Segunda-feira, 11 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº969

CADERNO DA CIDADANIA > TOLERÂNCIA RELIGIOSA

O referendo do relógio cuco

Por Muniz Sodré em 22/12/2009 na edição 569

Há uma boutade em O Terceiro Homem que se conta ter sido um improviso de Orson Welles no instante da filmagem. Referindo-se à Suíça, diz ele ao interlocutor que, em meio a traições, envenenamentos e assassinatos dos Bórgia, os italianos produziram uma Renascença. Já os suíços, após séculos de ordem e democracia, produziram o quê? ‘O relógio cuco’.

Com todo respeito… como costuma dizer a coluna de Ancelmo Goóis em O Globo. Welles, como todo criador de gênio, podia-se permitir a esses arroubos divertidos, sem suscitar a ira do alvo, que certamente terminaria atingindo o comum dos mortais.

Mas a sarcástica tirada do cineasta me vem imediatamente à cabeça depois da repercussão na imprensa do resultado do referendo suíço sobre os minaretes islâmicos, cuja construção deverá ser doravante banida de todos os cantões daquele território nacional. Minarete, como bem se sabe, é a pequena torre ao lado da mesquita, de onde o muezzin convoca os fiéis para a oração.

Crença religiosa à parte, esse chamado é esteticamente apreciável. O árabe é uma língua mística e reflexiva, com grande complexidade gramatical e notável sonoridade fonêmica. A chamada aos fiéis, que repete o versículo inicial do Corão – confirmando a unicidade de Alá e a condição profética de Maomé – é uma recitação em que se esmeram, como na prolação de um poema, os locutores. E, como num poema, a pura e simples tradução dificilmente restituiria a carga simbólica da língua original.

Estado nacional é laico

Segundo os jornais, a maioria vitoriosa no referendo foi de 52%, o que salva do ridículo 48% dos cidadãos suíços. Ridículo – há poucas outras palavras disponíveis para se definir essa decisão, lamentável até para o próprio governo federal da Suíça, conforme nota oficial distribuída à imprensa. O ponto crítico da questão se põe assim: como conviver democraticamente com a crença do Outro rejeitando a integridade de seus templos ou santuários? Em outros termos, como tolerar sem tolerância?

Apesar da tímida autocrítica governamental, o fato é que o referendo foi proposto e organizado por dispositivos de Estado, com todas as injunções de obrigatoriedade do cumprimento da decisão. E mais: foi imediatamente apoiado pelo presidente da França (onde existem seis milhões de muçulmanos), para quem os fiéis islâmicos deveriam ser ‘mais discretos’ em termos religiosos. Nicolas Sarkozy não deixou por menos a escalada do ridículo: a ‘indiscrição’ (a ser entendida como a demonstração pública da fé ou a construção de monumentos religiosos) deveria ser reservada ao catolicismo, por ser mais ‘natural e local’.

Mas se o evento se afigura de imediato como ridículo em termos de ética social imediata – essa em que pontificam os costumes e as injunções coletivas de se respeitar a sua diversidade –, não escapa ao olhar mais cauteloso o risco político de uma nova variedade das ideologias nacionais em ascensão nos países ditos de Primeiro Mundo.

Como já observaram analistas de diversas linhagens teóricas, toda ideologia nacional vive da entronização de ideais para os quais se possam transferir os sentimentos de sacrifício, amor, temor, respeito etc. De onde se transferem? Precisamente das comunidades religiosas, que são cimentadas por afecções dessa natureza. Mas como bem se sabe, há muitíssimo tempo, os Estados nacionais vêm deixando de recorrer à universalidade teológica apregoada pelo catolicismo tradicional, reservando apenas uma reverência esporádica às autoridades ungidas por Roma. O Estado nacional é laico, proclamam aqueles que apostam numa cidadania republicana, livre da heteronomia sobrenatural.

