Sexta-feira, 25 de Maio de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº988
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CADERNO DA CIDADANIA > LEITURAS DO FIM DE SEMANA

O que o jornal sabe fazer

Por Alberto Dines em 16/11/2009 na edição 563

Estavam muito pesadas as edições de domingo (15/11) dos três jornalões nacionais. Com todos os cadernos e encartes, pesariam em torno de três quilos.


Mas este papelório dominical chega a afetar a vida dos leitores? Depois de folhear cerca de 600 páginas ele imagina que algo mudará em sua existência? Excluindo o serviço prestado pelos anúncios classificados, qual o efeito da montanha de informações jornalísticas na vida daqueles que as consomem?


É certo que o destaque dado à cobertura de dois desastres – o apagão que afetou 18 estados e o desabamento parcial de um viaduto na obra do Rodoanel paulistano – produz reações concretas no ânimo do leitor. Como sempre a reboque das diligências e providências oficiais e apresentado com um enfoque excessivamente político, o noticiário dos acidentes acaba por escapar da esfera imediata do cidadão.


Para chamar a atenção, são apresentados como casos singulares, sem identificar a falha sistêmica que converte tantas portentosas obras públicas em tremendos fiascos, a despeito do nível de excelência de nossa engenharia.


Vigilância regular


Porém quando a imprensa se dispõe a investigar por conta própria, sem distrair-se com política, sabe ir fundo. Caso da manchete do Globo sobre o desperdício de recursos na urbanização da favela Dona Marta, bairro de Botafogo, no Rio: com o dinheiro gasto nesta comunidade desde 1983 seria possível oferecer um imóvel de 84 mil reais a cada uma das 1.460 famílias lá residentes.


A primícia oferecida pela Folha de S.Paulo é mais trepidante, afeta os leitores de todas as classes sociais no país inteiro: as farmácias compram medicamentos genéricos com 65% de desconto, repassam ao consumidor apenas 20% e embolsam o resto. Daí a pequena diferença de preço entre um genérico e o seu equivalente de marca. O abuso é antigo e justamente por isso valoriza o trabalho dos jornalistas que souberam vencer a inércia.


Com este tipo de vigilância regular, nossa imprensa estaria se antecipando aos vexames e surpresas. E jamais se sentiria ameaçada pelo lançamento no mercado de uma nova engenhoca eletrônica.

Todos os comentários

  1. Comentou em 16/11/2009 Fábio José de Mello

    Ou seja, o que foi investido desde 1993 – portanto, durante os últimos 26 anos -, daria para construir uma casa no valor de 84 mil para cada morador. E se tivéssemos simplesmente eliminado esses moradores? A economia seria bem melhor, não? Pois bem: quanto o Brasil gasta por ano com a população indígena, com os povos da floresta e ribeirinhos? Uma fortuna! Daria para ter doado uma casa na praia para cada um deles, com direito a carro na garagem!

  2. Comentou em 16/11/2009 José Paulo Badaró

    A matéria do Globo é muito mais infame do que simplesmente aparenta. Em primeiro porque o que está por trás dela evidentemente é a eugenia, a intenção mal disfarçada de remeterem a pobreza, a violência e a “gente feia” da favela para a periferia, construindo edifícios e condomínios residenciais de alto luxo nos lugares onde, na opinião do Globo, se gastou tanto dinheiro à-toa de 1983 para cá… Em segundo, porque joga a comunidade contra as autoridades constituídas, uma vez que, depois de colocarem um doce na boca de cada morador do Dona Marta, insinuando que se indenizados fossem receberiam apartamentos de 84 mil em bairros como a Tijuca, convidam os incautos a responderem a seguinte perguntinha cretina: AS VERBAS PÚBLICAS ESTÃO SENDO BEM APLICADAS NO DONA MARTA?! É claro que todo dinheiro público merece respeito e rígida fiscalização, mas qual é o filho de Deus que, tendo a boca adoçada com a visão de um apartamento de 2 ou três dormitórios na Tijuca vai responder que a grana está sendo bem aplicada?!? — http://oglobo.globo.com/rio/mat/2009/11/14/dinheiro-investido-no-dona-marta-suficiente-para-adquirir-um-imovel-por-familia-914759823.asp – – No que diz respeito à matéria da Folha chama a atenção a expressão: ‘O ABUSO É ANTIGO’- Antigo quanto? Desde o tempo em que o Serra alega ter inventado o medicamento genérico?!

  3. Comentou em 16/11/2009 Marcio Flizikowski

    O leitor deve ficar assustado quando um dos mais antigos observador da imprensa consegue elogiar a matéria de O Globo deste fim de semana.
    A reportagem faz uma verdadeira conta de padeiro. Informando que foram investidos, de 1983 para cá, R$ 123 milhões no morro Dona Marta e que com esse dinheiro seria possível indenizar em R$ 84 mil cada um dos donos de imóveis na favela.
    A matéria, em sua visão de padeiro-jornalista, não informa que o Dona Marta tem 10 mil habitantes com aproximadamente 2,5 mil moradias (segundo dados da associação de moradores da comunidade).
    Mais que isso, no balaio dos 123 milhões estão TODOS os recursos aplicados pelo Estado como saúde e segurança (por mais precários que eles sejam). Quer dizer que se desse para o povo de lá 84 mil por imóvel (que na verdade deveria ser convertido para 49,2 mil, considerando toda a população), não precisaria mais de infra-estrutura de seguranção, saúde, educação e outras benefeitorias sociais. Bela piada. Piada pior é o elogia do observador.

  4. Comentou em 16/11/2009 Marcio Flizikowski

    O leitor deve ficar assustado quando um dos mais antigos observador da imprensa consegue elogiar a matéria de O Globo deste fim de semana.
    A reportagem faz uma verdadeira conta de padeiro. Informando que foram investidos, de 1983 para cá, R$ 123 milhões no morro Dona Marta e que com esse dinheiro seria possível indenizar em R$ 84 mil cada um dos donos de imóveis na favela.
    A matéria, em sua visão de padeiro-jornalista, não informa que o Dona Marta tem 10 mil habitantes com aproximadamente 2,5 mil moradias (segundo dados da associação de moradores da comunidade).
    Mais que isso, no balaio dos 123 milhões estão TODOS os recursos aplicados pelo Estado como saúde e segurança (por mais precários que eles sejam). Quer dizer que se desse para o povo de lá 84 mil por imóvel (que na verdade deveria ser convertido para 49,2 mil, considerando toda a população), não precisaria mais de infra-estrutura de seguranção, saúde, educação e outras benefeitorias sociais. Bela piada. Piada pior é o elogia do observador.

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