Sexta-feira, 24 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

CADERNO DA CIDADANIA > O PETRÓLEO É NOSSO

O limão que virou limonada

Por César Fonseca em 13/11/2007 na edição 459

O presidente Lula deu um show de competência midiática para tentar se livrar do desgaste popular. O titular do Planalto, sob surpresa geral da grande mídia, mostrou que sabe criar uma situação positiva, abstrata, para reverter situação negativa, concreta. Pelo menos, aparentemente.

O anúncio espetacular da descoberta do campo Tupi na bacia de Santos, com reservas de 5 a 8 bilhões de barris, a 6 mil metros sob a camada de sal, que elevará o total do estoque nacional para quase 22 bilhões de barris, colocando o Brasil no clube dos países exportadores de petróleo, reverteu, na aparência, o quadro de pessimismo que se desenha com a redução da oferta de gás para abastecer os consumidores nos grandes centros urbanos.

As chuvas se mostraram insatisfatórias até agora e a oferta menor de energia por conta da redução dos reservatórios levou a Petrobrás, por precaução, a diminuir, também, a oferta de gás aos automóveis, para sobrar mais para o setor industrial. Menor oferta de gás elevou o preço em 25%. Pânico. Evidenciou o monstro anunciado há tempos pelos que o governo considera catastrofistas, alertando para possíveis colapsos energéticos. As chuvas, no entanto, estão voltando…

Apertado diante da situação, o presidente da República trouxe o futuro radioso da produção de petróleo e de gás, que ocorrerá a partir de 2011 – ou 2010, ano de eleição presidencial? – para o presente tenebroso daqueles que fizeram conversão dos motores dos seus carros de gasolina para gás em busca de economia.

O gás 25% mais caro, anunciado pela Petrobras, representa, para Lula, desgaste político inevitável, especialmente no momento em que crescem especulações relativas à possibilidade de ele disputar ou não terceiro mandato.

Rápido e eletrizante 

Como São Pedro estava mandando chuvas em quantidades insatisfatórias – a situação melhorou positivamente nos últimos dias –, as chances dos desgastes se intensificarem cresceriam no compasso da diminuição do estoque de água dos reservatórios, cujos efeitos seriam supressão ainda mais forte da oferta de gás e conseqüente aumento de preços. Nada mais impopular.

Neste contexto, em que se encontrava acuado, o presidente, em sinuca de bico, deu um salto triplo por cima da situação inconveniente e criou, no campo da abstração, situação conveniente – tornando aparentemente presente algo que só ocorrerá no futuro – a fim de faturar politicamente uma situação adversa. Marketing puro da equipe de comunicação.

O ministro Franklin Martins, rápido no gatilho, montou cenário figurativo compatível. O efeito midiático foi intenso, genial. Rádios, jornais e emissoras de rádio e TV, nacionais e internacionais não economizaram manchetes. Criou-se clima favorável para o presidente Lula viajar ao Chile, chegando para a cúpula Ibero-americana fortalecido para negociar com o presidente da Bolívia, Evo Morales, novos investimentos da Petrobras na economia boliviana. Rivalizaria também na disputa pelos holofotes com o presidente da Venezuela, Hugo Chávez, que cria intensos antagonismos diante do referendo que enfrentará no próximo 2 de dezembro, para reformar a Constituição bolivariana. Tudo somou favoravelmente a Lula até levar Chávez, impressionado com a repercussão do assunto, a chamar o presidente de ‘magnata do petróleo’, convidando-o, imediatamente, a uma parceria estratégia na América do Sul.

Tudo muito rápido, eletrizante, essencialmente, embalado por um governo midiático.

Novidade politicamente requentada

Seria novidade absoluta a descoberta do campo Tupi, que aumenta de 5 a 8 bilhões as reservas nacionais de petróleo, atualmente em 14 bilhões, com produção diária de 1,8 milhão de barris, embalado pelo preço atual de 100 dólares o barril?

Mediante aparato publicitário-midiático que gerou efeito retumbante na praça global, na qual brilhou a ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff – cotada para disputar a presidência em 2010, véspera do início da produção do campo petrolífero gigante – , o presidente, sob pressão popular, decidiu – conforme destacou o repórter Alexandre Garcia, no Bom Dia Brasil (sexta, 9/11) – requentar informação divulgada em 11 de julho de 2006, por O Globo e pela mídia em geral.

Na ocasião, o potencial energético do campo Tupi na bacia de Santos já era conhecido. Os empresários, em reuniões da Confederação Nacional da Indústria, tiveram oportunidade de relatar o fato, que estava empolgando, naquele momento, o governo. A memória da grande mídia falhou na hora de questionar o anúncio espetacular. O fato, agora, recebeu uma dose superior de silicone, para permitir ao presidente Lula negociar, sob prestígio artificial e midiaticamente bombado, com o presidente Evo Morales o aumento dos investimentos da Petrobras na Bolívia para produzir gás que seria exportado para o Brasil.

A jogada midiática lulo-franklinsta contribuiu para valorizar em 14% as ações da Petrobras. Lula antecipou o futuro, midiaticamente, e se candidatou a membro OPEP pela boca de Hugo Chavez, em Santiago. De uma só tacada, a pirotecnica midiática presidencial enriqueceu os 60% dos acionistas preferenciais privados da empresa não tão mais estatal assim.

Não teria chegado a hora de haver uma separação entre a empresa, que tem 60% de acionistas privados, com ações preferenciais, e as reservas, que são do povo, para que tais detentores de riqueza acionária pagassem ao Tesouro Nacional o óleo extraído, conforme defende o economista Almir Hockembach?

Ou, sob silêncio da mídia, continuarão todos a bancar essa transferência fantástica de renda, principalmente para o exterior, diretamente do subsolo nacional?

Dono da situação

Evo Morales, que inicialmente foi tratado, de forma desdenhosa pelo governo Lula (e de maneira até racista pela grande mídia), quando decidiu estatizar as reservas energéticas bolivianas a fim de cumprir promessa de campanha eleitoral – feita, aliás, por todos os candidatos que disputaram as eleições – é, por enquanto, o dono da situação diante do presidente brasileiro de saia justa. O titular do Planalto teve que comer na mão dele. Afinal, as reservas alardeadas com trombone de vara somente gerarão óleo e gás nos próximos quatro ou cinco anos, de acordo com informações especializadas.

Morales deu show de diplomacia, assim como Lula deu um show midiático para tentar equilibrar-se em situação adversa. O presidente boliviano disse que aceita os investimentos da estatal brasileira, que ajudarão o seu país, mas exigiu respeito à soberania nacional. A arrogância brasileira teve que baixar o facho. Lula, orgulhoso, desconfortável, criou, midiaticamente, situação de força política aparente para chegar a uma negociação com Morales, sem dar a entender que estaria ‘pedindo penico’.

A requentada espetacular da notícia sobre as reservas anteriormente conhecidas superou todas as expectativas, mas o titular do Planalto somente se livraria do perigo se chovesse quinze dias, no mínimo, de forma satisfatória para preencher os reservatórios que estão relativamente vazios. Não haveria, assim, necessidade de segurar o gás para os automóveis e sobraria energia elétrica para as indústrias, livrando-as de subordinação total à energia gasosa. Tal situação climática fragilizou politicamente o presidente.

O clima se transformou em fator político decisivo. Contra ele se tentou golpe midiático com segurança, pois o produto anunciado está garantido nas profundezas da terra, gerando lucro, antecipando o futuro para o presente. Os editoriais da grande mídia, no dia seguinte, dançaram. Abordaram com quatorze dedos a abstração governamental.

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Jornalista, Brasília, DF

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