Sábado, 24 de Fevereiro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº975

CADERNO DA CIDADANIA > CRISE FINANCEIRA GLOBAL

O fim da pré-história

Por César Fonseca em 30/09/2008 na edição 505

Onde está Francis Fukuyama, aquele que, sob aplauso da grande mídia nacional e internacional, escreveu em 1989 ensaio famoso, intitulado O fim da história, como comemoração à vitória ideológica neoliberal diante da queda do Muro de Berlim e do colapso da União Soviética e conseqüente soerguimento do unilateralismo político norte-americano na condução dos assuntos internacionais, sem levar em consideração a opinião dos outros?

O princípio único fukuyamista, que caracterizou o neoliberalismo em sua tentativa de ressurreição no século 20, a partir do final dos anos de 1970, depois de ter falido no final do século 19 e implodido no início do seguinte, no crash de 1929, entrou em parafuso.

O cadáver insepulto tentou voltar ao útero materno, freudianamente. Não deu pé.

A pretensa concepção fukuyamista do absoluto hegeliano em funcionamento perfeito, com base na unicidade básica pensante, personificada no Estado burguês, ajustado, em sua superestrutura jurídica, à lógica da lei da oferta e da procura, foi para os ares na bancarrota financeira do mercado imobiliário nos Estados Unidos.

Levou de roldão grandes bancos, podendo afetar, igualmente, grandes oligopólios. Já era a etapa da pura financeirização econômica global, totalmente desregulamentada.

Negação da dialética

O império está tremendo em suas bases e, com ele, a grande mídia, que, como mostram os editoriais analisando o processo em curso, não dispõe de suficiente clareza, para ir fundo, a fim de analisar a evolução do capitalismo em suas contradições históricas.

Fica na superfície. Por isso, o panorama permanece furta-cor. Tenta-se separar duas coisas inseparáveis no capitalismo atual, o real e o fictício, sem perceber que o real passou a depender da ficção e a ficção do real, interativamente, de modo que a crise de um é a crise do outro e vice-versa.

Mostrar as contradições do sistema e seus impasses seria condenar a própria grande mídia que não jogou com a dialética da realidade, mas com o seu caráter meramente mecânico, distante da concretude do real em movimento contraditório.

Pecou o falso pensador norte-americano – e seus porta-vozes do poder midiático alienado – porque não considerou corretamente, com amplo conhecimento de causa, a dialética, que impõe ritmo de mudança à história.

Ficou esdrúxulo. Falar em fim da história, como foi o caso do filósofo, representa a negação da dialética colocada em uso sistemático pelo autor que tenta cultuar, ou seja, Hegel, grande pensador alemão (1770-1831).

Formação de categorias lógicas

Marx, atrevido, dialético e amante de Hegel, a quem chamou de ‘o grande Hegel’, reconhecendo que escreveu O Capital com a Ciência da Lógica, de Hegel, debaixo do braço, fez o próprio mestre dançar no processo dialético em Manuscritos Econômicos e Filosóficos, sem que ele perdesse, entretanto, o passo.

Tentou mostrar que Hegel colocou a realidade de cabeça para baixo, para ressaltar que a dialética hegeliana se altera em seu movimento, dialeticamente, para sofrer mudanças nos pressupostos de sua própria conceituação, que ergueu a conformação do Estado burguês.

E daí? Exausto, na tentativa de sobrepor-se a ele, Marx rende-se ao ensinamento dele, sem conseguir, inteiramente, desbancá-lo, considerando-o, enfim, fundamental.

Na prática, Hegel vira a realidade de cabeça para baixo porque, como filósofo do imperador, não podia falar as coisas muito claramente. Perderia o emprego. O espírito é a matéria e a matéria é o espírito.

Lênin, em 1922, acompanha Marx em sua admiração pela dialética hegeliana que Fukyama não entendeu amplamente. Pregou a criação da sociedade dos amigos de Hegel, na URSS, como forma educativa popular para o povo, levando-o a pensar mediante a formação de categorias lógicas que impulsionam indagações conformes às contradições do próprio movimento do pensamento diante da realidade, essencialmente dual, que avança por processo de negação.

