Terça-feira, 12 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº969

CADERNO DA CIDADANIA > DEPOIS DO HORROR

O fardo de nosso tempo

Por Alberto Dines em 11/01/2015 na edição 832

Reproduzido do El País, 9/1/2015; intertítulo do OI

O objetivo dos sicários que fuzilaram os jornalistas do Charlie Hebdo não era o de liquidar a liberdade de expressão. Bárbaros, primitivos, não têm noção de conceitos tão subjetivos e abstratos. Pretendiam dividir a França, exacerbar a confrontação étnica-religiosa, estendê-la além das hostilidades entre islamófobos, islâmicos pacíficos e secularistas.

Guerras santas não têm objetivos, mas estratégias. E a dos jihadistas é claramente imperialista: dividir a ferro e fogo, espalhar-se, dominar. Nada sabem sobre história, para eles a vida começa e acaba no momento em que puxam o gatilho ou desembainham adagas. Em algum lugar do seu cérebro, porém, percebem que uma França dividida, divide a Europa, divide o mundo.

Assim foi durante a Revolução dos Direitos Humanos que entrou para a história designada como Francesa (1789-1799), repetiu-se um século depois no affaire Dreyfus (1894-1906, quando o duelo antissemitismo  versus liberalismo alcançou o âmago da família francesa, espalhou-se pelo mundo e chegou ao Brasil através da pena libertária de Ruy Barbosa). E assim foi em 1940, quando a direita francesa entregou-se de corpo e alma não apenas ao poderoso exército de Hitler, mas à sua insanidade. A França abatida abateu o mundo.

“O fardo do nosso tempo”, título original do atualíssimo estudo de Hannah Arendt e que acabou intitulado “As origens do totalitarismo” (1951), aponta para o antissemitismo como traço comum entre o nazismo e o estalinismo. A jihad francesa adotou a ferocidade racista através de chacinas contra instituições, escolas e culminou com o sanguinário ataque na sexta-feira (9/1) a um supermercado judeu. Para livrar-se do sofisticado Trotsky, o totalitário Stalin não escondeu que o rival judeu era um burguês cosmopolita.

Singular e plural

A França e a cultura francesa são patrimônios da humanidade, cada um de nós é herdeiro deste esplêndido legado. Somos franceses, mesmo que o idioma inglês tenha se transformado em língua-franca. Romain Rolland, Roger Martin du Gard e Albert Camus compreenderam muito bem a natureza deste pertencimento. Apesar de um certo ostracismo na era pós-Mitterrand, este patrimônio voltou a pulsar nos últimos dias com o emocionante brado global “Je suis Charlie”.

Aux armes, citoyens, às armas cidadãos, canta a “Marselhesa” – hino nacional francês há 220 anos –, mas as armas que apareceram nas silenciosas manifestações em todo o mundo não são as mortíferas Kalashnikov mas os crayons, os lápis de cor preferidos pelos desenhistas e cartunistas.

A França unida será o lema da grande manifestação convocada para domingo (11/1) com a maciça adesão dos partidos de esquerda que admitiram a participação dos conservadores de Sarkozy, mas rejeitaram terminantemente a presença dos ultradireitistas que seguem a família Le Pen. Exclusão compreensível sob o ponto de vista moral – a islamofobia e a xenofobia francesas são a principal alimentadora da jihad. Convenhamos, inadequada.

Inadequada porque divide – e  esta é a hora de juntar, somar, agregar os que se opõem ao terror. E inadequada  porque impede que os lepenistas, hoje tentando desesperadamente escapar da tentação fascista com uma maquiagem “civilizada”, abandonem sua pregação original, odiosa, racista.

“Soldados: do alto destas pirâmides quarenta séculos vos contemplam”, proclamou no Egito o general Napoleão Bonaparte, de 29 anos, antes de vencer os inimigos ingleses. Hoje simplificada, mais impactante, a inspirada retórica francesa precisa dizer àqueles que se deixam esmagar pelo fardo do fanatismo e do fundamentalismo que a humanidade é singular e plural, concêntrica, única, indivisível.

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