Sexta-feira, 23 de Agosto de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1051
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CADERNO DA CIDADANIA >

O PAC de todos nós

Por Sheila Sacks em 23/02/2009 na edição 526

Embalado por uma aprovação que já atinge a notável marca de 84%, segundo pesquisa do instituto mineiro Sensus divulgada no início de fevereiro, o presidente Lula parece estar caminhando para uma impensável unanimidade, em se tratando de político brasileiro. Ancorado por um carisma pessoal que, indubitavelmente, agrada e seduz uma imensa parcela da população nacional, pela sua natural facilidade de enfocar e verbalizar, com simplicidade, pontos importantes do cotidiano e do imaginário da vida das pessoas, Lula superou-se, mais uma vez, em uma inauguração no Rio de Janeiro, ao traduzir, de forma idealista e sensível, a nobre missão dos líderes e do poder público.

Com o rosto suado e em mangas de camisa, o presidente empolgou a platéia, sob um forte sol de meio-dia, composta de operários do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento), de jovens atendidos por programas sociais e de moradores da área da favela de Manguinhos, na zona norte da cidade, ao condicionar a diretriz e a prioridade do trabalho da administração pública para os mais carentes e necessitados.

No mesmo dia da publicação dos índices que atestavam a sua popularidade (3/02) e acompanhado pelo governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral, e pelo prefeito carioca, Eduardo Paes, Lula foi categórico: ‘A única razão para ser prefeito, governador ou presidente é governar para os mais pobres.’ A frase simples e, em certo sentido, óbvia, reverberou pelas redações de jornais e foi devidamente registrada pelas editorias nos títulos e leads de dezenas de matérias publicadas no day after do acontecimento.

Os ricos e o Estado

Ainda que não primasse pelo ineditismo, a mensagem esbanjou um vibrante entusiasmo, soando simultaneamente trivial e surpreendente, face às experiências negativas correntes e recorrentes no uso do dinheiro público. Dado o pano de fundo do evento – um antigo prédio de suprimentos do exército transformado em um garboso colégio público de ensino médio com capacidade para atender 1.500 alunos e grupos de adultos para alfabetização –, as palavras do presidente singularmente transcenderam o evidente aspecto social da obra, alcançando uma dimensão algo filosófica e muito bem-vinda. Como já havia percebido o austríaco Ludwig Wittgenstein (1889-1951), um dos mais instigantes filósofos do século 20, os aspectos das coisas que mais nos sensibilizam, ou que julgamos importantes, quase sempre ficam escondidos devido à sua simplicidade e familiaridade. Daí que enfocar o comum e o notório em um linguajar popular em praça pública pode ter lá as suas conseqüências.

Primeira obra do PAC na comunidade de Manguinhos (40 mil moradores), a nova escola também provocou suspiros de prazer nos convidados e visitantes surpreendidos com o inesperado clima de montanha disseminado pelos potentes aparelhos de ar condicionado instalados nas salas de aula e laboratórios, um equipamento pouco usual em se tratando de colégio público. Chamando a atenção para o fato, Lula prosseguiu em seu discurso, defendendo esse tipo de investimento (uma escola ‘de primeiro mundo’) como importante instrumento de combate à criminalidade nas comunidades carentes, recomendando ainda às autoridades presentes a intensificarem o foco e as ações nesse segmento da população, visto que, na sua avaliação, os ricos precisam pouco do Estado.

‘Precoce ânsia político-eleitoral’

Observa-se que o conteúdo das frases presidenciais exaladas no ardor do acontecimento incorpora uma espécie de racionalidade ética das mais elogiáveis e uma intencionalidade meritória que tenderia a conduzir à apreciação positiva de todos. Entretanto, aos analistas políticos, colunistas e editorialistas curtidos no impiedoso contexto da mídia do século 21 – reflexo pragmático de um mundo confuso, desconfiado e irascível –, essas mensagens foram absorvidas de forma reversa, compondo-se em ilusórios jogos de palavras vãs e de ardilosas encenações lingüísticas.

