Quinta-feira, 18 de Julho de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1046
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CADERNO DA CIDADANIA >

O fim da era Ricardo Teixeira na CBF

Por Lilia Diniz em 22/03/2012 na edição 686

 

Depois de mais de duas décadas de protagonismo no cenário esportivo brasileiro, Ricardo Teixeira renunciou à presidência da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), ao cargo de membro do Comitê Executivo da Fédération Internationale de Football Association (Fifa), e se desligou das atividades do Comitê Organizador Local da Copa-2014 (COL). Polêmico, prestigiado e sempre sob os holofotes da imprensa por conta de denúncias de corrupção, Teixeira esteve no comando durante importantes conquistas do futebol brasileiro. Na contabilidade dos avanços, duas Copas do Mundo, o direito de sediar o mundial de 2014 e a transformação da CBF em uma entidade rentável.

Entre 1994 e 2006, Teixeira foi acusado de evasão de divisas, crimes de sonegação fiscal, lavagem de dinheiro, desvio de recursos públicos, crimes contra a ordem econômica, venda irregular de ingressos e favorecimento em negócios. Suas ações estiveram na mira do Congresso por duas vezes, quando foi investigado na Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) CBF-Nike e na CPI do Futebol. Em 2010, foi acusado de receber propina da empresa de marketing esportivo ISL, que atuava nos anos 1990. No ano seguinte, um novo escândalo: Teixeira teria pedido propina em troca de apoio à candidatura da Inglaterra para sediar a Copa de 2018.

Para discutir este tema, Alberto Dines recebeu no estúdio do Rio de Janeiro Walter de Mattos Jr., fundador, presidente e editor do Grupo Lance!, o primeiro diário nacional de esportes do país. Economista graduado pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) e pelo programa OPM da Business Harvard School, Walter tem cursos de pós-graduação pela London Business School (LEP). Em São Paulo, o programa contou com a presença dos jornalistas Juca Kfouri e Paulo Vinicius Coelho, o PVC. Kfouri escreve para o caderno Esporte da Folha de S. Paulo, participa do programa Linha de Passe e apresenta o Juca Entrevista, ambos na ESPN. PVC é comentarista do canal ESPN Brasil e colunista de O Estado de S.Paulo. Trabalhou na Folha de S.Paulo, na revista Placar e no diário Lance!, e cobriu quatro Copas do Mundo.

Mídia passiva?

Em editorial, Dines sublinhou que Ricardo Teixeira atualmente é o “inimigo público número um” no Brasil, mas que esta unanimidade é tardia. “O ex-manda-chuva do futebol brasileiro permaneceu blindado ao longo de duas décadas e só nos últimos três anos é que perdeu as imunidades que grande parte da imprensa lhe oferecia. É um caso de estudo sobre a leniência que se irradia de certas figuras envolvidas com atividades populares: o esporte, e sobretudo o futebol, oferece uma armadura resistente às exigências éticas e aos sacolejos dados pela mídia”. Para Dines, é hora de questionar se a mudança no “esquema moral” da CBF irá continuar após a saída de Teixeira.

A reportagem exibida antes do debate no estúdio entrevistou o jornalista Paulo Cabral, correspondente no Brasil da rede pública de televisão britânica BBC, responsável pelas denúncias de recebimento de propina de Teixeira e outros integrantes do Comitê Executivo da Fifa pela empresa ISL. Cabral ressaltou que a BBC não perseguiu Ricardo Teixeira, e sim fez jornalismo investigativo. Na avaliação do jornalista, é preciso observar que a corrupção no futebol atinge também outros países. “É uma área onde negócios mal explicados abundam ao redor do mundo”. Com a saída de Teixeira, Cabral acredita que será mais fácil apurar informações junto à CBF, porque o ex-dirigente havia montado uma “barreira de tijolos declarada” contra a rede britânica.

