escorrega em certas passagens. Virginia Woolf não está à altura de Marcel Proust (ela seria a primeira a reconhecer), e os personagens de Kafka não são apenas ´marionetes` nas mãos do destino. Mas Gay é sintético e preciso na maioria dos casos.

O melhor do livro é como mostra o processo cíclico da relação do modernismo com o público: mesmo obras recusadas ao primeiro impacto se tornaram depois admiradas por grande número de pessoas – Oscar Wilde virou símbolo, Duchamp está nos museus, Schoenberg é consumido como um dos grandes da tradição ocidental. Na terceira parte, Gay discute alguns impasses da arte posterior à 2ª Guerra Mundial, como o impasse político em Sartre, o impasse comunicativo em Beckett e o impasse estético em Pollock. A partir dos anos 60 e 70, porém, artistas e consumidores voltariam a dialogar menos angustiadamente com o público, embora também menos criativamente.

O livro, no entanto, não tenta investigar as razões do declínio da arte moderna em relação à primeira metade de sua existência. Critica artistas atuais como Damien Hirst, mas não prefere o tipo de análise que, por exemplo, T.J. Clark fez tão bem em Farewell to an Idea, sobre o esgotamento do vanguardismo, do modernismo utópico de cem anos atrás. Gay prefere apontar para dois artistas que, em sua opinião, levam adiante o legado moderno em nossos tempos: o escritor Gabriel García Márquez e o arquiteto Frank Gehry.

Vê no escritor colombiano um ´realismo original´, até ´kafkiano´, embora esteja mais perto do romance tradicional, oitocentista, do que da prosa modernista. E vê no arquiteto americano um anticonvencionalismo, permitido pelo computador, que o Guggenheim de Bilbao representa como nenhum outro prédio. ´Talvez haja um revival do modernismo de massa algum dia. Considerando a ficção de García Márquez e a arquitetura de Frank Gehry, podemos imaginar artistas ainda desconhecidos, quem sabe ainda nem nascidos, que venham providenciar um novo nascimento depois da morte.´

Um fator que Gay não chega a abordar é o efeito que a era de ouro modernista pode causar sobre seus candidatos a herdeiros. Leia o terceiro volume da biografia de Picasso por John Richardson, que aborda os anos de 1917 a 1932 e os chama de ´anos triunfantes´. Acompanhar a vida e a produção de Picasso em 15 anos – e não à toa o livro precisa de mais de 500 páginas para isso – dá sensação semelhante à de visitar seu museu em Paris: você sai dali fascinado e, ao mesmo tempo, enfastiado. Somos lançados num vórtice de atividade, variedade, inquietação; quando acreditamos ter um descanso, Picasso se reinventa, arranja novo amor, inaugura outra fase, decide adotar materiais e gêneros que ainda não havia adotado.

Há algo titânico na figura de Picasso, e a biografia de Richardson – embora mostre todos os seus defeitos como homem e artista, num estilo muito elegante e perspicaz – ajuda a reforçar essa noção. Ele viaja para Roma e trabalha com o balé de Diaghilev; troca a boemia de Paris por noites a desenhar no estúdio; passa por fase neoclássica, em especial na escultura; casa com Olga, depois com Marie-Thérèse, de apenas 17 anos, sensual e ciumenta, e continua amante de Olga; passa o verão com seus amigos Gerald e Sara Murphy em Cap d?Antibes (modelos para o casal Diver de Terna É a Noite, romance de Scott Fitzgerald); tem interesse em xamanismo. Ufa! – e isto é apenas um resumo.

Richardson conta essa história equilibrando narrativa e análise, num estilo de biografia ainda raro no Brasil. Tem informações novas, como a atitude apolítica de Picasso até então; e tem boas sacadas, como a de anotar a influência de um artista espanhol hoje obscuro, Stephanus Garcia, sobre sua obra. No final do livro, Picasso está com 50 anos e vive um de seus anos mais prolíficos, com uma série de retratos, em destaque os nus sentados ou reclinados, muitas esculturas e uma retrospectiva em Zurique. Já é um mito, o maior de todos os artistas modernos, e a sensação é a de que será olhado daqui a 400 anos como hoje olhamos Rembrandt quatro séculos mais tarde.

