Sábado, 16 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

CADERNO DA CIDADANIA > VIOLÊNCIA NO RIO

O deslocamento da responsabilidade e da culpa

Por Fábio Koifman em 24/06/2008 na edição 491

Um dos melhores artigos que já li na área de história foi escrito por Alessandro Portelli e publicado no bom livro Usos & Abusos da História Oral, organizado por Marieta de Moraes Ferreira e Janaína Amado, cuja primeira edição saiu pela FGV em 1996. O título do trabalho é ‘O massacre de Civitella Val di Chiana (Toscana, 29 de junho de 1944): mito e política, luto e senso comum’.


No ano de 1944, aquela região italiana estava ocupada por tropas nazistas. Em retaliação pela morte de três soldados alemães por membros da Resistência, mais de duzentos civis de três pequenos povoados, entre eles homens, mulheres e crianças, foram brutalmente assassinados.


Cinqüenta anos depois, Portelli investigou o acontecimento, entrevistou muita gente que testemunhou o fato e boa parte dos habitantes daqueles povoados que, em última análise, culpavam os membros da Resistência pelas mortes dos civis. Notou o autor o deslocamento da responsabilidade ou da culpabilidade na memória de diversos depoentes. Como se as ações dos nazistas fossem previsíveis e inexoráveis. Teriam procedido dentro do que seria ‘natural’ que fizessem.


Máquinas de matar


Logo que comecei a acompanhar na mídia o noticiário a respeito do assassinato dos três rapazes do morro da Providência por um grupo de marginais do morro da Mineira, no Rio, lembrei-me do artigo de Portelli. Não há dúvida de que as responsabilidades indiretas pelos terríveis homicídios devem ser repartidas, solidariamente, entre aqueles 11 militares do Exército, principais alvos das acusações de vizinhos, parentes, polícia, governo estadual, autoridades federais e mídia. O tenente, os sargentos e os soldados já se encontram presos e têm sido amplamente investigados. Permanecem sozinhos no foco geral de responsabilização pelo crime e da expectativa geral por punição.


Nas colunas do jornalismo político, outros responsáveis indiretos têm sido aventados. As responsabilidades têm sido repartidas em todos os níveis decisórios e de comando, civil e militar, sendo a motivação dita populista, assistencialista ou política sistematicamente mencionada.


É claro que o ato do grupo do Exército brasileiro que entregou os três jovens detidos para ‘um corretivo’ no morro da Mineira não pode ser comparado com o ato dos membros da Resistência em termos de contexto, mérito, intenções e motivações. Mas uma idéia se conecta entre ambas as histórias.


O que exatamente faltou à mídia e à nossa sociedade que aproximou o fato ocorrido na cidade do Rio de Janeiro do ocorrido no pequeno povoado italiano? Alguém lembrar de acusar, investigar e prender os autores diretos dos homicídios: os assassinos do morro da Mineira. Tal assunto não aparece em fala alguma, em texto algum.


Tem se tratado dos assassinos como em Civitella. Era ‘natural, previsível e lógico’ que o grupo criminoso da Mineira fizesse o que fez. Eles são tratados como se estivessem tão-somente realizando o papel designado a eles. Nada diferente poderia se esperar. Eles e os nazistas seriam como máquinas automáticas de matar. Como se funcionassem como um impessoal e inimputável precipício no qual se atiraram as vítimas humanas.


Quando é que a mídia e a sociedade vão cobrar também a investigação e a prisão dos assassinos?


 


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Eles não têm assessores de imprensa — Sylvia Moretzsohn

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Historiador, autor de Quixote nas Trevas – o embaixador Souza Dantas e os refugiados do nazismo (Record, 2002)

Todos os comentários

  1. Comentou em 25/06/2008 Sonia Barros

    Nesta historia toda, temos os assassinos, os ‘nazistas’ da Mineira, que ninguém identificou ainda (por que será?), e os co-autores, o tenente, sargentos e soldados que entregaram os ‘alemães’ da Providência, de mão beijada e até com uma certa reverência, a seus executores.
    Estes são os fatos, que infelizmente não esclarecem tudo; 1) o que os três rapazes fizeram para provocar reação tão mortal? Xingaram a mãe do tenente? Desrespeitaram os fardados? Como oficial no comando, faltou ao tenente serenidade para dar ao caso a dimensão devida; 2) os três tinham envolvimento com o tráfico da Providência? Houve flagrante? Não seria o caso de o trio ser entregue às autoridades civis para investigação e processo? Afinal por que foram detidos?
    Se o assassinato do trio resultou em algo foi deixar claro que 1) alguns elementos do Exército ainda se consideram acima de qualquer tipo de lei e não se acanham de compactuar com a bandidagem, de certa forma, admitindo o ‘poder paralelo’ que se instalou no Rio. Poder este que a força se recusa a combater, porque não é polícia. (No Haiti, age como tal, mas lá usa o capacete azul da ONU, não é?) 2) houve quebra de hierarquia, pois o capitão do quartel para onde foram levados os rapazes teria mandado libertá-los, o que leva a crer que a ‘infração’ supostamente cometida não foi tão grave.

  2. Comentou em 24/06/2008 Arnaldo Carrilho

    Concordo em gênero, número e grau com Fábio Koifman. Os assassinos e seus indutores têm de ser detidos, julgados e condenados. É bem verdade que, neste Brasil em caos (des)organizado, se passam delitos horripilantes. O País saltou, de repente, do pré-capitalismo escangalhado – por força da globalização imperial – para um neo-capitalismo embrutecedor. É neste quadro que se desenvolve a violência induzida, presente em nosso quotidiano e descaradamente veiculada nos órgãos mediáticos. Este executam às escâncaras um genocídio cultural que não é denunciado nem por acadêmicos e intelectuais de plantão. A miséria humana do Brasil é apagada, ao ser discutida ‘em tese’, quando seria necessário um mutirão para exterminá-la, além das ações governamentais. Está em toda parte, na cara de uma Fátima Bernardes, nas ‘ponderações’ agranfinadas do Renato Machado, nos noticiários anti-governamentais, nos lixos cinematográficos hollywoodeanos, na maneira de dirigir auromóveis contra pedestres, nos diálogos de clientes com bancários, em nosso modo de ser. Não mais somos os ‘cordiais’ macunaímas que Sergio Buarque de Hollanda e Mario de Andrade identificaram. Até uma partida de futebol não mais é jogo, é guerra. Falta raciocínio cívico na cabeça dos brasileiros destes tempos. Pasolini, que num belíssimo poema de 1970, chamou o Brasil de ‘mia nuova patria’, não mais diria coisa do gênero hoje em dia.

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