Segunda-feira, 22 de Abril de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1033
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CADERNO DA CIDADANIA >

O que uma assessoria de imprensa esconde

Por Larissa Grau em 12/06/2007 na edição 437

Ao jornalista cabe saber ler o material advindo de qualquer assessoria de imprensa, seja ela governamental, institucional ou de setores privados. À assessoria, por sua vez, cabe dar a sua versão dos fatos, quase sempre positiva, dos feitos do órgão ou empresa para a qual trabalha. Sendo assim, não é sem crises éticas e identitárias que o assessor produz um texto explicativo onde defende, por exemplo, uma demissão em massa de uma determinada companhia e coloca no papel os benefícios futuros para a saúde financeira de seus empregadores. O jornalista teria, então, que ir além do release distribuído para a imprensa e esclarecer o público sobre as conseqüências sociais desse ato, o número de famílias desempregadas, a posição dos sindicatos de trabalhadores e patronais, o perfil e o histórico de tal empresa.

Entretanto, também é instrutivo ouvir as vozes oficiais e delas retirar algumas conclusões e impressões. São fontes de informação fácil para qualquer profissional da imprensa os boletins internos de instituições e, particularmente, o que é publicado nos sítios virtuais do partidos políticos.

Há três semanas acompanho o site nacional do Partido dos Trabalhadores e a experiência tem sido fascinante. Lá é possível navegar pelas suas diversas secretarias, pelos programas assistenciais do governo – ou assistencialistas, dependendo do ponto de vista –, as últimas notícias, artigos e a história do partido que nasceu dentro do movimento sindical do ABC paulista e que congregou acadêmicos, religiosos, funcionários públicos e membros de uma esquerda revolucionária socialista que havia resolvido depor suas armas.

Mais radical

Após a série de escândalos do ‘mensalão’ que envolveu a principal tendência dentro do PT – o ex-Campo Majoritário –, os cargos nas comissões e secretarias partidárias foram distribuídos entre outras tendências, e assim, hoje, a Secretaria de Relações Internacionais cabe a Valter Pomar, da Articulação de Esquerda. Sua gestão merece atenção.

De acordo informações biográficas contidas no próprio site, Pomar é filho de Wladimir Pomar, um militante do PCdoB preso durante a ditadura militar, e neto de Pedro Felipe de Araújo Pomar, um ex-deputado federal assassinado pelo mesmo regime. Valter Pomar tem um histórico de perdas familiares, de sofrimento e superações. Uma história no mínimo irônica para quem acaba de assinar um acordo operacional com o Partido Ba´ath da Síria , que não tem primado, no curso de sua história, pelo respeito aos direitos humanos e tampouco aos valores democráticos.

O Ba´ath é um partido no qual, entre outras bandeiras, tremula a do pan-arabismo nacionalista. Está presente no Iraque (era o partido do ex-ditador Saddam Hussein), no Líbano e na Síria da dinastia Assad. Durante a Guerra Fria – na zona de influência soviética e sob os auspícios do Politburo –, no Oriente Médio ocorreu uma série de golpes de Estado e deposições de governos monárquicos dos quais restou somente a monarquia instalada ainda hoje na Jordânia. Iraque, Síria, Egito, e mais tarde o Irã, este com outras particularidades, depuseram seus reis e colocaram no trono líderes militares. De modo a agradar o financiador e mentor ideológico dos planos, foi inserida a categoria de socialista nesses golpes.

O Ba´ath ascendeu ao poder na Síria, na década de 1960, pelas mãos do general Jadid e pelo comandante da Força Aérea, Hafez Al-Assad. Na República de Damasco, surgiu em meio à mais extrema violência. Ali, o Ba´ath era ainda mais radical que os outros que o antecederam no poder.

Vida de perdas e de dor

O partido não contava com o apoio popular e a panacéia para este malefício foi a estratégia utilizada por quase todos as ditaduras: a configuração de um inimigo comum, no caso Israel, que se tornou o único fator de unificação do fragmentado mundo árabe. A Síria era protegida por uma inquebrantável aliança com a União Soviética, que havia investido maciçamente no Oriente Médio – na época, cerca de 2 bilhões de dólares, somente em ajuda militar.

