Sexta-feira, 16 de Novembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1013
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CADERNO DA CIDADANIA >

O ombudsman e as pontes do jornalismo

Por Rafael Duarte Oliveira Venancio em 29/07/2008 na edição 496

Em sua coluna de domingo (27/07/2008), o ombudsman da Folha de S.Paulo, Carlos Eduardo Lins da Silva afirmou que ‘à imprensa cabe ajudar o cidadão que quer tomar parte no processo [político] a fazê-lo. (…) O jornalismo pode contribuir muito na construção de pontes que possibilitem essa melhora, como demonstram diversos exemplos de outros países. É só querer’.

Além disso, ele especifica que essas pontes do jornalismo não são de caráter partidário, ou seja, não ajudam um determinado partido em detrimento de outro, como muitas pessoas acreditam. Até se sabe – conforme Lins da Silva afirma, citando a conclusão de Paul F. Lazarsfeld em seu estudo na cidade norte-americana de Elmira – ‘que em temas que compõem o núcleo de valores e convicções de uma pessoa, os meios de comunicação importam muito menos do que outras instituições, como família, igreja, sindicato, escola, clube, grupo de amigos’.

De certa forma, o ombudsman da Folha está certo: é difícil produzir persuasão política através do jornalismo. No entanto, eu gostaria de citar um estudo mais recente – quando comparado ao de Lazarsfeld – feito por Shanto Iyengar e Donald R. Kinder acerca da formação da opinião pública norte-americana através da televisão.

Definição de conceitos

No livro, de 1987, News that matters: Television and American Opinion, Iyengar e Kinder, comparando o estudo deles com o de Lazarsfeld, afirmam: ‘Persuasão política é difícil de obter, mas agenda-setting e priming são aparentemente dominantes.’

A frase acima trabalha com dois termos que normalmente, dentro dos estudos do jornalismo, não são traduzidos para o português. No entanto, mesmo tendo o seu significado bastante conhecido, vale a pena conceituá-los melhor.

Agenda-setting, conhecida também como Teoria do Agendamento, é a qualidade da imprensa determinar a pauta da discussão para a opinião pública, enquanto pretere e ofusca outros assuntos. Os primeiros a utilizar esse termo foram os pesquisadores Maxwell McCombs e Donald Shaw, na década de 1970. No entanto, podemos encontrar idéias muitos similares nos trabalhos de Walter Lippmann, um dos pais dos estudos em Jornalismo.

Se agenda-setting significa atrair a atenção do público para determinados assuntos, priming presume que, enquanto o público está refletindo sobre algum assunto da agenda pública, ele não leva em conta seus pressupostos anteriores, ficando apenas com aqueles que as notícias fornecem.

Então, Iyengar e Kinder querem dizer, com a frase anteriormente citada, que ‘de acordo com os nossos resultados, as notícias televisivas, clara e decisivamente, influenciam as prioridades que as pessoas relacionam com os diversos problemas nacionais e também influenciam como eles avaliam os líderes políticos e os seus candidatos a cargos públicos’.

Informação e desinformação

Assim, enquanto jornalistas, precisamos avaliar quais tipos de pontes estamos construindo para o nosso público-leitor. Com isso, não estou afirmando que fazemos, atualmente, ‘pontes partidárias’ ou ‘pontes para o abismo anti-democrático’. Apenas devemos ter cuidado para não virarmos uma espécie de coronel Nicholson do jornalismo.

Para aqueles que não lembram, o coronel Nicholson, interpretado por Alec Guinness, é o personagem principal do filme A ponte do rio Kwai, de 1957. Nicholson e seus homens são feitos prisioneiros de guerra pelos japoneses durante a Segunda Guerra Mundial. Encarcerados em um campo de prisioneiros em Burma, os japoneses, inicialmente, querem que eles trabalhem na construção de uma ponte ferroviária por cima do rio Kwai que ligará Bangkok a Rangoon. Como prisioneiros de guerra não podem ser colocados em trabalhos forçados pela Convenção de Genebra, Nicholson recusa a oferta.

No entanto, vendo a desorganização dos japoneses, o coronel Nicholson resolve refazer os projetos da ponte e construí-la dentro do prazo estipulado pelo comando militar japonês. Tal feito provaria a superioridade do engenho das mentes inglesas, sendo uma forma de ganhar a ‘guerra por moral’ entre ingleses e japoneses.

Nicholson só percebe que essa ponte, na verdade, apenas beneficiaria os japoneses no momento da inauguração, enquanto observa a tentativa de sabotagem da construção feita por um esquadrão norte-americano. O desfecho trágico da história é resumido pela frase, dita aos berros pelo major Clipton (interpretado por James Donald): ‘Loucura! Loucura!’

Assim, os jornalistas precisam ponderar para observarem a quem estão ajudando com suas ‘notícias-pontes’. Se a afirmação de que ‘quanto mais notícias, mais bem informado o público fica’ pode ser considerada verdadeira, a constatação inversa – de que as notícias causam mais desinformação do que informação – também não pode ser retirada de escopo.

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Pesquisador de Iniciação Científica em Jornalismo do Centro de Estudos da Metrópole (CEM-CEBRAP) e da Escola de Comunicações e Artes da USP (ECA-USP)

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