O strip-tease de Tio Sam

Fukuyama, que pensou comandar a dialética, foi, ao final, detonado por ela. O fim da história dele é o fim da pré-história que ele esqueceu de analisar, observando a contradição do real concreto em movimento. Agora, é arrastado pelo próprio processo histórico dialético.

O anúncio de Fukuyama foi excessivamente prematuro. Ejaculação precoce. O fim da pré-história que ele e a grande mídia, que o consumiu acriticamente, não viram é a confirmação não do fim, mas do renascimento de nova história.

Ambos, Fukuyama e grande mídia, viajaram na maionese escorregadia da alienação, expressa na derrocada do modelo monetário que ancorou a sobrevivência da reprodução ampliada do capital, depois que o padrão-ouro, vigente no século 19, deixou de ser solução para se transformar em problema para o próprio capitalismo.

Uma aula de história de economia política está sendo escrita com cores vivas, excessivamente fortes e dramáticas no transcurso turbulento da bancarrota financeira da moeda substituta do ouro, o dólar sem lastro – moeda estatal inconversível – sopro de Tio Sam em pedaço de papel que, ancorado nas bombas e produtos bélicos espaciais, dinamizou, no século 20 e até agora, a economia capitalista, essencialmente uma economia de guerra.

O fim da pré-história é o começo do fim da economia de guerra. O strip-tease de Tio Sam é total em cima do palco global iluminado.

Produção e consumo

Tomba-se, nesse instante, com grande encenação teatral global, a moeda do Estado burguês, que chegou ao poder no final do século 19, para desbancar, definitivamente, o poder das monarquias e suas moedas, impulsionadoras do capitalismo industrial, ancorado no discurso promotor da poupança e do puritanismo conservador que construiu a Era do Capital industrial sob o padrão-ouro, descrito por Hobsbawm.

O século 20 nascia não para preservar as virtudes da poupança, mas para pregar a religião consumista como abridora das portas do céu para o consumismo capitalista como passaporte para a salvação eterna.

A ciência e a tecnologia, colocadas a serviço da produção, afastaram os perigos de desabastecimentos. Pelo contrário, exigiram consumo e mais consumo para assegurar a reprodução capitalista ampliada.

Abaixo as virtudes poupadoras. Viva as novas virtudes, consumidoras, a liberação dos sonhos construídos a partir das bases de uma moeda sem lastro, propulsora da desinibição total.

Quem daria partida a esse processo não poderia ser a velha moeda monárquica, expressão das reservas de ouro, seguras, puritanas, o padrão-ouro anti-consumista.

Essa filosofia econômica, predominante no século 19, levou o capitalismo, conforme descreve Malthus em Princípios de economia política, a viver, permanentemente, a contradição entre produção e consumo.

Representação do Estado

O desfecho de tal contradição sempre foi o de levar o sistema às recorrentes crises deflacionárias, produzidas pelo subconsumismo, de um lado, e sobreacumulação de riqueza, de outro.

O excesso de eficiência das forças produtivas produzia além da capacidade de consumo da comunidade, afetada pela sobreacumulação de capital, de tal modo que requeria, dialeticamente, o seu contrário, a ineficiência, dada pelos gastos do governo.

Escândalo para as virtudes puritanas, mas, fazer o que? Era, como reconheceu Keynes, neomalthusiano de carteirinha, dissimulador genial, a solução para o capital.

Malthus falara a verdade e, conseqüentemente, fora condenado ao ostracismo eterno.

Como superar, no século 20, essa contradição, que levou o capital à primeira guerra mundial e, em seguida, à derrocada final do modelo de economia de mercado, na crise de 1929?

Simplesmente, deixando de lado o real e adotando-se a ficção. A ficção monetária impõe-se, como arma para sustentar a reprodução ampliada do capitalismo, para livrá-lo da deflação, por meio da sua oposição dialética, a inflação, expressa na moeda estatal inconversível, sem lastro.