O ovo da serpente

Na prática, porém, o universalismo da crença administrado por Roma pode assumir a forma de ‘religião de Estado’, ao modo de uma forma transitória de ideologia nacional, como um escudo contra o que se supõe serem ameaças do Outro (o imigrante, o representante de outra cultura ou de outro sistema civilizatório), agora numerosamente muito próximo, às vezes, vizinho de porta. Os véus nas cabeças das mulheres, as prostrações diárias para as orações, as mesquitas com seus minaretes, as recitações jaculatórias podem soar como fantasmas contra-hegemônicos aos cultores da etnicidade fictícia em que implica a ‘comunidade imaginada’ (expressão com que Benedict Andersen designa a nação) instituída por todo Estado nacional.

É essa ideologia canhestra e anacrônica que preside a iniciativas como o referendo suíço, a preocupações com a ‘identidade nacional’ como aquelas manifestadas por Sarkozy ou ao desejo dos grupos ultraconservadores de acrescentar a cruz católica à bandeira italiana. Curiosamente, é a mesma dos reinados petrolíferos ou das nações em aparente decomposição social, que a imprensa ocidental costuma erigir como o oposto do mundo civilizado.

Pode ser que tudo termine em pizza, mas quem leva a sério a hipótese da aparição concomitante e internacional de um novo tipo de fascismo deve botar as barbas de molho. A intolerância é apenas o ovo da serpente.

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Jornalista, escritor, professor titular da Universidade Estadual do Rio de Janeiro

Todos os comentários

  1. Comentou em 25/12/2009 Alan Ferreira

    Religião é como sexo explícito: deveria ser praticada dentro de quatro paredes. Impor sinos e berros de mulás a todos os moradores da cidade é um abuso que qualquer Estado laico que se preze deve proibir. Ainda mais quando a intromissão sobre a vida civil vem desse abominável Culto à Morte imposto pelo demônio de Abraão, este patético boneco de barro criado à imagem e semelhança do homem mesquinho. Religião é apenas uma outra palavra para egoísmo; um surto psicótico cujo objetivo final é imolar toda a Raça Humana em um altar, em honra a deuses sedentos de sangue. Este mundo só começa a melhorar no dia em que cada judeu, cristão e muçulmano fundamentalista tive o que merece: uma bala no meio da testa.

  2. Comentou em 24/12/2009 Pedro pererira pereririra

    Achar que os minaretes sao somente um anexo de onde se chamam os fieis, ainda por cima dito por um jornalista, e de uma primariedae digna de um jardim de infancia, ou de uma falcia previametne planejada para tentar justificar o texto.
    A suiça e um estado Laico camarada. e noa laico como o nosso, entao porque foi retrocesso proibir os minaretes

  3. Comentou em 24/12/2009 Pedro pererira pereririra

    Achar que os minaretes sao somente um anexo de onde se chamam os fieis, ainda por cima dito por um jornalista, e de uma primariedae digna de um jardim de infancia, ou de uma falcia previametne planejada para tentar justificar o texto.
    A suiça e um estado Laico camarada. e noa laico como o nosso, entao porque foi retrocesso proibir os minaretes

  4. Comentou em 23/12/2009 Jaime Collier Coeli

    Pois é, caro Muniz Sodré. A tolerancia não é intolerante? Se a matematica está, nos ultimos tempos, baseada em convenções, fica dificil estabelecer se um sistema é correto, ou seja, o conceito de verdade vai direto para o brejo, Um sistema, ou outro, fundamenta sua ‘correção’ em outras considerações, exteriores ao sistema e, portanto, dependem da tolerância, Esse principio, conhecido como de Carnap, é racionalmente válido. Mas como aplica-lo ao que não é racional? As três religiões monoteistas de fato podem ser reduzidas a uma só, e seu fundamento implica na intolerancia em relação aos que não admitem uma verdade geral e unica. A disputa pela ‘tolerancia’ entre as religiões monoteistas quer apenas dizer reserva de mercado para o monoteismo e a disputa de ‘tolerancia’ entre elas merece a duvida se não representa apenas delimitar o campo em que as questões filosoficas podem ser discutidas.

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