Quinta-feira, 21 de Junho de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº992
Menu

CADERNO DA CIDADANIA > VEJA & POLÍCIA FEDERAL

O semanário e a PF, entre tapas e beijos

Por Leonardo Attuch em 01/11/2006 na edição 405

20 de outubro de 2004. Veja estampava na capa a foto de cinco agentes federais e o título ‘Os intocáveis’. Era uma exaltação ao trabalho conduzido pelo delegado Paulo Lacerda, diretor-geral da Polícia Federal, com direito à ‘Carta ao leitor’, escrita pelo diretor de redação, Eurípedes Alcântara. No pé, o jornalista definia a reportagem como ‘a história de um grupo de indivíduos que tenta mudar para melhor as feições de uma instituição’. E, internamente, o texto dos repórteres terminava apontando que o Brasil tem na Polícia Federal ‘um exemplo a ser seguido’. Era quase um cheque em branco, passado pela revista brasileira de maior circulação, à organização encarregada de combater o crime no país.


Passaram-se só dois anos e a relação entre esses dois importantes pólos de poder – Veja e Polícia Federal – mudou radicalmente. O que antes era amor virou ódio. E, dos beijos, chegamos aos tapas. Hoje mesmo [1/11], os jornais trazem o relato da suposta intimidação sofrida por três profissionais da revista – Júlia Dualibi, Camila Pereira e Marcelo Carneiro – que foram chamados a depor na PF. É possível que Veja, em sua próxima edição, dedique várias páginas a uma eventual escalada autoritária em marcha no país. E é também provável que a revista se coloque como vítima do arbítrio e de um ataque à liberdade de imprensa.


No entanto, é também lamentável perceber que a defesa de princípios nobres pode variar ao sabor das circunstâncias. Em setembro de 2004, quando Veja caminhava de mãos dadas com a PF, a revista tentou incitar a ação dos policiais contra um jornalista de uma editora concorrente. Era como se dissessem ‘vai lá, prende, mata e arrebenta’.


Valores e princípios


Isso ocorreu quando Lauro Jardim, titular da seção ‘Radar’, anunciou a ‘Operação Gutenberg’ da PF – aquela que pegaria ‘bagrinhos e peixes graúdos da imprensa envolvidos em venda de reportagens’. Depois, diante dos rumores sobre os alvos da operação, Jardim informou, em nova nota, que seriam os jornalistas envolvidos na cobertura do ‘caso Kroll’. Para quem não se lembra, também no fim de 2004, a PF deflagrou uma ação contra Kroll e Opportunity, na chamada ‘Operação Chacal’. E como eu fui o único profissional da mídia a contestar os métodos utilizados pela PF naquela ocasião, estava claro que o recado era para mim. Por sorte, no meio do meu caminho, havia um juiz de bom senso, que barrou as ações intentadas pela PF.


O curioso é que, dois anos depois, todos os pólos se inverteram. No início de outubro deste ano, o colunista Diogo Mainardi publicou na Veja o artigo ‘Notícias da Itália’, em que revela as investigações em curso na Procuradoria de Milão. Diz Mainardi que a Telecom Itália tinha um ‘esquema de pagamentos ilegais a autoridades brasileiras’. Ele afirma ainda que alguns pagamentos eram direcionados ‘à cúpula da Polícia Federal’. E aponta que isso teria ocorrido no contexto da disputa empresarial entre Telecom Italia e o grupo Opportunity. Será que isso teria alguma relação com a ‘Operação Gutenberg?’ Veja, naturalmente, não coloca essa questão. Até porque, para eles, Polícia Federal no olho dos outros é refresco.


Dois anos atrás, quando fui alvo de uma descabida investigação da PF, incentivada abertamente pela revista Veja, cheguei a publicar alguns artigos no Observatório da Imprensa e no Comunique-se, onde sustentei os mesmos valores e princípios que a Editora Abril hoje defende, ou seja, a liberdade de imprensa e de expressão. E disse que, ‘se hoje sou eu, amanhã serão eles’. Para o meu desgosto, a profecia se cumpriu.

******

Editor das revistas IstoÉ Dinheiro e Dinheiro Rural

Todos os comentários

  1. Comentou em 02/11/2006 Luciano Rezende

    Não entendo este pensamento de auto-endeusamento em que se colocam alguns setores da mídia. Não aceita críticas, não reconhece seus erros, ao revés, permanece em posição de ataque ao PT e ao governo do presidente Lula, tomando visível posição partidária, mas escondendo-se em mentiroso posto de isenção. Enquanto agir como braço jornalístico de partidos políticos, determinados setores da imprensa não merecem tratamento diverso que não o achincalhe, a crítica. A revista Veja e seus pseudo jornalistas não pode ser utilizada como exemplo de nada. Como podem exigir tratamento complacente das autoridades policias, se os tratam em seus editoriais e matérias com maledicências e questionamentos de caráter. De qualquer forma, a presenciar sua vigorosa ira com o governo, duvido que tenha ocorrido qualquer prática abusiva com seus ‘repórteres’ nas dependências da PF. Não por acaso, a dita revista tem perdido leitores atentos e com discernimento, em busca de outros sem visão crítica.

