Quinta-feira, 14 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

CADERNO DA CIDADANIA > VEJINHA IMITA VEJONA

O terremoto artificial sobre
as mudanças na Cultura FM

Por Alberto Dines em 10/07/2007 na edição 441

Era inevitável: o espírito da Guerra Fria da Veja um dia baixaria na caçula, Veja São Paulo. Baixou na edição desta semana (data de capa de 11/07, páginas 28-29). O pretexto foi a ousada mudança no teor da programação da rádio Cultura FM (da Fundação Padre Anchieta) que a partir do dia 2 de julho passou a transmitir apenas música erudita.


O debate seria instigante, rico, se a tropa de choque reacionária que ronda as esferas do poder estadual não aproveitasse para sair em defesa de um de seus aliados, o jornalista-produtor Salomão Schvartzman, cujo programa Diário da Manhã foi cortado da grade por não se enquadrar dentro da nova orientação.


E no lugar de uma discussão sobre o que é efetivamente ‘música erudita’ (como se esperaria de uma revista concebida para ser a New Yorker paulistana), fabricou-se uma baixaria política para comprometer o início da gestão do jornalista Paulo Markun como presidente da Fundação Padre Anchieta.


Acusação de Schvartzman & Cia.: seu programa teria sido cortado pela patrulha ideológica dos ‘russos’ (isto é, os egressos do PCB). Além de atribuir a si mesmo uma importância política que jamais teve, Salomão Schvartzman tenta reavivar as acusações contra a infiltração comunista na Fundação Padre Anchieta que antecederam a morte de Vladimir Herzog.


Escapou ao baixo-clero da direita paulistana o fato que um programa denominado Diário da Manhã, de viés nitidamente jornalístico e apenas amenizado por inserções musicais, confronta claramente a diretriz musical – certa ou errada, porém determinada pelos estatutos da Fundação.


Convém registrar que a versão radiofônica diária deste Observatório da Imprensa foi transferida pelas mesmas razões para a freqüência AM da rádio Cultura e ninguém saiu por aí alegando perseguição política.


Conflito de interesses


É possível que o Diário da Manhã fosse o líder de audiência e dono do maior faturamento da Cultura-FM e isto só valoriza a ousada opção de um grupo de comunicação que não dispõe dos recursos financeiros da mídia comercial.


Na alentada matéria da Vejinha sobre o ‘terremoto’ na Cultura FM está dito que Schvartzman, recebia o salário de R$ 14 mil acrescidos de ‘50% do faturamento bruto do seu programa calculado em cerca de R$ 100 mil’ (R$ 14 mil + R$ 50 mil = R$ 64 mil ao mês). Ele merece, certamente.


Ora, jornalista deve receber salários (ou algo equivalente quando se trata de Pessoa Jurídica). Percentual sobre faturamento é remuneração típica de publicitários e profissionais da área comercial. Jornalista-corretor é aberração, configura conflito de interesses.


Da New Yorker paulistana (em cuja direção militam melômanos respeitáveis), esperava-se uma discussão séria sobre o que é exatamente ‘música erudita’. Jazz é popular ou erudito? Se os lieder de Schubert estão em todos os repertórios de música clássica por que não incluir canções francesas, americanas, italianas, africanas ou asiáticas numa rádio eminentemente erudita? Onde ficam os limites entre o violão clássico e o popular? O violoncelista Yo-Yo Ma quando toca o concerto de Elgar é clássico, mas quando executa Tom Jobim deve ser barrado? E os tangos de Daniel Barenboim? E o cabaré musical de Kurt Weil, onde é que se situa?


A Cultura FM, agora sob a batuta da radialista Gioconda Bordon, terá que rever ou relativizar seus paradigmas. Mas a Vejinha precisa guardar-se da histeria ideológica que tanto compromete a Vejona.