Fukuyma ou não viu ou fingiu que viu e fez de conta que entendeu, mas não de todo: a nova moeda, no século 20, é uma representação do Estado, não mais sob o poder do rei, mas dos burgueses, que abandonam o real e adotam a ficção.

Falsa segurança

Não são mais as reservas de ouro, mas o próprio poder estatal abstrato, ancorado numa infra-estrutura jurídica que se ergue como instância poderosa capaz de dar sustentação política à moeda deslastreada, sob domínio burguês, que deslocara o rei do comando do processo político.

Os burgueses vinham, desde a Idade Média, tentando fugir dos altos impostos cobrados pelas monarquias, para sustentar ampliações territoriais por meio de guerras. Entre 1740 e 1974, houve 344 guerras, 85 milhões de seres humanos detonados, relata Lauro Campos em Neoliberalismo, crise e miséria (Senado, 2001).

Em nome dessa nobre causa, os monarcas – depois os burgueses fariam a mesma coisa –, avalizadores do padrão-ouro, extraíam riqueza da burguesia via tributação cada vez mais elevada, até que a roda a história alcançou as monarquias, destruindo-as.

Primeiro, com a Revolução Francesa, em 1789, depois com as seguidas revoluções burguesas em toda a Europa, no século 19, apogeu do capitalismo industrial.

Faltava à burguesia sua própria moeda para fugir do equilibrismo orçamentário imposto pelo rei, via controle monetário e fiscal. A oportunidade chegou com crise neoliberal de 1873-1893.

Esta sinalizou explosão do padrão-ouro neoclássico. A falsa segurança das monarquias rompeu-se e emergiu o Estado que se transformou em capital para se contrapor ao laissez faire, ao mercado, não mais sob comando dos reis, mas dos próprios burgueses.

A reprodução ampliada do capital

Se o rei teve sua moeda, por que os burgueses não teriam a sua? Por que se limitar ao reino, se haviam destronado o rei?

Nascia, sob o poder burguês, expresso em democracia representativa, o papel moeda inconversível estatal que levaria o capitalismo, depois do estouro do padrão ouro, na crise neoliberal de 1929, a romper os controles monetaristas monarquistas e impor sua nova lei.

O Estado, capital em si, por si, para si, por si mesmo, emerge no século 20, século norte-americano, nascido nos escombros da libra esterlina, dominante no século 19, para irrigar a circulação capitalista.

Essa moeda estatal, que Keynes considerou essencial para dinamizar o capitalismo depois do crash de 29, tem a missão não mais de desenvolver as forças produtivas, mas as forças destrutivas, na guerra, como previu Marx, em O Capital.

A moeda estatal burguesa inconversível, sem lastro, impõe, pela sua dinâmica, o fortalecimento militar do Estado burguês mediante gastos crescentes com produção bélica e espacial, como arma macroeconômica.

São tais gastos, em sua dimensão macro, expressos na moeda estatal, que criam o chamado Departamento III da economia capitalista, para sustentar a reprodução ampliada do capital que havia entrado em crise em 1929, quando, então, o sistema se apoiava em apenas dois departamentos: D1, produtor de bens de produção, de capital, e D2 , produtor de bens de consumo.

Valor transforma-se em não-valor

As contradições entre produção (D1) e consumo (D2), no contexto do livre mercado, à moda neoliberal, neoclássica, levaram a economia à bancarrota deflacionária, o que exigiu a emergência de um departamento salvacionista, o Estado (D3), com sua moeda estatal inconversível, burguesa, sem lastro, ficção pura.

Com o D3, nasce uma moeda que não é apenas reserva de valor, meio de troca, aspecto ao qual se prende, neuroticamente, a grande mídia, mas, sobretudo, representa instrumento de poder, de ação política do próprio Estado investidor.

A reserva de valor se transforma em um não-valor. A crise monetária norte-americana, agora, mostra claramente esse aspecto. O dólar, moeda papel, sob ataque, corre risco de virar papel podre, deixando de ser equivalente universal.

O Estado, virando capital, sob poder burguês, livre das monarquias, cujo controle orçamentário enforcava a capacidade de investimento e expansão da própria burguesia, dispõe de uma moeda que não é neutra no processo econômico, como ensina a cartilha neoliberal.

