Sábado, 16 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

CADERNO DA CIDADANIA > MÍDIA & FEMINISMO

O preconceito de sempre. Lá, como cá

Por Ligia Martins de Almeida em 06/11/2007 na edição 458

‘Não fique brava. Mas assuma o controle. Seja gentil. Mas não muito gentil. Fale alto. Mas não dê a impressão de falar demais. Jamais se vista de forma sexy. Certifique-se de que inspira os seus colegas – a menos que trabalhe na Noruega; neste caso, concentre-se, em vez disso, em delegar poderes.’

Assim começa o artigo do New York Times ‘A dura percepção sobre a mulher’, reproduzido pelO UOL (2/11/07), sobre uma pesquisa feita nos Estados Unidos: ‘A pesquisa da Catalyst é, freqüentemente, uma tentativa de descobrir por que, 30 anos após as mulheres terem ingressado em grandes contingentes no mercado de trabalho, a imagem mental padrão de um líder ainda é masculina. O mais recente estudo é o relatório intitulado ‘Damned if You Do, Doomed if You Don’t’ (‘Amaldiçoada se Fizer, Condenada se Não Fizer’), baseado na entrevista de 1.231 executivos graduados nos Estados Unidos e na Europa. A pesquisa revelou que as mulheres que agem de maneiras consistentes com os estereótipos relativos ao sexo – definidas como concentradas ‘em relacionamentos de trabalho’ e manifestando ‘preocupação com os pontos de vista das outras pessoas’ – são consideradas menos competentes. Mas caso elas ajam de forma que sejam tidas como mais ‘masculinas’ – como ‘agir agressivamente, concentrar-se nas tarefas do trabalho, manifestar ambição’ – são tidas como ‘duras demais’ ou ‘não femininas’. Ou seja, as mulheres não têm como vencer.’

Se na Europa e Estados Unidos, ’30 anos depois das mulheres terem ingressado em grandes contingentes no mercado de trabalho’, ainda é assim, o que podemos esperar do Brasil onde o grande contingente de trabalho feminino ainda é o das empregadas domésticas (mais de 5 milhões, segundo o último PNAD)? E onde uma pesquisa (Folha de S. Paulo de 7/10/2007) revelou que 33% dos entrevistados ‘acham que as mulheres devem deixar de trabalhar fora para cuidar dos filhos e 49% aceitam que a mulher trabalhe, desde que o salário dela seja realmente necessário para o orçamento familiar’.

Celebridades de baixo nível

A mesma pesquisa no Brasil talvez traga um resultado inesperado: mulheres dizendo que não enfrentam preconceitos e que a carreira depende exclusivamente da força de vontade e talento. Por medo de parecerem ‘feministas’, ‘descontentes’ e ‘histéricas’, as mulheres que trabalham preferem fazer de conta que não enfrentam preconceitos ou que o preconceito não existe.

Fazer de conta que somos um país livre de preconceitos (de cor e de sexo) é uma de nossas características mais marcantes e que, infelizmente, contamina a imprensa. Um bom exemplo é a cobertura da eleição argentina. Com medo de dizer com todas as letras que a primeira-dama Cristina Kirchner é um fantoche do marido, os jornais preferiram falar em manobra política para que o marido se perpetue no poder. Mas não analisaram, com a devida atenção, o fato de que a segunda colocada também era mulher, sem vínculos com um marido politicamente poderoso.

Talvez o sintoma mais claro do preconceito tenha sido dado por Veja: reservou quatro linhas da matéria sobre a nova presidente para falar de política e usou as outra 11 para discutir o seu visual. Com uma ironia controlada, acabou dizendo que a nova presidente, aos 54 anos, não poderia usar os modelitos que escolhe: saias volumosas e um cinto largo marcando a cintura. Colocando a primeira dama na página de ‘Gente’ – ao lado da notícia sobre um homem que se destaca por namorar beldades, do debate sobre os cabelos falsamente loiros de uma atriz e de uma celebridade seminua – Veja reduziu a primeira-dama argentina à dimensão das celebridades do mais baixo nível. Se isso não é preconceito, fica difícil saber o que é.

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Jornalista

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