Sexta-feira, 15 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

CADERNO DA CIDADANIA > IMPRENSA & PRECONCEITO

O lugar das mulheres

Por Ligia Martins de Almeida em 09/10/2007 na edição 454

O movimento feminista estava errado ao dizer às mulheres que elas deveriam deixar o trabalho do lar e ir disputar oportunidades no mercado de trabalho ou os homens foram mais fortes e convenceram as mulheres que o lugar delas era mesmo em casa?


A pergunta não foi feita com todas as letras, mas foi sugerida pela imprensa na semana que passou.


A edição de outubro de Claudia abre o artigo ‘Feminismo em xeque’ afirmando:




‘Nunca tantas mulheres trabalharam fora no país que inventou o movimento feminista – e ao mesmo tempo nunca se falou com tanta agressividade (e inteligência) sobre as vantagens de voltar para casa para criar os filhos e esperar o marido. As americanas estão em pé de guerra.’


O especial da Folha de S. Paulo sobre a família brasileira (7/10/2007) destaca:




‘No mesmo país em que, segundo o dado mais recente do IBGE, 29,2% dos lares são chefiados por mulheres, 33% dos entrevistados pelo DataFolha acham que as mulheres devem deixar de trabalhar fora para cuidar dos filhos. Na segmentação por sexo, a resposta foi dada por 36% dos homens e 30% das mulheres ouvidas. Outros 49% dos brasileiros aceitam que a mulher trabalhe, desde que o salário dela seja realmente necessário para o orçamento familiar. O índice dos que defendem que a mulher deve abrir mão do trabalho pelos filhos é menor entre os que cursaram o ensino superior: 19%. O que, no entanto, não deixa de ser um número alarmante, segundo a assistente social Sonia Coelho, 48, militante da Sempreviva Organização Feminista (SOF).’


‘Qualidades’ tradicionais


O que se descobre, nas duas matérias, é que tanto lá como cá a responsabilidade pela educação dos filhos continuou – apesar da evolução da mulher em escolaridade e no mercado de trabalho – sendo uma atribuição exclusivamente feminina, em vez de ser uma obrigação compartilhada, como se reivindicava. Segundo a pesquisa da Folha, 90% dos cuidados com filhos doentes são responsabilidades femininas; 83% das mães são responsáveis por acompanhar as refeições dos filhos; 89% são encarregadas de levar ao médico ou dentista; e têm 72% da participação em reuniões na escola.


O que o jornal não diz é se essa maior responsabilidade com os filhos se dá por escolha ou simplesmente porque as mulheres ganham menos, já que apenas 29% das entrevistadas são responsáveis pela maior parte das despesas domésticas, contra 49% dos homens.


É interessante verificar que, ao mesmo tempo em que acham que lugar de mulher é em casa, as qualidades tradicionalmente atribuídas as mulheres ‘do lar’ já não são consideradas tão importantes: ‘Em 1998, 20% dos homens entrevistados na pesquisa Família Brasileira pensavam que a principal qualidade de uma esposa consistisse em saber cuidar da casa. Hoje, esse percentual caiu para 7%. Também em 1998, outros 12% escolheram cuidar bem dos filhos como qualidade principal. Em 2007, foram só 4%.’


Conspiração masculina


Como aumentou a rejeição ao aborto, que subiu dez pontos desde 1998 (87% dos entrevistados condenaram a interrupção da gravidez), poderíamos achar que a família está mais conservadora. Mas não é isso o que mostram outros itens da pesquisa:


** Relacionamentos homossexuais: em 1998, 77% dos entrevistados achavam que essa situação seria ‘muito grave’. O índice caiu 20 pontos percentuais em nove anos: hoje, só 57% teriam essa reação.


** Relacionamentos inter-raciais: de 1998 a 2007, subiu de 76% para incríveis 92% o índice de entrevistados que não considerariam um problema se o filho namorasse uma pessoa de outra cor. Com a filha, a toada muda um pouco: o índice baixa para 85%.


Se a família está menos conservadora, se as mulheres são obrigadas a trabalhar para complementar a renda familiar e se os homens continuam participando pouco das atividades doméstica, cabe à imprensa discutir, a partir de agora, o que se espera das mulheres. Discutir com mulheres poderosas como as governadoras, ministras de Estado e candidatas a presidente. Será que elas concordam que lugar de mulher é em casa ou acham que a imprensa também faz parte da conspiração masculina para colocar as mulheres no seu lugar?

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Jornalista

Todos os comentários

  1. Comentou em 15/11/2007 INES MIRANDA

    NAO CONCORDO COM A MATÉRIA, AS MULHERES HOJE ESTÃO BEM INDEPENDENTES, PREPARADAS E CULTAS. DÃO CONTA DO TRABALHO FORA, EM CASA E CUIDAR DOS FILHOS. E MUITO MAIS..

  2. Comentou em 11/10/2007 Roberto Ribeiro

    A questão de gênero e raça colocada independetemente da questão de classe gera essas contradições. Que diferença faz Condolezza Rice ou qualquer homem branco de sua classe no seu posto? As mulheres em Abu Ghraibh e outras partes do Iraque provaram que são tão boas açogueiras qto os homens. Então o gênero só não significa muito.
    Entretanto, às mulheres proletárias foi vendido que há uma coisa chamada ‘realização profissional’, que trabalhar ‘fora’ é o máximo que o ser humano deve aspirar. Não haveria nada tão bom quanto se tornar força de trabalho barata… Hoje, os índices de desemprego levam a tirar pessoas do mercado de trabalho para aliviar a pressão social. Isso já aconteceu antes no século XVIII, qdo se criou o mito da mulher frágil.
    Hoje, o mito da mulher frágil volta sorrateiramente: a mulher precisa ser protegida, precisa de quotas, precisa de leis q as ajudem. Ora quem precisa ser protegido, tem de aceitar ser tutelado… Como uma criatura que tem TPM e é instável pode governar uma nação? O mito da TPM e da mulher assediada e descriminada injustamente levarão à conclusão óbvia: a mulher é frágil demais…
    Só uma última nota: sobre o aborto, a lei Islâmica aprova o aborto, logo os fundamentalistas islâmicos são os mais feministas?

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