Segunda-feira, 20 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

CADERNO DA CIDADANIA > PERIGO NO TRÂNSITO

O risco mortal de quem vê Alexandre Garcia na TV

Por Jorge Schelb em 16/03/2011 na edição 633

A Globo, maior rede de TV do país, tem o dever, como qualquer outra emissora, de zelar pela vida e pela paz no trânsito. Um dos principais arautos deste saudável princípio na imprensa brasileira é o jornalista Alexandre Garcia, estrela do Jornal Nacional e do Bom Dia, Brasil e âncora do principal noticioso da rede em Brasília, o DF-TV. Quando se pesquisa no Google as palavras ‘Alexandre Garcia’ + ‘trânsito’, surgem 224 mil resultados, prova matemática de sua persistente e elogiável militância na luta contra a violência que fere e mata em nossas ruas, avenidas e estradas.


Mas, semanas atrás, Garcia exagerou na dose – e cometeu um grave erro de julgamento que, em vez de evitar, pode fazer mais vítimas no trânsito. Naquele dia, no DF-TV, jornal que antecede o noticioso do horário do almoço na rede, o Hoje, estava na telinha o irredutível Alexandre Garcia esbravejando, mais uma vez, sobre o caos do trânsito e a inata inapetência e mau-caratismo do motorista brasiliense. Brasília, como se sabe, é um raro caso de cidade brasileira onde funciona a faixa de pedestre: como nos centros mais civilizados da Europa, basta erguer a mão para que os veículos, respeitosamente, parem e aguardem a travessia do pedestre.


Submissão do homem à máquina


Garcia, num acesso radical, dispensava na tela da TV o aceno dos pedestres. O defensor dos fracos no trânsito condenava na TV o gestual que é feito para sinalizar uma iminente travessia na faixa de pedestre, alegando que o sinal seria uma indesculpável prova da submissão do homem à maquina. A mão levantada, na intrigante visão de Garcia, seria uma quase genuflexão do pobre pedestre ao maldoso condutor.


Em seu comentário, Garcia induzia as pessoas andantes a não mais serem subservientes ao carro e seus bandidos ao volante, dispensados sequer de erguer o braço na calçada. No refinado raciocínio do jornalista, já é tempo que a máquina, maldita seja, se submeta ao ser humano, mesmo sendo ele um distraído citadino que passa a apostar sua própria vida contra a regra do trânsito sem hierarquia.


Esquece Garcia, esse paladino do trânsito civilizado, que as relações nas ruas são um diálogo entre partes: o motorista, o veículo e o pedestre. O gestual estimulado em Brasília e corretamente chamado de ‘dê sinal de vida’ faz parte da linguagem deste harmônico convívio na capital brasileira. Afinal, entre a frase e o ato de se atravessar a rua, intercorrências podem ocorrer por diversos motivos: o freio do carro pode falhar, o condutor pode ser acometido de uma síncope, o mero descumpridor de lei pode repetir sua transgressão habitual… E aí, senhor jornalista?


Eu, como todo mundo, em alguns momentos do dia também sou pedestre, mas não aposto nunca minha vida e minha integridade física. Tampouco me considero submisso no resguardo de minha vida, apelando à prudência de acenar antes de atravessar a rua na faixa.


Na manhã de segunda-feira [14/3], num balão da superquadra 411 Sul, dois jovens pedestres, sem sinalizar a travessia na faixa, invadiram abruptamente a rua sem a menor atenção ao que faziam. Eu dirigia a cerca de 30 quilômetros por hora (o limite sinalizado no local é de 40 km/h) e quase não consegui frear a tempo. O veículo que vinha atrás por pouco não arrebentou o meu. Eu saí do carro, muito irado com aquela quase tragédia estimulada (como sempre) pela imprudência, e perguntei aos jovens se eles não tinham amor à própria vida. A resposta cínica da dupla:


— Ué, você não viu o Alexandre Garcia na Globo?

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Servidor público

Todos os comentários

  1. Comentou em 21/03/2011 Bemildo A. Ferreira F.

    Dois comentários e dois usos da palavra ‘junto’ totalmente dispensáveis quando não equivocados nos ditames da Língua Portuguesa. Não fosse isso, não se usaria a crase, não é mesmo? Bom, o fato é que se espalhou tanto, principalmente em documentos oficiais, e já vem de tão longa data que melhor seria dicionarizá-la com esse significado largamente empregado. Os jornais não escapam, mas a agravante é que nesses veículos de comunicação a Língua Portuguesa é ferramenta de trabalho. Não faria mal se o Estadão trouxesse de volta as ‘Questões Vernáculas’ e outros veículos tivessem uma forma de apontarmos e encaminharmos seus deslizes, chamemos assim, visando a qualidade na prestação desse serviço público. Ora, as pequenas coisas equivocadas ou populares que substituem as corretas vão passando fluidamente e ninguém imagina que se transformará em uma grande coisa lá na frente. Talvez por isso ainda tenhamos a sigla MEC como designativo ultrapassado e provinciano para Ministério da Educação. É a questão do receio do transeunte em fazer valer seu direito favorecendo aquele que está motorizado. Vê-se isso em entradas de garagem de prédio onde o motorista aproxima seu veículo para perto do portão e o transeunte a pé o circunda pela rua. Ou o caso das faixas de pedestres apresentado, cuja indignação maior é de um formador de opinião que impõe mais a sua vontade do que a coletiva e segura.

  2. Comentou em 21/03/2011 ronald mattos

    Em recife só existe um local onde a faixa é respeitada, fica entre um shopping e um hipermercado na zona norte, não me perguntem pq. Como em qualquer relação, também no trânsito, sinais e gestos fazem parte da comunicação, e ainda, nesta relação entre pernas carne/osso e pára-choque aço/velocidade/ignorância, vale a máxima… “MANDE QUEM PODE, OBEDECE QUEM TEM JUÍZO”…Ou alguém aí vai querer pagar para ver?!

  3. Comentou em 21/03/2011 Marcio Rocha

    Não sei no que o senhor abaixo se baseia para afirmar que o ciclista acredita ser uma entidade a parte. Hoje, nas grandes cidades, o ciclista é o que está em maior desvantagem no trânsito. Embora o Código de Trânsito contemple sua existência e delimite sua circulação, só quem está sobre uma bicicleta sabe que ou você é escurraçado da pista ao tentar utilizar o seu espaço na faixa da direita, ou é visto como uma ameaçã ao utilizar a calçada, que realmente nao é seu espaço. Ou seja, é SEMPRE mal visto. Ou está ‘invadindo’ a psita ou a calçada. Sendo a segunda, de acordo com a lei obviamente uma invasão. A primeira, compartilhar as pistas com os carros é estar constantemente sob o risco de encontrar um imbecil de quatro rodas, que são muitos! Mas, vamos combinar, alguém exposto num veículo não-motorizado é realmente uma ameaça aos motoristas, pobre coitados.

  4. Comentou em 21/03/2011 Newton de Salles

    Acreditar na necessidade de se fazer um sinal a mais, além do que a própria faixa de pedestres já indica, é declarar a aceitação de que a cidade pertence aos veículos e seus senhores, incluídos aí ciclistas que se vêm como entidades à parte. O desrespeito à faixa de pedestre é o mesmo que existe contra a ética e ao respeito mútuo que se supõe dever existir ao menos em qualquer sociedade urbanizada. É clara a desvantagem do pedestre em relação ao motorista. Este último tem o dever de estar atento apenas à ação de dirigir, que implica em aumentar ainda mais sua atenção em cruzamentos e faixas de pedestres.

  5. Comentou em 15/12/2004 Aline Aparecida Pasin

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