Na verdade, talvez todo o período que vai de meados do século 19 a meados do século 20 venha a ser visto mais ou menos como o Renascimento, uma rica e longa fase da cultura européia classificável sob um mesmo nome. No caso de Alex Ross, cujo livro tem o subtítulo Escutando o Século 20, a obra de compositores modernos como Wagner e Brahms não é analisada, mas ele claramente inicia seu livro no bojo de uma época privilegiada da música moderna. Sua abertura é com dois compositores que atravessaram o ´fin-de-siécle` sob aquelas sombras: Gustav Mahler e Richard Strauss.

A estréia da ópera Salomé, de Strauss, e da Sexta Sinfonia de Mahler, ambas em 1906, é o ponto de partida de Ross, num capítulo não por acaso intitulado A Era de Ouro. Ambos enfrentam com enorme talento os desafios do cromatismo, da música tonal levada ao limite da dissonância, mas cada um por uma estratégia diferente: Mahler mais ´modernista´, menos acessível; Strauss mais popular, mais tradicional. Ross enxerga – ou escuta – nessa rivalidade uma clivagem que atravessará todo o século 20. No capítulo seguinte, por exemplo, fala sobre Schoenberg e Debussy. Mas mostra no caso de Schoenberg, em especial, que suas investidas contra o sistema tonal não são tão radicais quanto se pensa. Há uma tentativa de incorporar intervalos dissonantes, o que na ópera Moses und Aron ele realiza numa síntese tão complexa quanto recompensadora.

Ross também desmente o mito de que a música moderna é antipopular, contando, por exemplo, que A Sagração da Primavera, de Stravinsky, provocou polêmica em sua estréia em 1913, mas logo caiu no gosto do público e fez temporada de sucesso. Stravinsky, no livro, é de certo modo o compositor mais feliz em sua combinação de contrários, pois reinventou a linguagem musical com sua textura rítmica sem deixar de fisgar o ouvinte com seu senso melódico. ´Stravinsky respondeu com explosões periódicas de dissonância e complexidade rítmica, que mimetizam a energia da multidão urbana moderna´, diz sobre Pássaro de Fogo.

Ross nos reafirma a qualidade artística da primeira metade do século 20 ao tratar com grande talento de obras como – além das de Mahler, Strauss, Debussy, Schoenberg e Stravinsky – Wozzeck, de Alban Berg, Romeu e Julieta, de Prokofiev, Lady Macbeth do Distrito de Mtsensk, de Shostakovich, Concerto para Orquestra, de Béla Bartók, Peter Grimes, de Benjamin Britten, e Quarteto para o Fim do Mundo, de Olivier Messiaen, para não falar de Aaron Copland, Paul Hindemith, Janácek, Jean Sibelius e outros que destaca. O autor também faz grande contribuição ao incluir Rhapsody in Blue, de George Gershwin, e A Ópera dos Três Vinténs, de Kurt Weill e Brecht, no mesmíssimo patamar.

Afinal, uma das marcas do modernismo é o ´high & low´, a mescla do popular com o clássico, do comercial com o sofisticado. Em vez de tomar isso como problema, Ross analisa seu potencial inovador. Faz referências constantes ao jazz, especialmente ao bebop, e cita a aproximação a ele de grupos ´eruditos` como Les Six – e na mesma passagem, ao citar Darius Milhaud, descreve sua ligação com Villa-Lobos e a música popular brasileira: ´Villa-Lobos estava mergulhando idéias rítmicas de Stravinsky nos padrões complexos que havia detectado na música afro-brasileira.` Também menciona experimentos de grupos de rock como os Beatles, Velvet Underground e Radiohead.

Mas Ross nem sequer tenta negar a visão de que a música de concerto deixou de ter o mesmo vigor dos anos 50 para cá, em parte pela evolução da música comercial, em parte pelos excessos vanguardistas. Admira o trabalho de minimalistas como Steve Reich e Philip Glass, por sinal dois apaixonados por jazz, mas não tem ilusões: ´As revistas que antes punham Bernstein e Britten em suas capas hoje só têm tempo para Bono e Beyoncé.` Mesmo assim, nota a grande audiência que a música erudita continua a ter, com ótimos intérpretes aparecendo geração após geração, e cita compositores vivos como John Adams (Nixon in China) e Arvo Pärt (Cantus) ou recentemente mortos como György Ligeti para afirmar sinais vitais, assim como Gay citou Márquez e Gehry.

