Quinta-feira, 22 de Agosto de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1051
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CADERNO DA CIDADANIA >

O jornalismo no imaginário popular

Por Emanuelle Lara Najjar em 23/02/2009 na edição 526

O imaginário popular, como sabemos, é lotado de crendices e ilusões. Imagens formadas pela criação tida em casa, pelas pessoas com as quais o indivíduo convive, por filmes, telenovelas e outras formas de cultura. Estereótipo e rótulos que não necessariamente possam ser verdadeiros, mas que são quase indissociáveis. Tipo: vida de modelo é apenas glamour, ou que artistas ganham a vida de forma fácil. Sabemos que não é verdade, mas quem se habilita a mudar a cabeça de uma massa?

Claro que o jornalismo não podia escapar disso. Afinal, um dos campos que ajuda a formar esses rótulos, obviamente tinha de ter um rótulo para si. Segundo o imaginário popular, a imprensa é o quarto poder. Seus profissionais são tidos como corajosos, onipotentes e onipresentes, correndo perigos para escrever a matéria de sua visa e ganhar o prêmio Pulitzer, além de ganharmos muito dinheiro. No caso dos brasileiros, ainda obrigatoriamente atingimos o ápice da prática profissional quando estamos na Globo, de preferência apresentando o Jornal Nacional, sendo amigo de fé e irmão camarada do todo poderoso William Bonner.

O mais engraçado é que esse tipo de pensamento é freqüente para aqueles que pretendem seguir a carreira. Chega a ser engraçado o modo com que os pretensos profissionais chegam à sala de aula com essa ambição de serem globais e de querer mudar o mundo. Aliás, essa de mudar o mundo é proposta inerente aos jovens. Agora una este ímpeto ao rótulo dedicado ao jornalista: qual você acha que será o resultado?

BBBs e Galvão Bueno

Posso me arriscar a dizer o que seria; afinal, vi de perto: desilusão. Começando pelas matérias que o aluno encontrará no primeiro ano. Sociólogos, teoria, psicologia… todas as ‘ias’ que encantam as pobres mentes ávidas por ação e por algo mais real que matérias que, em sua pobre mente limitada e apressada, em nada vão ajudar. Depois, as aulas de texto, onde travará nas primeiras considerações daquela fórmula padrão e praga da humanidade chamada lead.

Descobrimos, nas salas de aula, que a aura daquela sala de redação fumacenta onde se reuniam intelectuais, especialmente de esquerda, agora são geralmente salinhas com ar condicionado e computadores, onde se farão matérias tendo como principal fonte o telefone, o email e um release. Descobrimos também que as assessorias – aquele campo que todos diziam não ser de jornalistas – são as melhores chances de inserção no mercado de trabalho e de salários pouco maiores, pois do contrário haverá um quase regime escravocrata.

Durante quatro anos, ouvimos a mesma constatação: ‘Ah, você vai trabalhar na Globo, apresentando o JN.’ No imaginário popular, o rádio, as assessorias e a internet não existem. Jornais são veículos com aura romântica, mas mortos. A TV é o grande espaço, a ambição, onde você será famoso e ganhará dinheiro. Qualquer outra coisa diferente disso soará como um absurdo para aqueles alimentados por BBBs da vida e campeonatos de futebol narrados por Galvão Bueno.

Sonho e ilusão

Em jornalismo não há glamour, nem quando se é bem mais velho e respeitado no ramo. Somos movidos por ego e falsas imagens que nos fazem parecer intelectuais e poderosos. Fingimos ser superiores por sabermos palavras mais difíceis e gostos pretensamente pouco mais sofisticados. Cremos possuir opiniões sobre o mundo, cuja vivência sequer temos.

Mas, por outro lado, também podemos ser a escória e a grande praga da humanidade. Afinal, a imprensa não é neutra e a mídia se torna responsável por absolutamente tudo de ruim que possa acontecer no mundo; somos o quarto poder, fazemos tudo aquilo que queremos. Somos mais poderosos que os governos e estamos acima do bem e do mal.

Talvez no dia em que alguém resolver contar a verdade sobre aquilo que somos, possamos ser encarados com mais seriedade, menos temor, pompa e circunstâncias, nem visto como semideuses… mas, claro, talvez não seja bom. Nós não queremos isso. Afinal, como a vida real é bem mais rígida do que se pensa, precisamos ter nossos egos vorazes, famintos e satisfeitos porque, até mesmo para nós, seres idealizados para buscar a verdade acima de tudo, é preciso um pouco de sonho e ilusão para se lidar com a realidade cruel.

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Jornalista, São José do Barreiro, SP

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