Segunda-feira, 17 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1017
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CADERNO DA CIDADANIA >

O jornalismo de pegadinha

Por Luís Nassif em 29/10/2008 na edição 509

O subjornalismo tem diversas vertentes.


Há um tipo de jornalismo de intriga. Tome-se uma entrevista de alguém, selecione-se uma frase que possa passar a impressão de estar criticando outra pessoa, e dê destaque. Depois, repercuta com a pessoa supostamente criticada.


Há o jornalismo futebolista, que transforma qualquer evento, por mais insignificante que seja, em peleja, com um vencedor e um derrotado.


Ultimamente floresceu o jornalismo dicionário, preocupadíssimo em levantar erros de português em declarações de autoridades.


E há o jornalismo de ‘pegadinha’. Consiste em pegar uma entrevista de uma pessoa, separar uma palavra específica do contexto, dar-lhe a interpretação indevida. E, depois, tratar os esclarecimentos como se fossem ‘recuo’ ou ‘desmentido’.


É o caso típico dessa discussão bizantina em torno da ‘ajuda’ do BNDES às empresas que perderam com o subprime brasileiro.


‘Recuo’ e ‘desmentido’


O presidente do BNDES Luciano Coutinho disse que o banco estaria atento a esses problemas – especialmente de empresas com repercussão sobre cadeias produtivas.


Em nenhum momento falou em ‘ajuda’, em ‘operação hospital’, em ‘subsídios’. Pelo contrário: falou em capitalização das empresas pelo valor de mercado (isto é, depreciado). Significa adquirir ações – na baixa, se de empresas em dificuldades – para garantir o retorno ao banco quando a empresa se recuperar.


Falou mais. Que o banco aproveitaria essas capitalizações para induzir as empresas a saltos de governança corporativa e modernização de gestão.


Não adiantou. Uma ação não paternalista foi dividida em dois blocos opostos, ambos dando mote a críticas. O primeiro bloco foi o mote da ‘operação hospital’, ignorando-se que seria através de compra de ações depreciadas. O segundo bloco foi o da ‘estatização’, ignorando-se que compra de ações desmentia a tese da ‘operação hospital’.


Aí vem o ministro da Fazenda Guido Mantega reiterar que o governo não vai ‘ajudar’ especuladores. Coutinho esclarece, mais uma vez, que o BNDES não é hospital e que as operações, se ocorrerem, seguirão estritamente procedimentos de mercado.


Agora, as manchetes falam em ‘desmentido’, ‘recuo’ e coisas do gênero.


Esse tipo de jornalismo de ‘pegadinha’ já cansou.


***


As três ondas da crise


O mundo passará por três grandes ondas no mercado financeiro, antes de assentar e começar a analisar as conseqüências sobre a economia real:


1. A crise bancária provocada pelo subprime. Bancos Centrais do mundo inteiro já encetaram ofensivas para contê-la.


2. Crise dos ‘hedge funds’, os fundos especulativos. A extraordinária desalavancagem (venda de ativos para resgate) ocorrida globalmente é a principal razão para essas quedas expressivas das bolsas, para as violentas oscilações cambiais (que não poupou nem o yen do Japão). É processo ainda em curso.


3. O default de países. Essa será a terceira onda. Na América Latina, são candidatos a Argentina (pelo conjunto da obra), Venezuela e Bolívia (pela queda do petróleo e pela falta de previsão quando os ventos iam a favor), e Chile (dependente do cobre).


Depois é que a recessão mundial entrará definitivamente nas análises.


Repare que, por conta do nervosismo atual, até notícias sem nenhuma novidade (como dados de recessão em países europeus ou nos EUA) caem como uma bomba sobre os mercados. Mas tudo por conta dos nervos expostos por essas ondas iniciais.

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