Terça-feira, 23 de Outubro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1009
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CADERNO DA CIDADANIA >

O rádio cearense já morreu? (II)

Por Francisco Djacyr Silva de Souza em 23/12/2008 na edição 517

Na edição anterior deste Observatório escrevemos sobre a fase terminal pela qual passa nosso rádio e elencamos uma série de motivações para que isto aconteça (ver aqui). Em momento algum queremos que isso aconteça, pois a morte do rádio sempre foi preconizada com o advento de novas mídias; no entanto, ele continua firme no seu processo de informação, entretenimento e oportunidade do público de questionar o poder e falar o que pensa das atitudes dos que os representam na vida política e econômica do país. No entanto, à guisa de informação, é preciso que se diga o que acontece com o nosso rádio cearense, que acho que padece do mesmo mal do rádio de outros estados em que o domínio político e religioso acaba com o verdadeiro papel deste meio de comunicação.

O que escrevemos não foi uma mera exposição de idéias soltas e sem nexo ou uma tentativa de atrair atenção para um fato que já é notório e claro no rádio cearense, pois somando os vários problemas, vemos que há problemas graves que conduzirão ao fim deste meio de comunicação, principalmente o tipo AM, que tem expostos várias anomalias em meio a sua programação. Vamos a elas? Há programas de rádio em que o locutor lê literalmente o conteúdo do jornal e, muitas vezes, atropela o português no que se refere à pontuação ou mesmo à pronúncia das palavras do jornal. Isto é rádio-jornalismo? Onde está este departamento nas emissoras? Por que não investir no comentário sadio e imparcial das notícias? Por que não ler antes o que se vai noticiar para emitir opiniões ou trazer o ouvinte para discussão? Isso é fator comum no rádio cearense, que não tem produção de programas ou planejamento prévio – o improviso do rádio é uma virtude, porém não deve ser a tônica de sempre.

Situação triste

No caso das emissoras afiliadas, temos redução de programas que perdem a metade do seu tempo para se ajustar ao conteúdo pausterizado das emissoras nacionais, que não se importam em relação ao tipo de informação que o ouvinte vai ter, seja ele do Ceará, do Espírito Santo, do Amazonas ou de qualquer lugar do país. A informação pasteurizada neutraliza o conhecimento da terra e o desejo do cidadão cearense em conhecer sua cultura, seus costumes, seus acontecimentos… É possível fazer um rádio genuíno da terra, basta investir na reportagem itinerante e na informação que vem de quem ouve rádio, que sabe dos problemas de sua comunidade e quer saber o que se passa em sua cidade.

Por outro lado, o arrendamento nos conduz a ouvir o que o aquele que arrendou o horário quer dizer, pois ao proprietário da rádio ou seus prepostos só interessa o pagamento do arrendamento, pouco importando a mensagem e as agressões que muitas vezes saem dos programas com horário arrendado. Já ouvimos locutores destes horários dizerem ‘O programa é meu e aqui eu falo o que eu quiser’. Isso é rádio? Já ouvimos mensagens preconceituosas, agressões gratuitas a autoridades, que mesmo que discordemos de suas posições políticas, são autoridades… Já ouvimos radialistas chamarem auditores de tribunais de justiça de ‘cara de pau’… Isso é rádio?

Qual a segurança que um radialista tem hoje em sua profissão? Como garantir seu futuro com a profissão? O que o rádio proporciona de bom ao radialista? Certamente se um radialista só depender desta profissão, amargará dias de dor ao ter de se aposentar ou sair do rádio, pois não há nenhuma segurança para estes profissionais e vários são os casos de radialistas essencialmente radialistas que tiveram de amargar uma situação triste no momento em que tiveram de sair do rádio.

Fiscalização e posição firme

E ao ouvinte o que resta? Se entregar ao fim do rádio ou lutar pela sua mudança, pela sua melhoria ou por um processo de democratização deste meio de comunicação que se ressente de um processo de organização de seus usuários, o que já é comum em países desenvolvidos. O rádio precisa de ouvintes e os ouvintes precisam ser ouvidos para dizerem o que acham das programações e o que querem do rádio com características verdadeiras e cidadãs. O rádio, no estado em que está, tem de buscar um compromisso sério de aliança com os ouvintes, abrindo suas programações para a opinião do ouvinte e o conhecimento das características deste meio de comunicação, tanto no que se refere aos aspectos técnicos quanto ao nível de transformações que vêm ocorrendo.

