Sexta-feira, 14 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1017
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CADERNO DA CIDADANIA >

O jornalismo impressionista

Por Luciano Martins Costa em 06/05/2008 na edição 484

No auge das mudanças que lhe deram a liderança na circulação dos jornais diários durante certo tempo, a partir dos anos 1980, a Folha de S.Paulo era regida por um manual ambicioso, com o qual se tencionava produzir um jornalismo preciso, quase científico, de cuja execução se deveria eliminar qualquer ranço de intuição, daquilo que na nossa rica lista de anglicismos chama-se feeling, ou do mero ‘chutômetro’. Por trás dessas normas, à sombra do temperamento severo do então novato diretor de redação, Otavio Frias Filho, começavam a despontar profissionais com pouca ou nenhuma experiência de redação e muita pinta de schollar.

Foi um tempo de alucinações estatísticas, das quais se pretendia arrancar as linhas que escreveriam um novo jornalismo, absolutamente substantivado e com os adjetivos estritamente domesticados. Os bons contadores de histórias perderam espaço, brotaram os repórteres capazes de relatar com precisão quantos manifestantes haviam acorrido a determinado evento, comparando suas próprias medições com as avaliações da Polícia Militar. Logo a técnica da Folha de medir multidões – multiplicar a média de quatro pessoas por metro quadrado pela área total da Praça da Sé, por exemplo –, ganhou adeptos em outros jornais e em revistas. E é claro que os pândegos de plantão inventaram uma nova versão para essa maravilha da inovação jornalística. Na versão dos pândegos, seria mais preciso contar as orelhas e dividir por dois, uma vez que a porcentagem de pessoas com menos ou mais do que duas orelhas é estatisticamente irrelevante, e considerando-se também que as multidões de movem, alterando sua densidade, mas costumam levar consigo suas orelhas.

Nesse período, os entusiastas das novas normas, profissionais com brilhantes carreiras acadêmicas e nenhum sinal de poeira ou lama nos sapatos, cunharam a expressão ‘jornalismo impressionista’, usada de forma depreciativa para identificar as reportagens pintadas com as cores fortes da emoção. Queria-se, com isso, dizer que o jornalismo feito de pinceladas fortes, como nos quadros impressionistas, não podia retratar a verdade com a precisão exigida pelos novos tempos.

Pode-se, evidentemente, contestar essa visão estereotipada do movimento impressionista, que, ao contrário, procurava demonstrar, entre outras coisas, que a realidade, feita de muitos pontos de cores diversas, pode ser melhor compreendida à distância. Um quadro impressionista só é ‘impressionista’ – na acepção dada por esses normatizadores do jornalismo – quando visto de muito perto, ponto por ponto. De longe, os pontos formam o conjunto que compõe a realidade retratada.

Volta, Van Gogh

Mas isso é tema para os críticos de arte. Pois o apelido de ‘jornalismo impressionista’ colou e virou uma maldição que acabou afetando seus próprios criadores. Da mania de estatísticas, a Folha – e logo toda a imprensa nacional – passou à produção desvairada de dados, rankings e avaliações. E chegou o momento em que começaram a faltar os qualificativos para manchetes sobre dados cada vez mais impressionantes.

Vem daí o bordão predileto do jornalismo das estatísticas: ‘mega’. Tudo que não se pode mais medir, ou que, medido, não resulta em um número impressionante o suficiente para atrair leitores, vira ‘mega’. Na vasta coleção de títulos de reportagens do jornalismo contemporâneo, temos desde ‘mega presídio’ a ‘mega enchente’, passando pela ‘mega jazida’ (da Petrobrás), que poucos meses depois teve que ser repetida, pois outra jazida gigantesca foi anunciada, e uma chusma de ‘mega arrastões’ nas praias da Zona Sul do Rio e os ‘mega shows’ de réveillon, mais os ‘mega lucros’ dos bancos e os ‘mega’ escândalos da política.

As restrições ao texto acabaram por empobrecer a linguagem jornalística. Além disso, a imposição de regras que inibem a expressão da sensibilidade dos repórteres acabou por produzir uma geração de profissionais na qual rareiam os bons contadores de histórias. O jornalismo não ganhou em precisão e perdeu a capacidade de surpreender o leitor pela tirada criativa, pela metáfora que incendeia a imaginação, pela expressão imprecisa que, bem colocada, faz do leitor um cúmplice na interpretação da realidade.

Precisa-se, urgente, de quem saiba pintar boas paisagens, descrever os sentimentos pela expressão dos personagens, relatar um acontecimento com algo mais vivo do que números. O jornalismo ficou chato demais. Só Van Gogh nos salva.

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