Segunda-feira, 21 de Maio de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº987
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CADERNO DA CIDADANIA > MULTIPLICANDO SABER

O mérito ao contrário

Por Gabriel Perissé em 17/08/2010 na edição 603

Na Folha de S.Paulo de domingo (15/8), uma charge de Jean Galvão pega carona na piada pronta que a Secretaria de Educação de São Paulo soltou recentemente, em parceria com o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), com a USP e a Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe).

Uma iniciativa inesperada, custosa, duvidosa e diria até perniciosa. O título quer nos entusiasmar: ‘Programa Multiplicando Saber’. O investimento total para este programa será de US$ 663 mil, em que a Secretaria participará com US$ 130 mil, o BID com US$ 200 mil e os demais parceiros com US$ 333 mil. Na prática, estão previstas sessões de estudo de matemática para alunos do ensino fundamental, sob a orientação de outros estudantes provenientes do ensino médio da rede estadual paulista.

Quem terá redigido essa explicação tão positiva sobre o Programa?

‘Em dois dias da semana, durante 12 semanas, o tutor se reunirá com o grupo de pupilos para auxiliá-los na compreensão do material ensinado pelo professor de matemática em sala de aula. A tutoria deve se desenvolver em um ambiente informal e flexível, mas focalizado no aprendizado do conteúdo de matemática, conforme ensinado pelo professor. Em tal atmosfera, semelhante a uma aula particular, não só o aprendizado do conteúdo deve ser facilitado, como também a transferência dos tutores para os pupilos de outros valores positivos – como a importância da educação, sociabilidade, estratégias efetivas de estudo, e interesse pela matemática. Nesta atmosfera informal e menos estruturada que a sala de aula, os alunos sentem-se mais confortáveis para colocar suas dúvidas e interagir de forma proveitosa com seus pares.’

Uma decisão desesperada?

Os pupilos (o redator desse texto terá nascido no século 18?), nesse primeiro momento, serão alunos dos 6º e 7º anos do ensino fundamental, com 11 a 12 anos de idade (ou mais velhos, como sabemos que existem). Os tutores serão adolescentes do 2º e 3º anos do ensino médio e receberão bolsa mensal de R$ 115 entre setembro e novembro deste ano. A nobre missão desses adolescentes será atuar como verdadeiros educadores, sem nenhuma experiência docente, sem diploma de Pedagogia e sem, sequer, terem participado de curso algum da ‘revolucionária’ Escola de Formação de Professores criada pelo governo Serra…

O Programa é apresentado como se tudo fosse muito natural. A meta é identificar 35 ‘pupilos’ por escola de ensino fundamental e 15 ‘tutores’ por escola do ensino médio. Mas o que realmente causa surpresa e apreensão é que os estudantes com baixo rendimento em matemática receberão ajuda monetária, como explica o artigo da Folha de S.Paulo do dia 13/8:

‘O governo de São Paulo vai pagar até R$ 50 a alunos do ensino fundamental (11 e 12 anos) com notas baixas que participem de aulas de reforço em matemática – disciplina em que os resultados da rede estadual são piores. O dinheiro será dado diretamente ao estudante, e não a sua família.’

Ora, que tipo de reação se espera dos professores, da mídia e da população perante esse programa? Por que a Secretaria de Educação de Paulo Renato Souza não consultou os pais desses alunos? Terá perguntado aos especialistas em educação se essa tutoria remunerada é uma boa solução? Ou a psicólogos, sobre o que significa para uma criança de 11 anos receber uma espécie de esmola de luxo de R$ 50,00 diretamente do gestor público? Ou estamos diante de uma decisão desesperada, cujo pano de fundo é a campanha presidencial, momento em que o PSDB precisa mostrar algum tipo, qualquer tipo de serviço no campo educacional?

Iniciativa bizarra

Essa experiência de ensino mútuo é bem conhecida dos historiadores da educação, e conhecida como recurso anacrônico. Trata-se do ‘sistema monitorial’ ou ‘sistema de Lancaster’ que, no contexto do século 19, nos Estados Unidos e posteriormente no Brasil, servia como medida provisória e precária para acolher o número cada vez maior de alunos provenientes de classes pobres. Havia escassez de professores. Era uma medida de emergência.

O governo estadual quer provar, por acaso, que não temos professores disponíveis ou capacitados em São Paulo para ensinar matemática em aulas de reforço? E se não os temos, com quem os alunos do ensino médio aprenderam para, agora, cumprirem essa tarefa em lugar dos seus mestres? E se faltam professores, não será por que a profissão docente continua a ser muito pouco atraente do ponto de vista salarial?

Uma leitora do Portal Terra fez o seguinte comentário depois de ler a matéria:

‘[…] Trata-se de bolsa eleição, pois ao invés de investirem em salas com 25 alunos e salários dignos aos professores, preferem comprar os votos de adolescente para ensinarem seus colegas, recebendo mais que o professor que estudou muito para se graduar, prestar concurso e se manter na docência, mesmo sendo uma profissão atualmente sem nenhuma decência’ (Vera Filósofa).

E o conselheiro estadual da Apeoesp (Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo) José Wilson de Souza Maciel fez uma declaração que vale a pena difundir: ‘É o fim do mundo você ter de pagar para motivar o aluno a ir a uma aula, isso é o caos da educação. Os estudantes têm de frequentar a escola sabendo que se preparam para o futuro.’

Professores e seus sindicatos, autoridades políticas e educacionais precisam refletir sobre várias questões que estão em jogo aqui:

** Institucionalizar a ajuda entre alunos mediante pagamento de bolsa promove a mercantilização da solidariedade em sala de aula.

** Incentivar monetariamente quem não tem bom desempenho escolar, remunerando-lhe a presença em aulas de reforço que, afinal, são um direito do aluno, gera a sensação de que estudar e obter boas notas não compensa…

** Pagar R$ 50,00 diretamente aos alunos é um risco. Não se despreze a possibilidade de esse dinheiro, entregue à revelia dos pais, ser usado em consumo de bebida alcoólica, drogas etc.

** Fazer circular notas de R$ 50,00 no ambiente escolar pode criar ocasiões de bullying no dia do pagamento…

** Imiscuir recebimento de dinheiro em nome de incentivo ao estudo é uma forma de desmoralizar, não só os professores, mas a própria família do aluno e, em casos mais graves, suscitar situações anômalas em que a criança sofrerá pressão para ter notas baixas.

É de se esperar, por fim, que o MEC esteja atento a essa bizarra iniciativa, a essa piada de péssimo gosto. E que se manifeste.

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Doutor em Educação pela USP e escritor; www.perisse.com.br

Todos os comentários

  1. Comentou em 18/08/2010 sergio ribeiro

    Os tucanos já abandonaram a idéia antes de qualquer providência. Demonstra mais como estão completamente perdidos às vésperas da eleição. Se perderem logo no primeiro turno, não será surpresa para ninguém. Depois os direitões querem culpar o Bolsa Família.

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