É preciso que se faça uma investigação sobre o funcionamento do rádio, conhecendo sua viabilidade econômica, seu papel no cotidiano das pessoas, sua importância perante os governantes e seu papel informativo e no fortalecimento da democracia. Não podemos aceitar que o rádio se transforme em moeda de troca de interesses, sejam eles políticos ou econômicos. É urgente que os poderes constituídos (Judiciário, Legislativo e Executivo) se interessem pelo rádio e ajam dentro de suas competências para regular este meio de comunicação e proporcionar aos ouvintes informação verdadeira, crítica e aliada dos ideais verdadeiros dos direitos humanos e das conquistas de cidadania.

É preciso banir do rádio interesses políticos, religiosos ou econômicos, pois o rádio é uma concessão pública e se é pública pertence ao povo, não a grupos que enriquecem com seu uso e com a falta de fiscalização e posição firme de quem regulamenta as comunicações.

Só com anunciantes

Nossa voz não é única sobre este problema. Em publicação do texto no blog gentedemidia.blogspot.com houve um grande repercussão sobre o problema e todos comentários iam de encontro ao que dizíamos.

Paulo disse:

‘Concordo com o professor. O mercado radiofônico está limitadíssimo, quase inexistente. Principalmente, o AM. Quanto ao desempenho do sindicato da categoria, também concordo: vergonhoso. Basta o exemplo do que ocorreu com a rádio Dragão do Mar. Infelizmente, salvam-se duas emissoras AM em Fortaleza. Eu diria até uma e meia, já que continuo preferindo saber do engarrafamento na avenida Aguanambi ou na Dês. Moreira, ao trânsito lento, quase parado, da marginal Pinheiros ou da marginal Tietê’ (16 de dezembro de 2008 18:20).

Janio Alcantara disse:

‘Concordo com muita coisa que o articulista escreveu.

Vamos ver os estilos de rádio AM:

1. as ‘importadas’ – CBN e Globo, onde as notícias e profissionais locais são bem reduzidas;

2. As religiosas: a shalonita Dragão do Mar, a iurd Record, a Deus é Amor 1300;

3. Restam a Cidade (bem arrendada a diversos), a Ceará Rádio Clube (que também teria sido arrendada);

4. Fazendo um editorial próprio mesmo, só a Verdinha 810, que tem ‘bala’ para gastar e se manter. Discordo da linha radiofônica do Paulo Oliveira, do João Inácio Jr. e da equipe esportiva do Gomes Farias – que são grosseiros e chulos até ao microfone. Portanto, não resta quase nada.

Com toda redução fortalezense, ainda gosto da O Povo/CBN, além de ter excelentes jornalistas nacionais. A solução é os grandes profissionais se reunirem e arrendarem uma só emissora AM e sustentar uma rádio só com anunciantes.

Já na FM, o nível é ruim também’ (16 de dezembro de 2008 18:38).

Informar e formar

Anônimo disse:

‘Infelizmente, o professor Djacyr está correto em suas observações. O Sindicato dos Radialistas tem uma atuação de total inércia na defesa dos profissionais do rádio’ (16 de dezembro de 2008 18:49).

Batata disse:

‘Concordo com o professor Djacyr. O rádio AM pede socorro .Que os radiodifusores façam alguma coisa, urgentemente.O sindicato também tem sua parcela de culpa’ (17 de dezembro de 2008 06:12).

Paulo disse:

‘Radialistas se `unirem´ para a compra de uma emissora de rádio? Kakakaka! Radialista só se une em mesa de bar e, assim mesmo, para falar mal dos colegas! Kakakaka! Palavra de radialista’ (17 de dezembro de 2008 14:31).

Anônimo disse:

‘Morreu faz uns 20 anos…’ (17 de dezembro de 2008 23:40).

Jânio Alcântara disse:

‘Paulo, é uma pena que radialistas só se unam em torno de uma mesa de bar. Os bons radialistas teriam no arrendamento de uma rádio a chance de fazer a melhor rádio AM do Ceará e ganhar decentemente com os anunciantes. Claro que seria preciso alguém que gerenciasse o empreendimento. Mas você vê outra forma de se fazer uma AM de qualidade? Ou não estaríamos perdendo tempo só falando mal dos patrões empresários e do sindicato?

É preciso fazer algo. Que os bons se unam para produzir… São meus votos!’ (18 de dezembro de 2008 10:39).

Anônimo disse:

‘Faça uma enquête sobre a qualidade do rádio cearense e você verá como ele está’ (18 de dezembro de 2008 16:59).

A morte do rádio é iminente, caso não sejam tomadas medidas que o conduzam ao seu verdadeiro papel: informar e formar…

******

Vice-presidente da Associação de Ouvintes de Rádio do Ceará, Fortaleza, CE

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