Terça-feira, 28 de Julho de 2015
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº861

CADERNO DA CIDADANIA > PROTESTOS URBANOS

O que querem os manifestantes

Por Luciano Martins Costa em 11/06/2013 na edição 750

Comentário para o programa radiofônico do Observatório, 11/6/2013

Os jornais repercutem a apreensão de autoridades de algumas das principais cidades do país com a repetição de manifestações pela gratuidade do transporte público. Na terça-feira (11/6), a Folha de S.Paulo e o Estado de S.Paulo exibem fotografias impactantes do confronto entre ativistas e as forças de segurança no Rio, com imagens de policiais protegidos por armaduras e cenários com muita fumaça e correria. O Globo traz reportagem detalhando a ocorrência de tumultos em vários pontos da capital fluminense.

As cenas transmitidas pela televisão e o relato linear dos jornais refletem situações caóticas, com muita confusão, bombas de efeito moral, trânsito paralisado e uma constatação intrigante: o caos provocado pelos manifestantes leva enorme vantagem sobre a ordem da ação policial. A razão parece simples: os ativistas querem paralisar a cidade, irritar a população e demonstrar a ineficiência dos agentes oficiais, enquanto os policiais recebem ordem para apenas acompanhar a movimentação, agindo somente quando alguns atos mais agressivos ameaçam o patrimônio privado ou equipamentos públicos.

A tática dos manifestantes é parecida com o que acontece nos protestos em outras partes do mundo: eles saem caminhando em relativa ordem, gritando slogans e exibindo seus cartazes; eventualmente, pequenos grupos se deslocam lateralmente e provocam um distúrbio, incendiando sacos de lixo, quebrando vitrinas ou atirando pedras em ônibus. Quando a polícia age, eles retornam ao grupo principal que caminha pacificamente. Aparentemente, a tática está bem assimilada e aquilo que parece confusão é claramente uma forma planejada de dispersar a capacidade de intervenção da polícia.

De certa maneira, o modelo repete aspectos das mobilizações de estudantes contra a ditadura, nos anos 1970, quando um pequeno grupo definia os trajetos mais adequados das passeatas e preparava ações para reduzir a eficiência da cavalaria, por exemplo, juntando rolhas e bolinhas de vidro que derrubavam os cavalos nas ruas. As correrias que desarticulam os planos da polícia não são sempre espontâneas: quase sempre são uma forma de levar a tropa para longe do núcleo principal da manifestação.

Sinais de ruptura

Se a tática dos manifestantes está relativamente clara, sua estratégia ainda desafia os analistas. Pode-se dizer muita coisa sobre a principal reivindicação que mobiliza os jovens ativistas, inclusive que é impraticável. Mas a imprensa ainda não foi buscar as planilhas que demonstrem se o transporte gratuito é factível ou se os ativistas fazem muito barulho por nada.

Alguns repetem bordões que já foram enterrados por novas expressões do capitalismo, como a frase segundo a qual “não existe almoço grátis”. Outros tentam ressuscitar velhas ilusões sobre a sociedade solidária, que a História enterrou há décadas.

Certamente, no núcleo organizador das passeatas há uma inteligência dedicada a fins muito claros. Um deles pode ser a conquista de eleitores, outro pode ser o contrário, ou seja, o desmanche da democracia representativa.

A repetição da tática de perturbar a vida urbana pode produzir resultados inesperados, como a ascensão de dirigentes ainda mais conservadores e oportunistas, sem compromisso com projetos urbanos e de transporte mais adequados às grandes cidades. Não terá sido a primeira vez em que o protagonismo de muitos se transformaria em massa manipulável, e aqueles que hoje depredam o patrimônio comum podem estar agindo contra seus próprios interesses.

O que se pode observar é que a juventude – pelo menos parte dela – parece sair do marasmo que dominou a geração de seus pais, que nos anos 1980 se entregaram gostosamente ao triunfo do capitalismo e se iludiram com a possibilidade de uma vida sem conflitos. Seguiram-se depois as afirmações aleivosas sobre o fim da História e o advento do que muitos chamam de pós-modernidade.

Os “pós-modernos” também envelhecem, seus filhos se revoltam contra o conformismo e querem ser protagonistas.

Nesse período, consolidou-se a sociedade do prazer e do consumo, o interesse coletivo saiu de moda e a indústria da mídia colocou nas telas a promessa da felicidade individual à revelia do bem-estar comum.

Apesar de serem poucos e parecerem confusos, os manifestantes refletem claramente uma ruptura com o conformismo dos últimos trinta anos. As cidades cheiram a gás lacrimogêneo e a imprensa corre atrás dos fatos, mas não dá sinais de entender o significado mais profundo das tensões naturais do mundo contemporâneo.

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