O que esses três livros podem fazer, no entanto, é justamente inspirar novos criadores, em vez de assustá-los com tanta produtividade. Talvez já não seja preciso ser, como dizia Rimbaud, ´absolutamente moderno´. Mas, para ser eterno, não há como deixar, ainda que relativamente, de ser moderno.’

 

CPMF
João Ubaldo Ribeiro

O bonequinho deu umas dormidinhas

‘Na quarta-feira passada, sabedor de que, no Senado da República, estaria sendo travada a grande batalha democrática da CPMF, liguei a TV cedo, mandei buscar farto suprimento de pipoca e, juro a vocês, assisti a todo o espetáculo, com exceção dos comparativamente raros momentos em que caí no sono e fui logo despertado por um dos muitos brados retumbantes dados no plenário. Eu não me perdoaria se perdesse aquelas cenas, que, para começar, só podiam acontecer no Brasil mesmo. Imagino que, em qualquer outro país, o espanto seria absoluto e muita gente não ia acreditar nem vendo.

Explico a razão do espanto. Por que estranhar que um tributo criado como ´provisório` venha a ser exatamente isso – provisório? Se era para ser provisório, era para ser provisório, a não ser que isto seja compreendido nos mesmos termos em que o sistema solar é provisório, ou seja, um dia vai acabar, mas só quando não puder mais. Claro, estou fazendo um pouquinho de ironia, porque se sabe que ninguém aqui leva a sério essas bobagens e tacaram o ´provisório` sabendo que suportamos bem o deboche, já temos até o vício de sermos passados para trás e em tudo se dá um jeitinho. Nome não tem importância, como já observou o poeta, acrescentando que, com qualquer outro nome, a rosa teria o mesmo perfume. Em nossa política, qualquer coisa, com qualquer outro nome, tem o mesmo fedor – e aí botaram ´provisório´.

De modo geral, o espetáculo apresentou altos e baixos. Algumas das falas foram muito boas e, mesmo quando se mentiu ou se distorceu a verdade, houve momentos inesquecíveis. O senador Mercadante fez tal estentor emocional pelos pobres que abafaria no Municipal. Suspeito que com ele não perderíamos um senador, mas ganharíamos um Plácido Domingo. Primeiro, desmentiu o presidente, que poucos dias antes, como já dissera que a saúde pública brasileira estava próxima da perfeição, disse também que o atendimento médico presidencial estava ao alcance de qualquer brasileiro. Ao contrário disso, entre esgares terríficos, ademanes trágicos e semitons magistrais, mencionou o miserê da saúde em seu Estado, que é o mais rico da federação – imaginem o resto. Não argumentou nada defensável, como fazia no tempo em que era senador mesmo, mas foi uma bela performance, vai para o trono.

Já outros e outras fizeram Camões e Machado rebolar nas tumbas. Isso quanto à linguagem usada, que às vezes, de tão estropiada, tartamudeada, violentada e desfavoravelmente comparável ao baixo neandertalês, se tornava ininteligível. Quanto aos argumentos, cheguei a começar a me ofender de novo, por ser considerado, como todos os outros governados, muito mais burro do que sou. Mas me veio um consolo, que partilho com vocês, os que são atingidos pela mesma ofensa. Não é que eles achem que nós sejamos burros, eles é que são burros. E assim, ao nos dirigirem seus solecismos enrolões, acham que estão se dirigindo a seus co-burros.

Mas não somos tão burros e já desconfiamos, com certeza com razão, que nada vai mudar, CPMF ou não CPMF. Dr. Mercadante, por exemplo, sabe perfeitamente, sim, que o percentual da CPMF ´pago` pelas grandes empresas não é pago por elas e o que realmente vale como argumentação é o peso relativo que esse ´pagamento` tem para quem o realiza. O que as grandes empresas fazem é desembolsar momentaneamente a CPMF, não pagá-la, porque não sai nenhum dinheiro dos ativos delas. O pagamento elas repassam e só pagam impostos quando compram algo, ou seja, quando estão na ponta do consumo. De resto, aqui como em quase toda parte (o exemplo dos bancos não vale, pornografia aqui não), rico não paga imposto, quem paga é quem está no fim da linha do repasse. Não vem ao caso o volume desembolsado pelas empresas, porque isso é incluído em seus custos e repassado. Só quem não pode repassar é quem paga, ou seja, assalariado e pobre mesmo. Arrenego da transferência de renda que está havendo com isso.