Na avaliação do jornalista Paulo Julio Clement, da FOX Sports, é esperado que os presidentes da confederação permaneçam sob intensa vigilância da mídia. “O futebol é uma coisa que chama muito a atenção da opinião pública, da própria imprensa; por isso, é natural que observassem os passos dele”, disse. Clement relembrou que Teixeira foi recebido com entusiasmo quando chegou ao cargo porque representava uma ideia de mudança; no entanto, as alterações promovidas por ele à frente da entidade foram apenas superficiais.

Poder entranhado

Compreende-se a longa permanência do ex-dirigente na presidência da CBF, na avaliação de Clement, ao observar o esquema de eleição para o comando da confederação. A maioria dos votos vem das federações de futebol, onde Teixeira tinha um forte trânsito político por conta de inúmeras benesses distribuídas para os clubes. O jornalista comentou que Teixeira também tinha boas relações com parlamentares, sobretudo com a chamada bancada da bola. “Houve várias matérias em relação a isso, que denunciavam a promíscua relação entre a CBF e boa parte do Congresso Nacional, o que ajudava o presidente da CBF a não ser muito bombardeado nas CPIs”. Clement ressaltou que, após a saída de Teixeira, os clubes – que deveriam ser os maiores interessados em uma reviravolta no futebol brasileiro – não têm se mostrado interessados em brigar pelo poder na CBF no curto prazo.

Quem derrubou Teixeira?

Segundo o jornalista Antônio Nascimento, editor do caderno de Esportes do jornal O Globo, os veículos de comunicação chegaram a disputar qual cobertura teria sido mais relevante para a renúncia do ex-presidente da CBF, mas a imprensa não cometeu excessos na apuração das supostas irregularidades. “Na maioria dos casos não existe perseguição, existem fatos que levam a imprensa a tentar desvendar coisas. Neste caso específico, talvez tenha havido uma certa perseguição só no último período, quando Ricardo Teixeira sinalizou que iria sair. Houve uma corrida para dizer: ‘olha, por causa das minhas denúncias Ricardo Teixeira saiu’. Acho que neste final houve um excesso, mas não acho que tenha havido uma perseguição. Ninguém perseguiu Madre Tereza de Calcutá”, comparou.

No debate ao vivo, Dines perguntou aos participantes que mudanças poderiam ocorrer na CBF, uma vez que o atual presidente da entidade, José Maria Marin, é herdeiro direto da política de Ricardo Teixeira. Para Walter de Mattos Jr., há um vácuo absoluto de poder no comando da entidade. No cenário esportivo, duas forças prevaleciam. No âmbito nos negócios, as Organizações Globo ditam as regras. Detentora dos direitos de transmissão das partidas, a emissora estabelece horários de jogos, tem o poder de fazer adiantamentos aos clubes e opina sobre mudanças no calendário das competições.

Na outra ponta, estava o poder de Ricardo Teixeira. Para o jornalista, a forte presença de Teixeira sufocou outras lideranças, como os dirigentes Eurico Miranda, Eduardo Vianna, conhecido como “Caixa D’Água”, e Mustafá Contursi. “O que a gente precisava agora é de uma união daqueles que gostam de futebol, porque estão ainda atordoados com essa mudança, que pegou muita gente de surpresa”, disse Walter de Mattos Jr. Em seguida, é hora de pensar em propostas concretas para o futuro, como uma nova governança na CBF, onde o poder da entidade em relação às federações fosse redimensionado.

Uma história de altos e baixos

O fundador do Lance! relembrou que Ricardo Teixeira estava com baixa popularidade quando o presidente Luís Inácio Lula da Silva chegou ao poder, em 2003. Logo, dirigente e presidente se aproximaram, o que levou a “uma série de puxa-saquismos e interesses” da parte de Teixeira e uma franca camaradagem de Lula. “Resta saber daqui por diante – eu imagino que para a presidente Dilma Rousseff foi muito boa a saída do Ricardo [Teixeira], ela certamente contribuiu para isso – qual é a posição do governo. O governo vai ter mais medo, neste momento, de alguma marola no futebol causar algum impacto na Copa do Mundo, ou vai querer dar um sinal verde para que essas mundanças possam se concretizar?”, questionou Walter de Mattos Jr.