Os comentaristas do poder midiático, em geral, salvo honrosas exceções, estão, nas páginas da grande mídia, vendidos. O valor que cultuam transforma-se em não-valor do qual todos fogem.

O espírito animal dos empresários

Fukuyama pensou que essa armação monetária para reprodução ampliada do capital seria eterna e estabeleceria um repouso absoluto sob o neoliberalismo capaz de sobreviver a si mesmo. Eterno se transforma em etéreo.

Esse poder monetário estatal, o D3, que compra mercadorias que não são consumidas pela sociedade, mas pelo Estado – corrida armamentista, produtos bélicos e espaciais etc. – torna-se a fonte de sobrevivência de D1 + D2, que haviam entrado em crise nos anos de 1930.

De lá para cá, D3 puxa D1+D2 até entrar, também, em crise. O dinheiro estatal, keynesiano, é o que, agora, explode na crise dos subprime nos Estados Unidos. Fim de linha?

D3, conforme destaca Lauro Campos em A crise da ideologia keynesiana, impulsiona a produção, não de mercadorias, mas sim, de não-mercadorias, bancada pela capacidade do Estado de manejar a quantidade da oferta de moeda, única variável econômica verdadeiramente independente, sob o capitalismo, como reconhece Keynes.

É ela que desperta o espírito animal dos empresários, pois quando lança moeda em circulação o governo (1) – aumenta os preços; (2) – diminui os salários; (3) perdoa a dívida dos empresários contratada a prazo; e (4) – diminui os juros.

Implosão da economia de guerra?

Vale dizer, os empresários somente se animam, ou melhor, se animalizam, dispostos aos investimentos, quando não precisam enfiar a mão no bolso. Grande Keynes, cuja solução, no entanto, mostra-se, na crise norte-americana, limitada, quando antes era soberana.

O governo, diz Lauro, dinamizando D3, aumenta o consumo sem elevar a oferta, nem de D1 nem de D2, para que ambos possam conviver em relativo equilíbrio, sob relativa escassez, para que os preços subam e os lucros idem, a fim de evitar que a contradição entre produção e consumo de bens e serviços não exploda em deflação.

D3 é a guerra que sustenta a paz expressa em D1 + D2. Isso, enquanto a capacidade de endividamento do Estado mereça a confiança do mercado e da sociedade.

Não está sendo mais o caso no presente momento da crise monetária, que leva de roldão a arrogância unilateralista utilitarista de Tio Sam, endeusada por Fukuyama e grande mídia.

Marx disse que o capitalismo dinamizaria as forças produtivas, entraria em senilidade e passaria a dinamizar as forças destrutivas, na guerra. A moeda estatal, no século 20, é a moeda promotora da economia de guerra.

O fim da pré-história é o começo do fim da economia de guerra. O contrário do fim da história de Fukuyama e dos seus oráculos do poder midiático global.

A humanidade vai, finalmente, entrar na história? Ou ainda vai demorar demais?

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Jornalista, Brasília, DF

Todos os comentários

  1. Comentou em 02/10/2008 Orfeu Gasparini

    Primeiramente, gostaria de parabenizar o César Fonseca pela aula de História da humanidade e pela aula dos processos, ( Políticos, econômicos e Humanos).
    Acredito que dentro dessa dialética, que tanto faz parte dos paradoxos humanos, e sem querer ser maniquísta, a principal característica que impulsiona o ser humano, ontem, hoje e sempre, em criar esses mecanismos de auto destruição; é a dualidade do explorador e do explorado.E acaba sintetizando todo o resto: pai e filho, deus e o diabo, o bem e o mal.Toda essa baboseira que criamos ao longo da nossa existência, só para podermos manipular a nossa realidade, que é muito triste, muito iníqua e que não nos traz a tão sonhada felicidade, pois temos de olhar para dentro, para o espelho.Não queremos aceitar nem acreditar na nossa humanidade, usamos de sofismas para conviver com ela e esquecemos que somos potencialmente capazes de tudo, absolutamente tudo!

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