Uma resenha completa do evento, requereria várias colunas destas, o que não farei, porque prezo os leitores que tenho conseguido conservar. Não posso, contudo furtar-me à menção habitual ao presidente da República. Não quero referir-me à inépcia de sua negociação desde o começo, culminando com aquela carta vexatória, já no fim dos debates. Fico tendo alucinações em que, no futuro, o presidente mande seus projetos (aliás, isto é difícil, pois aqui nesta ditamole o negócio é medida provisória até para regulamentar o cafezinho) acompanhados de uma cartinha súplice. No caso do atual presidente, que não tem fama de ser um grande pagador de promessas e nem sempre faz o que diz que vai fazer, deve ser acrescido o pormenor de que quem acredita em promessa dele deve ter residido incomunicável no Nepal durante os últimos 15 anos, ou estar internado num hospício porque, depois dos 40, ainda crê em Papai Noel ou imagina que todo barbudo é santo.

Se ele, desde o primeiro mandato, tivesse iniciado as reformas que prometia com fogo às ventas e das quais não promoveu nenhuma, o vexame não teria acontecido. Já passou tempo mais do que suficiente para que se fizessem diversas reformas antes tidas como inadiáveis, a exemplo da tributária. Mas ele não fez as reformas (aliás, não fez nada, como veremos mais cedo ou mais tarde) e agora seu governo continua a funcionar como barata tonta, sem programas, sem investimentos e reagindo aos acontecimentos atabalhoadamente. E, finalmente, uma palavra às carpideiras da CPMF: não chorem, não. Não vai fazer falta nenhuma. Eles não precisam, mas num instante são capazes de um emprestimozinho compulsório, um confiscozinho à la Collor, algo assim bem meu Brasil brasileiro. A gente engole qualquer coisa e eles sabem disto.’

 

ARQUITETURA
O Estado de S. Paulo

´A vida é só um minuto´, diz Niemeyer, ao completar 100 anos

‘Sempre ao lado da mulher, Vera, e rodeado por filhos, netos, bisnetos, amigos, políticos e artistas. Foi assim que o arquiteto Oscar Niemeyer comemorou ontem 100 anos de vida. Sem aparentar cansaço diante de dezenas de máquinas fotográficas, microfones e gravadores, Niemeyer bebeu uma taça de espumante, fumou uma cigarrilha e conversou por meia hora com os jornalistas.

´A vida é só um minuto. Devemos vivê-la da forma mais decente´, disse Niemeyer, na Casa das Canoas. Construída por ele em 1951, ela abriga a Fundação Oscar Niemeyer. Entre as personalidades presentes, estavam o ex-ministro José Dirceu (PT), o senador Marco Maciel (DEM), o ator Hugo Carvana e o cartunista Ziraldo.

´Eu procuro uma solução diferente. Arquitetura é invenção. Quando faço um projeto, procuro reduzir os apoios para a solução ficar mais audaciosa, os espaços mais generosos´, disse Niemeyer. Por mais de uma vez, usou a palavra solidariedade para resumir seu trabalho e o que espera do mundo. Entre suas obras, destacou Brasília e a Oca. Também elogiar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. ´É o presidente do povo. Vai eleger quem apoiar porque tem o apoio do povo.`

Para Marco Maciel, ´Niemeyer é um símbolo nacional porque ele é mais do que um arquiteto, um escultor. Ele é um pensador social. E de uma grande coerência de vida.´

Amigo de Niemeyer há mais de 40 anos, o engenheiro José Carlos Sussekind revelou que o próximo projeto de Niemeyer será uma revista, cujos artigos e diagramação já estão prontos. Só falta Niemeyer achar tempo para finalizá-la.

Já o economista Carlos Lessa liderará um movimento para executar uma obra de Niemeyer ainda no papel: a sede da escola de samba de Vila Isabel , a pedido de Martinho da Vila.’

 

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Folha de S. Paulo – 2

O Estado de S. Paulo – 1

O Estado de S. Paulo – 2

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