Na avaliação de PVC, além do isolamento do governo federal em torno de Ricardo Teixeira, a imprensa teve um papel fundamental para o afastamento do ex-presidente. Para PVC e Kfouri, Teixeira caiu porque deu um “passo maior do que a perna” e foi arrogante. PVC destacou que estiveram em pauta na imprensa nos últimos meses temas como o superfaturamento das obras para a Copa do Mundo de 2014 e o jogo político por trás da escolha dos estados-sede das partidas.

PVC elogiou a postura do deputado federal Romário (PSB-RJ), ex-jogador de futebol tetracampeão mundial pela seleção brasileira em 1994. Nas últimas semanas, Romário tem expressado preocupação com os desvios de recursos públicos nas obras para a Copa do Mundo e defendido drásticas mudanças na CBF. “Dos clubes, que deveriam tomar esta posição, não se pode esperar neste momento nada porque estão todos mais ou menos alinhados”, criticou.

O verdadeiro Teixeira

Juca Kfouri destacou que a entrevista concedida pelo ex-presidente da CBF à revista piauí de junho de 2011 foi fundamental para a sua queda. Em um dos pontos mais polêmicos da entrevista, Teixeira diz que só daria atenção às denúncias envolvendo o seu nome quando o assunto tivesse destaque no Jornal Nacional, da TV Globo, referindo-se à pouca visibilidade de veículos como UOL, Lance! e ESPN. Kfouri destacou também a cobertura da Folha de S.Paulo e de O Estado de S.Paulo.

“É importante que se diga que houve quem, na queda de Teixeira, tentasse inocentá-lo mostrando que não há nenhuma condenação contra ele. Que é uma maneira, que a gente conhece, de dizer uma porção de verdades e dizer uma grande mentira. A gente sabe a promiscuidade dos tribunais do Rio de Janeiro e a ‘dona’ CBF’”, criticou o jornalista. Kfouri comentou que mesmo o jornal O Globo, que constantemente aborda as mazelas da Justiça, na página de Esportes, chamou a atenção para o fato de Teixeira não ter sido condenado criminalmente. “É pouco. Aí, não é perseguir ou deixar de perseguir. Aí é uma lealdade que, eu aprendi, jornalista não deve ter”. No limite, vale a máxima de que jornalista não tem amigos. “A imprensa, já dizia Millôr Fernandes, é oposição. O resto é armazém de secos e molhados”.

 

***

Adeus, Ricardo Teixeira

Alberto Dines # editorial do Observatório da Imprensa na TV nº 631, exibido em 20/3/2012

Bem-vindos ao Observatório da Imprensa.

Ele pode ser um boa praça, bom amigo, talvez bom chefe de família, mas, na esfera pública, Ricardo Terra Teixeira, conhecido como Ricardo Teixeira, é uma unanimidade: o inimigo público número um.

É preciso que se diga que esta unanimidade é tardia; o ex-manda-chuva do futebol brasileiro permaneceu blindado ao longo de duas décadas e só nos últimos três anos é que perdeu as imunidades que grande parte da imprensa lhe oferecia.

É um caso de estudo sobre a leniência que se irradia de certas figuras envolvidas com atividades populares: o esporte, e sobretudo o futebol, oferece uma armadura resistente às exigências éticas e aos sacolejos dados pela mídia. O mesmo acontece nos círculos próximos às escolas de samba e ao carnaval. O “rouba mas faz” é um fenômeno político que não é exclusivo do Brasil. Silvio Berlusconi, na Itália, sobreviveu tanto tempo porque nele se refugiou com extrema habilidade, usando inclusive o futebol.

Ricardo Teixeira foi enfim derrubado, mas seus sucessores originam-se num esquema moral não muito diferente. A pergunta tornou-se coletiva e urgente: a faxina vai continuar?

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