Jornalistas conceituados e brilhantes em suas argumentações, como Merval Pereira e Miriam Leitão (O Globo), Dora Kramer (Estado de S. Paulo) e Villas-Bôas Corrêa (Jornal do Brasil), imediatamente analisaram com dureza o aparato daquele evento e de outros semelhantes ligados ao PAC, comparando as afirmações do presidente, sua confiança, otimismo e o conjunto de suas ações, a um espetáculo encenado com vistas às eleições de 2010 e, portando, eleitoreiro e desprovido de um valor genuíno.

Para Merval Pereira, ‘ao lado da retórica de palanque de Lula, há também os projetos de palanque que, se criam a falsa impressão de que muita coisa está sendo feita, podem acabar se revelando ineficientes para ajudar a sair da crise’ (‘Política de risco’, em 5/2/2009). Já Miriam Leitão considerou que ‘o PAC não tem o tamanho que dizem, a maior parte do número é fumaça. E, no que tem de verdadeiro, ele é, em muitos casos, uma ameaça, por ser planejado e executado com uma visão retrógrada’. (‘Os Ilusionistas’, em 5/2/2009). No artigo ‘Lula desconfia do esquema que armou’ (7.2.2009), Villas-Bôas destaca a imagem de Lula na TV ‘transpirando por todos os poros, a camisa amarfanhada e com manchas de suor, cabelos desgrenhados e os exageros de indignação e da eloqüência, na safra de improvisos que assinala a retomada da campanha na hora certa ou precipitada, como a inauguração da primeira obra do PAC em Manguinhos, no Rio’, passando a impressão de insegurança ‘de quem nunca erra e sabe tudo’. E, por último, no editorial de O Globo intitulado ‘Mau Uso’ (12/2/2009), critica-se ‘a precoce ânsia político-eleitoral do governo’ e ‘o agressivo plano de marketing’ em prol da ‘candidata oficial’. ‘Nesse vale-tudo’, alerta o jornal, ‘turbinam-se estatísticas do PAC, montam-se palanques em inaugurações – algumas risíveis…’

O fetiche da palavra

Embora na comunicação se pressuponha que as palavras possam ser compreendidas por todos da mesma maneira, estão aí exemplos que demonstram que o seu significado é variável e se refere menos aos objetos que representam e mais ao uso que se faz delas, como já deduzia Wittgenstein na obra Investigações Filosóficas (1953). Em face disso, o filósofo britânico George Edward Moore (1873-1958), mestre e amigo de Wittgenstein, tinha a preocupação de escrever longas introduções em vários de seus artigos, para deixar claro em que sentido não queria que fossem entendidos os principais termos usados e as principais teses defendidas em seus textos.

No caso das frases entusiastas de Lula em relação às obras do PAC, preexiste uma vivência de ações, fatos e emoções positivas experimentadas e presenciadas pelo presidente que favorecem a sua empolgação verbal. Como assinala o aforismo de Wittgenstein ‘as fronteiras da minha linguagem são as fronteiras do meu universo’. E esse universo, tratando-se do Rio de Janeiro, representa, entre outras ações, a implantação de um sistema de teleférico com 4 quilômetros de extensão, no Complexo do Alemão – um conjunto de sete favelas na zona norte – que vai mudar a vida de 95 mil pessoas. Muitas delas, idosas, doentes e deficientes, incapacitadas de chegar até o asfalto para receber atendimento médico necessário.

No morro Dona Marta, na zona sul, o chamado plano inclinado, o bondinho percorrendo cinco estações – desde o alto da comunidade até as ruas do bairro de Botafogo – já é uma realidade para os seus moradores. Uma obra que propiciou à menina Indiana, de 13 anos, portadora da síndrome de West (forma grave de epilepsia em crianças), a retomada do indispensável tratamento médico interrompido devido às difíceis condições de acesso existentes no local.

Vale, pois, o presidente comemorar com o fetiche da palavra essa e outras histórias de dificuldades (que a pobreza é pródiga em gerar) superadas pela intervenção de um poder público afinado com a realidade das grandes questões sociais. À revelia e sob a visão interpretativa de renomados cardeais da mídia.

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Jornalista, Rio de Janeiro, RJ

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