Domingo, 16 de Junho de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1041
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CADERNO DA CIDADANIA >

O juiz, o cozinheiro e a liberdade de expressão

Por Francisco José Daher Junior em 30/06/2009 na edição 544

A profissão de juiz pode ser comparada com a de um ‘bom cozinheiro’. Não precisa de diploma nem de faculdade para ser um bom cozinheiro; para ser juiz, acredito, basta ler muito, conhecer e amar as leis, entender que a corrupção é um câncer que precisa ser curado e/ou extirpado, ter bom senso, experiência de vida, capacidade de discernimento e assim por diante. Salomão, com todos os defeitos inerentes à raça humana, com certeza, deve ter sido um bom cozinheiro.

Trata-se, portanto, de uma profissão que exige mais doação do que altos salários, partindo do princípio de que a justiça é um direito universal; e, enquanto tal, qualquer cidadão que tenha boa preparação técnica e sólida formação intelectual, moral e ética, deveria ter o direito, sem diploma, de ocupar tribunais na condição de juiz, para arbitrar sobre todas as situações possíveis, quando se estiver em jogo a liberdade de expressão, o bem-estar individual e coletivo, a segurança, e tudo mais que garanta a justiça individual e coletiva.

Dentro de minha consciência empírica, fico pensando como se deu, ao longo da história, a construção do conhecimento. Nessa linha do tempo, se invocarmos pessoas que se dedicaram a essa ou aquela ciência e/ou profissão, que jamais frequentaram o que chamamos hoje de faculdades, universidades, talvez encontrássemos poucos cozinheiros; é provável que estes estivessem na categoria dos bruxos ou magos, escondidos em cozinhas, para poder melhor manipular seus experimentos.

Quem não é corporativo?

Nessa mesma linha de raciocínio, imaginemos que estamos em uma trincheira, na primeira ou na segunda Grande Guerra, ou quem sabe, no Iraque ou em Gaza recebendo tiros de vários lados. Um tiro mata nosso oficial médico! ‘Sobrou’ o enfermeiro, que se desdobra por entre operações para retiradas de balas, amputação de pernas e braços, entre outros procedimentos, para salvar os infelizes daquele drama humano. Termina a guerra e o nosso enfermeiro vai direto para a cadeia, por charlatanismo: operou sem diploma de médico.

Seguindo a lógica da sentença que caça – acho que a expressão correta é essa mesma – o diploma do jornalista, segundo a qual a ‘liberdade de expressão’ não pode ficar restrita a uma categoria profissional, é imperativo perguntar se essa referida liberdade está restrita ao jornalismo. Se não houvesse liberdade de expressão na arquitetura, por exemplo, será que Niemeyer imaginaria o Plano Piloto de Brasília? E o Plano Piloto de Tikal, ou de qualquer outra importante cidade maia, seria concebido se não houvesse essa liberdade de expressão já no século IX a.C? São inúmeros exemplos sobre os quais podemos fazer ensaios dessa natureza.

Sabemos o quão utópico é definir o que vem a ser um bom profissional, se nos basearmos em metáforas de pouco recurso literário, pois estaremos sempre dando brechas para especulações e manipulações, como tento fazer agora, de forma extremamente primária – leia-se o título do artigo –, com base em sofismas e elucubrações.

Um diploma não é capaz de definir se esse ou aquele profissional é bom ou não de serviço, mas delimita um campo de atuação. Estamos condenados à pós-modernidade e à burocracia de um Estado mínimo – a persistir a tendência de longo prazo da globalização – e, enquanto tal, algumas regras precisam ficar claras. É uma questão de sobrevivência profissional – afinal, nessa lógica, quem não é corporativo?

Pelo reconhecimento de todas as profissões por meio do diploma, ou pelo fim do Estado!

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Jornalista, Palmas, TO

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