Segunda-feira, 19 de Fevereiro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº974

CADERNO DA CIDADANIA > PREVIDÊNCIA SOCIAL

O jornalismo conveniente

Por Nilson Lage em 24/08/2004 na edição 291

Por que o desconto previdenciário dos servidores públicos aposentados causou tanta alegra ao Sr. Mercado? Certamente não pelas centenas de milhões anuais de economia nas contas públicas, a maior parte em estados e municípios. São apenas trocados, a essa altura dos acontecimentos.

A razão é outra: no entendimento dos observadores mais lúcidos, quebrou-se uma cláusula pétrea da Constituição. Outras virão, por certo. Poderão, agora, ser modificados os direitos individuais ao sabor das contingências. De imediato, para mudar (dizem os marqueteiros, ‘flexibilizar’) as leis trabalhistas, o que deve ocorrer tão logo passem a eleições municipais.

Mas não só os direitos individuais estão na mira. Depois deles, poderão cair as demais cláusulas pétreas previstas na Constituição – ‘a federação, o voto direto e a separação de poderes’, e, por que não, o ato jurídico perfeito, se contrariar algum interesse, por exemplo, do Sr. Mercado.

Sem pátria

Desde o tempo de Fernando Collor, o Mercado, simbólico cavalheiro de muitas faces, muitos paletós, gravatas, uísques blue label e relógios Rolex, esperava pacientemente por isso.

Este velho jornalista já viu o bastante para saber o quão sábio foi Luís de Camões ao proclamar que ‘mudam-se os tempos e as vontades’, para concluir que ‘não se muda mais como soía’.

É possível que, no ciclo da História, só reste aos trabalhadores, algum dia remoto no futuro, erguer-se numa revolução lingüística que volte a chamar de ‘direitos’ o que hoje os cavalheiros bem de vida apelidaram de ‘privilégios’.

O que dói não é o que os juristas citados nas melhores colunas opinaram, porque eles opinam de encomenda ou por compromisso de classe, nem mesmo o que decidiram os ministros do STF, criaturas humanas, pertencentes à elite e envolvidas no clima de Brasília, seco, distante e místico.

É o silêncio dos jornais quanto a esse aspecto. É a ênfase que deram a uma mudança de limites de isenção (que a inflação em poucos anos tornará insignificante), engendrada para ocultar dos leads e manchetes o tema principal, que a todos interessa. E mais ainda à Nação, a suas instituições e à sua Amazônia tão cobiçada.

Jornalismo sem crítica, sem profundidade, sem análise, sem inteligência, sem respeito aos leitores e sem pátria. Apenas servil.

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Jornalista e professor titular da Universidade Federal de Santa Catarina

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