Sábado, 19 de Outubro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1059
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CADERNO DA CIDADANIA >

O papel informativo e a natureza empresarial

Por Sandrine Lage em 06/10/2009 na edição 558

Integram um centro de informação, em vez de uma redacção. Privilegiam a cobertura de ‘tópicos’, em detrimento de furos jornalísticos. Face a ‘uma nova ruga numa história antiga’, um diário americano opta por não despedir repórteres, mas sim, por integrá-los num plano de reestruturação.

O corte no pessoal do Journal News (um diário de Westchester, propriedade de Gannett), tão comum no actual contexto, não é mais notícia. Já a fórmula da equação proposta por este mídia suburbano é uma ideia de vanguarda no sector, como descreve David Carr, jornalista, num recente artigo do New York Times. Duzentos e oitenta e oito pessoas da equipa editorial e comercial receberam a notícia de que a reestruturação implicaria deixar 70 pessoas sem emprego. A solução do diário de Westchester? Sugerir à sua equipa recandidatar-se (e justificar a sua função ou outra) ou despedir-se.

Não é à toa que a maioria dos workshops de empresas de gestão de pessoas sublinham o foco nos talentos e nos melhores profissionais. Os tempos de crise obrigam a uma operação cirúrgica de custos e investimentos. Justificar o salário que se ganha, os benefícios de que se goza, ou a formação que nos valoriza, passará a ser um exercício em expansão. Assim como aprender a viver na incerteza. A mesma crise que exige aos profissionais de hoje questionarem por que merecem ser os empregados de amanhã, não é um anúncio restrito aos jornalistas, editores ou comerciais. Também é um grito de alerta a administradores e gestores.

Inovação, qualidade, confiança

Adicione-se ao aviso – no caso da mídia – a fórmula gasta da concessão do lado editorial aos grandes anunciantes (que agora mais se assemelham a uma espécie em vias de extinção). Uma prática que tanto ‘beliscou’ a credibilidade dos leitores e/ou da audiência em geral. ‘Como equilibrar a lógica comercial com os valores?’ é uma das questões que se repete num fim anunciado da ditadura dos anunciantes.

Quando todos, sem excepção, começam a ter de justificar a sua existência (no mercado) ‘num mundo a encolher’, a crise abre as portas à regeneração. Não se pode esperar resultados diferentes recorrendo à mesma fórmula (Einstein), ainda que, aparentemente, a mídia em geral acredite num happy end quando opta por permanecer de costas voltadas à inovação ou por adiar apostas em novas soluções. O síndrome de cegueira é semelhante ao que sentimos face ao petróleo. Ainda que para sair desse estado de hipnose bastasse espreitar o que de melhor se faz nessa área (veja-se o caso do jornal The Guardian). O diário britânico mantém simultaneamente a presença da imprensa com investimento que implica a ausência de recursos extra. Contudo, não abre mão de ingredientes-rei: reputação de inovação; qualidade; confiança; integridade e recursos para apostar em matérias exclusivas.

A imprensa e a democracia

A mídia, especialmente a imprensa, perdeu-se entre o seu papel informativo – que acaba por ser educacional – e a sua natureza empresarial. Mesmo se as boas notícias não são notícia… O momento constitui a oportunidade de assumir um novo protagonismo no século 21: o de força indispensável para a transformação. A posição de veículo de uma nova consciência na consolidação de uma nova sociedade pertence, antes de mais, a este sector, pelo seu poder de influência. Como bônus, pode (e deve) ainda recuperar um papel de vanguarda. A quem mais cabe praticar o exercício de desformatação e apostar na inovação e conquistar um lugar ao sol num mercado que ameaça privilegiar a abordagem de menos e melhor? O declínio do lucro é um facto comum que atravessa o mundo ocidental. Contudo, ao contrário de outros negócios ou sectores, o preço de uma possível extinção da imprensa, em particular, pode ter um preço demasiado elevado: o declínio da democracia.

Entre as consequências do encerramento de jornais na comunidade em geral, encontram-se a descida de participação eleitoral, a diminuição do número de candidatos aos vários sufrágios e o aumento de políticos reeleitos, como confirmam diversas pesquisas e conclusões de estudos, como os da Universidade de Princeton (2008).

Já os congressistas com cobertura mediática inferior registam menor disponibilidade para a comunidade e o investimento do Estado é menor em áreas cujos representantes não cativam a atenção dos jornais, conclui o estudo do Massachusetts Institute of Technology (MIT) e da Universidade de Estocolmo.

No fundo, menos informação conduz a um maior desinteresse da população sobre a vida quotidiana e a forma como é governada. De modo que o papel da imprensa na construção da democracia e na garantia da liberdade de expressão é aparentemente insubstituível. Tal como o contributo da mídia em geral como veículo de uma nova consciência e, simultaneamente, como participante activo e exemplo de referência no movimento de responsabilidade social empresarial, a caminho de uma gestão sustentável.

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Mestre em Design for Sustainability (Cranfield), escritora, comunicóloga e pesquisadora das melhores práticas editoriais e de gestão nas áreas de sustentabilidade na mídia

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