Todos os comentários

  1. Comentou em 12/07/2007 Wilian França Costa

    É impressionante o que vemos aqui. O que é realmente importante para que um indivíduo seja melhor informado musicalmente? O que teria de ser urgentemente revisto pelas diretores da cultura fm é esta posição. Me digam cultura musical é sinônimo de música classica?
    Será que ninguém aqui ouvia programas maravilhosos como Mapa-Mundi, Caleidoscópio e tantos outros que tornavam a programação da Cultura FM uma das melhores que eu já havia ouvido, mesmo comparando com rádios de outros países. Conheci tantos grupos, tantos sons. Sons diferentes, de outros países. Música indiana, música de tribos africanas, musica francesa, musica portuguesa. Durante estes anos de ouvinte da cultura FM fui um aprendiz. Aprendi a ouvir e perceber as diferenças musicais dos povos. Conheci coisas que de outra forma seria impossível em outras rádios. Me digam, onde posso ouvir Jazz apenas sintonizando meu rádio? Onde posso ouvir musicas como a do grupo Madredeus, que fiquei conhecendo por intermédio desta emissora?
    Será que o povo precisa somente de musica clássica? Ou precisa de um mínimo de conhecimento musical? Com certeza se tivéssemos uma maior educação musical não teríamos tantas aberrações, que não podem nem sequer ser chamado de música, tocando nas rádios mais populares brasileiras.
    Espero que alguém tenha ao menos a sensatez e realmente reflita sobre o que é cultura.

  2. Comentou em 11/07/2007 Weber Allegrini

    Algum comentário sobre a mudança de tom e clima da Rádio Cultura desde o dia 02/07? Saída do alomão Schwartzman, mudança radical do discurso no Atenção Brasil … o que aconteceu?

  3. Comentou em 11/07/2007 Ricardo Camargo

    Caso se entenda que a questão de tocar jazz ou ‘música erudita’ é uma questão de gosto, reforça-se a conclusão de que identificar no aludido programa um sintoma de ‘partidarização petista’ na emissora ligada ao Governo Tucano de São Paulo é simples paranóia, até porque, neste caso, haveria plena discricionariedade na definição da programação. Mas, reconhecida a discricionariedade – e penso que é isto que o Dines pretende dizer quando fala que a discussão relevante seria esta -, o debate acerca do conceito de ‘música erudita’ se tornaria indispensável para o fim de verificar como seria operacionalizável a decisão da direção da Rádio Cultura. Dito de outra forma: se a decisão tem ou não tem como ser levada a cabo. A exposição dos detalhes a serem tomados em consideração, em comentários anteriores a este artigo, apenas veio com o objetivo de mostrar o filão que estava sendo desperdiçado pela publicação, identificando a causa do terremoto no nascimento de um bebê. Quer dizer: qualquer que seja o ângulo que se veja a questão, identificar uma ‘partidarização petista’ ou uma ‘sovietização’ na Fundação Padre Anchieta por conta desta decisão é, pura e simplesmente, o estabelecimento de uma ligação causal em que o fato apresentado como’causa’ não tem a menor capacidade para produzir o ‘efeito’.

  4. Comentou em 10/07/2007 Ricardo Camargo

    Creio, de outra parte, importante deixar claro que a caracterização da ‘música erudita’ como ‘gênero’ seria mais para efeitos de facilitar o entendimento: existe a música ‘barroca’, a música ‘clássica’ propriamente dita, a música ‘romântica’, a música ‘parnasiana’ (cujo único representante seria Camille Saint Saens), a música ‘moderna’, com todas as suas variadas tendências (atonal, dodecafônica, eletrônica, aleatória, concreta etc.). Varia, ainda, conforme a nacionalidade, brasileira, russa, alemã, italiana. Conforme a sua inspiração, como música programática, teatral (envolvendo a música incidental, o balé e a ópera), para salões de baile ou pura, como é o caso das sonatas e sinfonias. Pode ser sacra ou profana. Todas estas nuances e muitas outras precisam ser analisadas quando se tem em mente a definição do conceito de ‘música erudita’. Mas este debate, para o fim de iniciar as discussões sobre a programação, parece ocioso quando se identifique em tudo que implique sair da programação musical industrializada um sintoma de subversão. Conta Stanislaw Ponte Preta que só faltava quererem interrogar Sófocles como autor do texto subsersivo ‘Édipo Rei’.

