Domingo, 09 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1016
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CADERNO DA CIDADANIA >

O risco mortal de quem vê Alexandre Garcia na TV

Por Jorge Schelb em 16/03/2011 na edição 633

A Globo, maior rede de TV do país, tem o dever, como qualquer outra emissora, de zelar pela vida e pela paz no trânsito. Um dos principais arautos deste saudável princípio na imprensa brasileira é o jornalista Alexandre Garcia, estrela do Jornal Nacional e do Bom Dia, Brasil e âncora do principal noticioso da rede em Brasília, o DF-TV. Quando se pesquisa no Google as palavras ‘Alexandre Garcia’ + ‘trânsito’, surgem 224 mil resultados, prova matemática de sua persistente e elogiável militância na luta contra a violência que fere e mata em nossas ruas, avenidas e estradas.


Mas, semanas atrás, Garcia exagerou na dose – e cometeu um grave erro de julgamento que, em vez de evitar, pode fazer mais vítimas no trânsito. Naquele dia, no DF-TV, jornal que antecede o noticioso do horário do almoço na rede, o Hoje, estava na telinha o irredutível Alexandre Garcia esbravejando, mais uma vez, sobre o caos do trânsito e a inata inapetência e mau-caratismo do motorista brasiliense. Brasília, como se sabe, é um raro caso de cidade brasileira onde funciona a faixa de pedestre: como nos centros mais civilizados da Europa, basta erguer a mão para que os veículos, respeitosamente, parem e aguardem a travessia do pedestre.


Submissão do homem à máquina


Garcia, num acesso radical, dispensava na tela da TV o aceno dos pedestres. O defensor dos fracos no trânsito condenava na TV o gestual que é feito para sinalizar uma iminente travessia na faixa de pedestre, alegando que o sinal seria uma indesculpável prova da submissão do homem à maquina. A mão levantada, na intrigante visão de Garcia, seria uma quase genuflexão do pobre pedestre ao maldoso condutor.


Em seu comentário, Garcia induzia as pessoas andantes a não mais serem subservientes ao carro e seus bandidos ao volante, dispensados sequer de erguer o braço na calçada. No refinado raciocínio do jornalista, já é tempo que a máquina, maldita seja, se submeta ao ser humano, mesmo sendo ele um distraído citadino que passa a apostar sua própria vida contra a regra do trânsito sem hierarquia.


Esquece Garcia, esse paladino do trânsito civilizado, que as relações nas ruas são um diálogo entre partes: o motorista, o veículo e o pedestre. O gestual estimulado em Brasília e corretamente chamado de ‘dê sinal de vida’ faz parte da linguagem deste harmônico convívio na capital brasileira. Afinal, entre a frase e o ato de se atravessar a rua, intercorrências podem ocorrer por diversos motivos: o freio do carro pode falhar, o condutor pode ser acometido de uma síncope, o mero descumpridor de lei pode repetir sua transgressão habitual… E aí, senhor jornalista?


Eu, como todo mundo, em alguns momentos do dia também sou pedestre, mas não aposto nunca minha vida e minha integridade física. Tampouco me considero submisso no resguardo de minha vida, apelando à prudência de acenar antes de atravessar a rua na faixa.


Na manhã de segunda-feira [14/3], num balão da superquadra 411 Sul, dois jovens pedestres, sem sinalizar a travessia na faixa, invadiram abruptamente a rua sem a menor atenção ao que faziam. Eu dirigia a cerca de 30 quilômetros por hora (o limite sinalizado no local é de 40 km/h) e quase não consegui frear a tempo. O veículo que vinha atrás por pouco não arrebentou o meu. Eu saí do carro, muito irado com aquela quase tragédia estimulada (como sempre) pela imprudência, e perguntei aos jovens se eles não tinham amor à própria vida. A resposta cínica da dupla:


— Ué, você não viu o Alexandre Garcia na Globo?

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