Sexta-feira, 20 de Setembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1055
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CADERNO DA CIDADANIA >

O ofício se consolidou fora dos padrões vigentes

Por Demétrio Rocha Pereira em 26/05/2009 na edição 539

Na defesa pela obrigatoriedade do diploma de Jornalismo, há gente querendo comparar o ofício do jornalista com o do médico ou o do engenheiro. Ingenuidade ou pretensão descabida. Os conhecimentos envolvidos na práxis de cada área são totalmente distintos – o que, de forma alguma, significa que uns são maiores ou melhores que outros.

Para fazer o jornalismo que se tem hoje, não se precisa de muita coisa. E há apenas poucos anos a obrigatoriedade caiu, o que prova que exigir diploma não garante qualidade – basta ligar a TV aos domingos ou dar uma folheada em qualquer jornal, popularesco ou não. Para fazer jornalismo sério, crítico, inteligente… bom, aí a coisa muda. Mas, nesse caso, persiste o que já se tem: qualquer veículo que se preze tenderá a buscar, invariavelmente, seus melhores profissionais nas melhores universidades.

O curioso é que há muito ‘herói’ no jornalismo que nunca colocou o pé em uma universidade. A liberdade de expressão – o que, por óbvio, inclui a liberdade de qualquer pessoa poder exercer o jornalismo – possibilitou o aparecimento de gente que hoje é glorificada na academia. Geralmente, esses figurões, evocados em prosa saudosa onipresente na bibliografia de sala de aula, vinham do que se costumava designar ‘intelectualidade’. Vendo bem, o bom jornalismo nasceu e se consolidou assim, fora dos padrões vigentes, como fruto de uma intelligentsia intranqüila, fosse ela emergente ou decadente, militante ou pretensamente isenta, produto das elites ou da marginalidade.

A lógica da linha de montagem

Tudo que há de bom no jornalismo, em essência, nunca foi de se deixar institucionalizar. Não é de se admirar que essa tal obrigatoriedade seja herança de um período ditatorial. Àquele tempo, era interessante eliminar a diversidade de publicações e opiniões. Compreensível que se quisesse atrelar a profissão a um ensino universitário que, à época, não escapava aos censores do governo.

No Reino Unido e nos EUA, para ficar apenas nesses dois, não se exige diploma para o exercício da profissão. Ainda bem: o new journalism pôde surgir com o pioneirismo antinormativo de gente como Tom Wolfe e Gay Talese; a grande reportagem, encarnada em modelo típico-ideal nas releituras da cobertura de Bob Woodward e Carl Bernstein sobre o caso Watergate, pôde se tornar o sonho de qualquer jornalista, a despeito das tesouras manifestas ou implícitas dos editores. E poderíamos voltar aos tempos de John Reed. No Brasil, poderíamos falar de Euclides da Cunha, de revistas como Realidade… No meio disso tudo, uma miríade de talentos lapidados longe da jurisdição acadêmica. Não é por isso, deixemos claro, que a universidade perde o seu valor.

Não dá para confundir o fazer jornalismo e o estudar jornalismo. O estudo da área envolve ciências sociais, teorias da comunicação, psicologia social, semiótica etc. Nesse caso, a universidade é o lugar certo. Mas esse tipo de conhecimento, ao contrário do que se observa em outras áreas, não é requerido pela prática jornalística. O modelo em vigor ruma para a lógica da linha de montagem e, para estar plenamente adequado para o jornalismo taylor-toyotista, basta um curso técnico ou algumas semanas de treinamento.

À fogueira as vaidades

Prova disso é o notável desinteresse com que as cadeiras teóricas são encaradas por grande parte dos estudantes de Jornalismo. Não é para menos: a maioria quer uma formação que prepare para o mercado de trabalho, não a aquisição de um aparato teórico dispensado, ou mesmo rechaçado, pelo noticiarismo contemporâneo. É falacioso dizer, por exemplo, que a queda da obrigatoriedade do diploma será acompanhada por uma queda do espírito crítico dos profissionais. Que repórter, hoje, formado ou não, é autônomo para exercer qualquer forma de criticismo? A empresa manda, e é só. Se as empresas de comunicação defendem a queda da obrigatoriedade é porque sabem que podem ter o mesmo por menos (menor custo ou esforço, tanto faz). A mesma mediocridade. Para isso, ninguém precisa de diploma.

Agora, acho difícil algum hospital encontrar cirurgiões por aí, caindo do céu, sem a formação universitária adequada. Nessa defesa desvairada pela obrigatoriedade do diploma, parece haver um ingrediente escondido: a vaidade. Ateemos à fogueira as vaidades. A solução para a obtusidade do jornalismo noticiarista passa longe de obrigar os profissionais a apresentarem o canudo na hora de fazerem o que todos deveriam ter o direito de fazer.

Em tempo: de modo algum sou contra o diploma ou contra a devida regulamentação da profissão. Sou contra, sim, a exigência do diploma para o exercício do jornalismo.

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Estudante de Jornalismo na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Canoas, RS

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