Assad – o pai – removeu Jadid do poder e foi presidente da Síria de 1971 até sua morte, em 2000. Foi ‘eleito’ cinco vezes consecutivas em um sistema de lista fechada e de partido único. Reza a lenda – ou a história – que em uma das ‘disputas’ faturou a eleição com 104% dos votos. No pleito de 1998, somente 219 pessoas ousaram votar contra ele. Morto, foi sucedido por seu filho, Bashar Al-Assad, alçado à Presidência sob a legitimação de um referendo em julho de 2000. E novamente, por meio de um outro referendo, Assad foi reconfirmado, em maio deste ano, para o exercício de mais sete anos no poder. A votação foi boicotada por qualquer oposição.

Bashar Al-Assad é conhecido por seus opositores por entabular uma perseguição sanguinária a quem não corresponde aos seus desígnios e vontades. Muitos de seus opositores estão encarcerados, ou foram mortos, ou exilados.

É possível acompanhar a situação política na Síria por meio de alguns blogs de dissidentes do regime que não foram silenciados. É o caso do de Amarji Abdulhamid, famoso intelectual sírio, filho de uma família de artistas, exilado nos Estados Unidos e um daqueles 219 que votaram em 98 contra Assad, o pai. É ele que conta a história daquela eleição.

‘Os agentes de segurança distribuíam um papel com círculos que diziam ‘sim’ e ‘não’. Eu votei ‘não’ e a pessoa que estava à minha frente (o agente eleitoral) ficou chocada. E disse: ‘Olha, você errou. Você disse não ao presidente’. Ela pensou que eu tinha errado.’

Abdulhamid sonha com um governo democrático e com seu retorno à Síria juntamente com sua esposa, também síria, e seus dois filhos. Sua vida é uma vida de perdas, dor e sofrimento, como foi a de Valter Pomar, ambos vitimados por governos autoritários e antidemocráticos.

Hitler era ‘socialista’

O acordo firmado entre o PT e o Ba´ath dispõe que ‘partindo da vontade comum do Partido Ba´ath Árabe Socialista e do Partido dos Trabalhadores de constituir relações de cooperação metódica entre ambas as instituições, com o objetivo de estreitar os laços de amizade entre os povos amigos da República Árabe da Síria e da República Federativa do Brasil, e de melhor servir aos interesses comuns dos dois países e povos’.

Talvez a razão do acordo seja o termo socialista na alcunha do partido sírio, que pode ter causado alguma confusão do lado de cá. Talvez seja por essa a mesma razão que o PT tenha apoiado textualmente o fechamento da emissora RCTV na socialista Venezuela. Ou, preocupante, talvez seja porque concorde com o modus operandi da política de Bashar Assad, acusado de ser o mentor do assassinato de Rafik Hariri no Líbano. Prefiro acreditar que é somente pelo socialismo no nome e não pelos seus desmandos, já que Pomar já sentiu na pele os efeitos de um governo de tal estirpe.

Ele deveria ter mais cuidado. Na Alemanha, o partido de Adolf Hitler se chamava Partido Nacional Socialista. Hitler foi um legítimo representante das classes populares alemãs que apregoava, como o Ba´ath, a defesa da soberania nacional e lutava contra as oligarquias, no caso, dos judeus, estereotipados como ricos, manipuladores e donos do capital financeiro. Fico pensando que, se o PT existisse naquela época, é bem provável que apoiasse os feitos do ditador, já que também ele era um ‘socialista’.

Quanto a identificar o que está por trás das afirmações da assessoria de imprensa, confesso que mesmo lendo no site todos os objetivos do acordo assinado entre os dois partidos, para mim permanece um mistério o que a legenda pretende aprender com essa troca, no mínimo estranha, de experiências.

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Estudante de jornalismo da Universidade Fumec, Belo Horizonte, MG

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