  5. Comentou em 10/07/2007 Ricardo Camargo

    Creio, de outra parte, importante deixar claro que a caracterização da ‘música erudita’ como ‘gênero’ seria mais para efeitos de facilitar o entendimento: existe a música ‘barroca’, a música ‘clássica’ propriamente dita, a música ‘romântica’, a música ‘parnasiana’ (cujo único representante seria Camille Saint Saens), a música ‘moderna’, com todas as suas variadas tendências (atonal, dodecafônica, eletrônica, aleatória, concreta etc.). Varia, ainda, conforme a nacionalidade, brasileira, russa, alemã, italiana. Conforme a sua inspiração, como música programática, teatral (envolvendo a música incidental, o balé e a ópera), para salões de baile ou pura, como é o caso das sonatas e sinfonias. Pode ser sacra ou profana. Todas estas nuances e muitas outras precisam ser analisadas quando se tem em mente a definição do conceito de ‘música erudita’. Mas este debate, para o fim de iniciar as discussões sobre a programação, parece ocioso quando se identifique em tudo que implique sair da programação musical industrializada um sintoma de subversão. Conta Stanislaw Ponte Preta que só faltava quererem interrogar Sófocles como autor do texto subsersivo ‘Édipo Rei’.

  6. Comentou em 10/07/2007 Ivan Moraes

    Nao vi o problema pois so existe um tipo de musica que me desgosta mais do que jazz eh eh musica classica, so existe um tipo de musica que me desgosta mais que musica classica e eh opera, e so existe um tipo de musica que me desgosta mais que opera, e eh jazz. Estou mais preocupado eh em notar os preparativos da imprensa em geral para as eleicoes proximas. (Sim, estao proximas! Juro!) (So nao sei de onde o dinheiro esta desaparecendo pra isso, mas que estao, estao!)

  7. Comentou em 10/07/2007 Ivan Moraes

    Nao vi o problema pois so existe um tipo de musica que me desgosta mais do que jazz eh eh musica classica, so existe um tipo de musica que me desgosta mais que musica classica e eh opera, e so existe um tipo de musica que me desgosta mais que opera, e eh jazz. Estou mais preocupado eh em notar os preparativos da imprensa em geral para as eleicoes proximas. (Sim, estao proximas! Juro!) (So nao sei de onde o dinheiro esta desaparecendo pra isso, mas que estao, estao!)

  8. Comentou em 10/07/2007 ariovaldo pitta

    Dines,
    Todos conhecem a história profissional e pessoal do Paulo Markun. Sua competência é inquestionável.
    Agora, Markun teve a coragem de corrigir a rota da Cultura, que havia se tornado um veículo tão comercial quanto as emissoras privadas.
    Parabéns ao Markun.

  9. Comentou em 10/07/2007 Francisco Mazziotti

    Alberto Dines
    Ttalvez com certa inveja do salário do Salomão Merchandising (não interessa se ele é jornalista ou publicitário naquela função; o programa era ótimo), você esqueceu de comentar o absurdo feito com o principal personagem dessa triste história, que é o ouvinte da Cultura FM. O principal traço dessa nova direção (especialista em traço de audiência) foi o deprezo com seus ouvintes. Uma rádio que tinha o Diário do Salomão (líder de audiência) e programas como A canção americana, A canção francesa, A canção italiana, Jazz Concert, Linha Imaginária, Crossover, O som do Brasil, entre outras obras-primas do rádio, não pode simplesmente tirá-los do ar, com uma desculpa tão cretina. A questão não é ideológica, é apenas de competência. Alguém que assume uma rádio para demitir pessoas e acabar com programas não merece o respeito de ninguém. Provavelmente, nem ele nem a Gioconda durarão muito. Mas o estrago já foi feito. É pena. Estou tratando de arranjar outra rádio para ouvir. E olha que rádio eu ouço como quem ouve um amigo.
    Francisco Eduardo Mazziotti

  10. Comentou em 10/07/2007 Lau Mendes

    ‘Mas a Vejinha precisa guardar-se da histeria ideológica que tanto compromete a Vejona.’ , aleluia.

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