Quinta-feira, 14 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

CADERNO DA CIDADANIA > FABIO SABAG (1931-2008)

O mestre da TV para crianças

Por Antonio Brasil em 06/01/2009 na edição 519

Você talvez não conheça o ator e diretor Fabio Sabag. Aos 77 anos, ele morreu no Rio no último dia de 2008. Mas todos os ‘jovens’ com mais de 40 ou 50 anos e que gostam de TV certamente se lembram de sua principal obra: o Teatrinho Trol, um dos mais premiados programas da história da televisão brasileira.


Produzido pela Tupi de 1956 a 1966, o programa fez enorme sucesso com crianças e adultos. Naquelas tardes de domingo dos primeiros anos da TV no Brasil, todos desapareciam das ruas para assistir aos melhores contos de fadas e peças infantis especialmente adaptados para a TV.


Eram tempos heróicos do meio. Tudo era novo, improvisado e experimental. Com muita coragem e profissionalismo, muitos anos antes da introdução do vídeotape, o Teatrinho Trol encenava suas peças infantis ao vivo diante de várias câmeras de TV. Os erros eram inevitáveis, mas a vontade de criar e inovar era ainda maior.


Em preciosa entrevista para o site InfantTV, Fabio Sabag explica esses tempos pioneiros (ver íntegra aqui):




‘Eu já tinha feito teatro infantil em São Paulo e depois na TV, quando ela começou. Procurei me cercar do que havia de melhor na época, atores, autores, figurinistas, maquetistas etc…’


Sobre as dificuldades, ele comenta:




‘Não sabíamos o que eram dificuldades, pois a única maneira de se trabalhar era ao vivo. Ninguém sonhava com vídeotapes, etc. Os programas eram muito ensaiados. Apesar dos ensaios, falhas eram inevitáveis. Tivemos muitas, dariam um livro.’


Sabag também explica o segredo do sucesso do programa:




‘Ficamos no ar durante 10 anos com muito sucesso. O segredo era muita luta, elenco de primeira, pesquisando as crianças, e sempre com a proposta de formação de platéias. Quem assistiu o Teatrinho, teve sempre, ao longo desses anos, um critério na escolha de espetáculos, para seus filhos e netos’.


Premiado e feliz


No Teatrinho Trol, grandes nomes da nossa dramaturgia como Fernanda Montenegro, Zilka Salaberry, Norma Blum, Roberto de Cleto, Moacyr Deriquem e até mesmo jovens promissoras como a estrela Christiane Torlone aos 10 anos encantavam toda uma geração com o melhor do teatro adaptado para a TV.


E por trás de toda aquela mágica e inovação estava o jovem Fábio Sabag. Ele se tornaria sinônimo de qualidade e criatividade no Teatrinho Trol:




‘A melhor recordação são as pessoas que encontro até hoje, pais, avós, que eram fãs do Teatrinho. Recebemos 120 prêmios e citações nas maiores revistas e jornais do Brasil e de muitos outros países e de escritores, intelectuais, artistas, inclusive da Unesco. Quanto a decepções foram tão poucas, que não deixaram mágoas. Sempre fui e sou feliz.’


Em mais quase 60 anos de atividades profissional, Fabio Sabag teve mais de 7.000 participações como ator de teatro, cinema, televisão e produtor de teatro. Chegou a ter quatro companhias teatrais no Rio de Janeiro. Só na Globo participou de mais de 20 novelas, além de minisséries e casos especiais. Mas quem não assistiu ao Teatrinho Trol, não sabe o que perdeu.


Débeis mentais


De lá pra cá, com raras exceções como o Sítio do Pica-Pau Amarelo ou o Castelo Ra-Tim-Bum, a televisão infantil brasileira tem sofrido muito.


Os programas infantis de Xuxa e suas congêneres contribuíram de sobremaneira para deseducar e imbecilizar toda uma geração de crianças. A perigosa mistura de estimulo à sensualidade precoce e consumo desenfreado teve péssimos resultados.


Nos EUA, a tentativa da dupla Xuxa e Marlene Matos de introduzir programas infantis com o ‘molho’ brasileiro foi um completo fracasso. Associações de pais, mestres e críticos se uniram para impedir os programas infantis da dupla brasileira. Na terra de bons programas infantis como o Vila Sésamo produzido pela rede pública PBS, essa foi uma sábia decisão Aqui entre nós, não existe nada pior e mais perigoso do que os programas da Xuxa.


Nos novos tempos, os pequenos telespectadores passaram a serem vistos somente como consumidores e índices de audiência. Todo um trabalho de formação de público, principalmente para as artes cênicas se perdeu. Os teleteatros se transformaram em novelas e os programas infantis tratam as crianças como marionetes.


Fazer programa para crianças deixou de ser investimento no futuro e passou a ser grande negócio para as nossas emissoras.


Antes de morrer, Fabio Sabag já reconhecia esses problemas.




‘No mundo tudo muda a cada segundo. As crianças aceitam o que lhes é oferecido pela TV. Mas, não se iluda. Elas sabem o que querem, mas muitas vezes não têm opções. Além do mais existe o hábito’.


E sobre o futuro, Sabag completa:




‘A criança merece um espetáculo, melhor e muito mais bem cuidado do que o dos adultos. Hoje todos os programas, são bem produzidos, mas a maioria é feita com pessoas inadequadas e apresentadores no estilo `tati-bi-tati´. Pena que tratando as crianças como débeis mentais’.


Tudo a ver!

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Jornalista e professor da Universidade Estadual do Rio de Janeiro

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