Terça-feira, 19 de Março de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1028
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CADERNO DA CIDADANIA >

O fim do silêncio no caso Sean

Por Ligia Martins de Almeida em 03/03/2009 na edição 527

O caso do menino americano seqüestrado pela mãe e mantido no Brasil há quatro anos finalmente virou notícia: capa do caderno ‘Cidades’ e página interna do Estado de S.Paulo de domingo (1/03) e matéria em Veja (nº 2102, de 4/3/2009). Tudo porque, num encontro preparatório da visita do presidente Lula aos Estados Unidos, agora em março, os defensores do pai do menino prometem manifestação em frente à Casa Branca.

Tratamos do assunto neste Observatório (‘Uma história que não comoveu a mídia‘, 10/2/2009). Até aquela data, as notícias eram raras. Nem a longa matéria da revista piauí, nem o noticiário das TVs americanas foi suficiente para fazer o resto da imprensa se mexer. A Folha de S.Paulo registrou o assunto sem dar o nome dos envolvidos e o Estadão deu uma nota pequena, quando David (o pai) conseguiu ver o filho por algumas horas, em visita feita ao Brasil na companhia de um congressista americano.

Mas agora que o caso do menino Sean virou assunto diplomático, a grande imprensa parece se sentir na obrigação de tratar do assunto. ‘Disputa por garoto de 8 anos vira saia-justa diplomática para o Brasil’, é o título da matéria do Estadão (1/3/2009), com direito a cronologia, a partir do ano 2000. A grande novidade da matéria é a palavra da família brasileira do menino e as acusações contra o pai: ‘Esse cara visa ao dinheiro. Queria sempre se dar bem em toda situação. Tem uma família desestruturada’, disse ao Estadão Luca Bianchi, tio do garoto por parte de mãe.

Do lado de cá do balcão

A revista Veja informa que a família de Bruna (a mãe de Sean, que morreu depois de dar à luz a uma menina) ‘não fala publicamente do caso porque corre sob segredo judicial’. Segundo a revista, a família tem insinuado que Goldman é um aproveitador: ‘Enquanto eram casados, Bruna sustentava a casa dando aulas de italiano e a vida sexual do casal era um deserto.’

Agora, que o caso virou manchete porque se tornou o primeiro embate diplomático do Brasil com o novo governo norte-americano, a imprensa resolveu tirar a auto-imposta ‘mordaça’ de que falaram as TVs americanas. E acaba provando que o problema não era de mordaça, mas de pura insensibilidade ou falta de clareza para ver uma pauta que vá além da baixaria. De uma hora para a outra, a vida sexual do casal entra em discussão e até a saúde do pai é debatida. A família brasileira do menino, apesar de ter cedido uma foto dele com a irmã (publicada por Veja), continua se reservando o direito de não falar, embora encha os jornais e revistas de insinuações sobre o pai e o casamento dele com a brasileira.

E a imprensa acaba preferindo publicar fofocas a tratar o assunto com a seriedade que ele merece. Desta vez estamos do lado de cá do balcão. Mas e as crianças brasileiras levadas do Brasil para outros países? Quem vai falar delas?

Propositalmente ignorado?

E, o mais importante, quem vai falar aos leitores sobre como funcionam esses mecanismos legais que permitem – num processo que se arrasta há cinco anos – que a custódia do menino tenha sido rapidamente cedida ao pai adotivo? Veja conta:

‘Temendo que Goldman pudesse pegar o filho de volta com a morte de Bruna, Lins e Silva, seis dias depois do falecimento da mulher, pediu à Justiça a guarda do menino alegando paternidade sócio-afetiva. Com agilidade incomum, a Justiça atendeu a seu pedido no mesmo dia,’

Seria interessante que a própria Veja e os jornais fizessem um levantamento sobre as crianças na mesma situação (estrangeiros ou brasileiros seqüestrados por um dos pais) e mostrassem porque a Justiça brasileira é tão lenta. Será que os pais e mães vítimas precisam ter dinheiro ou influência para tornar a Justiça mais ágil?

Paralelamente, a mídia poderia fazer uma autocrítica e explicar se o caso Sean – divulgado pela TV americana e que rendeu uma excelente matéria na piauí, em novembro do ano passado – foi propositalmente ignorado pelo resto da imprensa ou se chegamos ao ponto de só noticiar histórias apimentadas ou fatos que envolvem o governo.

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