  2. Comentou em 01/11/2006 Maria Izabel Ladeira Silva Silva

    Prezado jornalista. Muito oportuna e espantosa sua revelação, De fato. É bem típico de uma publicação golpista e cínica como a Veja incensar a PF quando se trata de perseguir os outros, (inventando crimes que não existem). Porém, quando se trata de investigar o comportamento e as calunias da própria Veja, aí acusa-se a PF de perseguição. A PF tem suas mazelas e, as vezes. comete erros.Todavia, não é este o caso. A Policia agiu como manda a lei. Havia advogado e Ministerio Publico presentes. Onde esta o erro??? Repoter não pode ser chamado a depor???? A PF não tem o direito de fazer perguntas sobre as diatribes de Veja. Claro que tem. Só o coronelato da editora Abril não entende isso.

  3. Comentou em 01/11/2006 jorge xavier

    não é de graça que a credibilidade da imprensa brasileira anda em baixa – basta ver como a população (inclusive das classes A e B) desprezou os dois anos de notícias sobre corrupção no atual governo. A geração de jornalistas que hoje temos, salvo alguns poucos, é formada por um misto de ignorantes e/ou mal intencionados. A choradeira dos jornalistas da VEJA quanto ao tratamento que teriam recebido da PF chega a ser patética: só os muito mal informados acreditariam na estapafúrida estória contada pelos focas. Será que alguém acha possível que uma procuradora da república e o advogado dos jornalistas aceitaria tratamento degradante dispensado a testemunhas/suspeitos ? É só mais uma mentira que tentam ‘vender’.

  4. Comentou em 01/11/2006 jorge xavier

    não é de graça que a credibilidade da imprensa brasileira anda em baixa – basta ver como a população (inclusive das classes A e B) desprezou os dois anos de notícias sobre corrupção no atual governo. A geração de jornalistas que hoje temos, salvo alguns poucos, é formada por um misto de ignorantes e/ou mal intencionados. A choradeira dos jornalistas da VEJA quanto ao tratamento que teriam recebido da PF chega a ser patética: só os muito mal informados acreditariam na estapafúrida estória contada pelos focas. Será que alguém acha possível que uma procuradora da república e o advogado dos jornalistas aceitaria tratamento degradante dispensado a testemunhas/suspeitos ? É só mais uma mentira que tentam ‘vender’.

  5. Comentou em 01/11/2006 felicio rodrigues

    Como é que é? A veja é um polo do poder? A veja é apenas uma revista semanal. Só isso.
    Voces jornalistas se dão uma importância que não tem. Se isto fosse verdade (a importância) o Lula não seria reeleito. O fato mais importante destas eleições foi este: a midia não tem o poder que se atribui. Não estamos em 54, 64 e nem 89. Um pouco mais de humildade gente.
    Tu escreves na internet mas com a cabeça no papel imprensso. A mudança foi enorme. Uma hora depois do debate da Globo nós já estavamos sabendo do indeciso fajuto.

  6. Comentou em 01/11/2006 oswaldo alves

    Caro Leonardo essa é a revista Veja, da qual jurei a mim mesmo nunca mais ler, pois ela não é um meio de comunicação e sim de manipulação.Ela chegou ao ponto maximo de absurda falta de bom senso, no dia em que dedicou a capa a uma possivel conta em ilhas do Presidente Lula, mas depois de umas quatro paginas de leitura, la no finzinho da materia ela dizia…infelismente nada do que escrevemos aqui, conseguimos provar mas o fato de nao provarmos não siginifica que tenha sido verdade…Porra é a mesma coisa de eu dizer que aqui na esquina tem um monte de homenzinhos verdes vindos de Marte, mas veja bem Leonardo eu nao posso te provar, mas que eles estao aqui na esquina estao. Diga-se de passagem, eles estavam falando do Presidente da Republica e não de qualquer um.
    abraços
    Oswaldo

  7. Comentou em 01/11/2006 José Luiz de Faria

    Senhores,
    Tenho a impressão que a Revista Veja mereceu e procurou por isso, pois a mesma publicou descalabramente reportagens inveridicas e sem nenhuma preocupação com a responsabilidade de um orgão de publicidade tem que ter sobre qualquer matéria que se vai publicar contra um governo e para mim esta clara a opção que a mesma fez em termos partidarios, por isso não acredito que o tal ocorrido deva ter acontecido, pois a mesma esta sem nenhuma credibelidade.

  8. Comentou em 01/11/2006 Sandro Rosa

    Quem fala o que quer e o que bem deseja às vezes tem que dar explicação, escondido por essa tal lei de liberdade de imprensa, muitos jornalistas publicam o que querem pensando que o público é ignorante, o país esta mudando, jornalismo também tem que ter responsabilidade, se sofrer algum constrangimento, saia do local e vá direto a uma delegacia mais próxima e registre queixa, agora se aproveitar de meios de comunicação pra explorar situações pra vender mais, é bom ter cuidado, às vezes o feitiço vira contra o feiticeiro, ninguém está acima da lei, nem os ‘maus’ jornalistas.

x

Indique a um amigo

Este é um espaço para você indicar conteúdo do site aos seus amigos.

O Campos com * são obrigatórios.

Seus dados

Dados do amigo (1)

Dados do amigo (2)

Mensagem