Terça-feira, 20 de Agosto de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1050
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CADERNO DA CIDADANIA >

O risco do nocaute da educação

Por Paulo Ghiraldelli Jr em 19/05/2009 na edição 538

O ring está arrumado. A torcida está apreensiva. De um lado, o peso-pesado Paulo Renato exercita seus bíceps. Na sua bagagem: várias boas lutas, com oito anos só no MEC, como ministro. Não é pouco. Do outro lado, um peso não menos pesado: a Apeoesp, balançando o peitoral. Na sua bagagem: uma história longa de proteção dos direitos dos professores. Quantos rounds estão previstos? Por incrível que pareça, cada lado acredita que poderá nocautear o outro em poucos golpes. Meu temor é que ambos saiam só escoriados, e que o nocaute seja, mesmo, o da educação paulista.

Vamos para o lado direito do ring, onde Serra, o treinador, massageia com todo gosto seu lutador e lhe dá as últimas instruções.

Qual a tática que deverá ser utilizada por Paulo Renato? Simples: transformar a questão educacional paulista em um problema de didática, mas, para tal, é necessário manter a didática segundo uma visão distorcida, reduzindo-a a um programa de avaliação do professor. Aliás, um programa nem sempre construído com esmero e de pouca eficácia no trabalho correto de avaliação.

A compra de revistas da Abril

Paulo Renato diz que pode melhorar a educação através do programa do PTE, o que eu chamo de o Partido da Tecnocracia em Educação (veja sobre isso no meu Filosofia e história da educação brasileira: São Paulo, Manole, 2008, segunda edição). Esse partido está associado à revista Veja e ao Grupo Abril e, também, ao Grupo Positivo. Também não está distante do que pensa o ministro da Educação, Fernando Haddad, ligado ao Grupo Gerdau, que financia o ‘movimento’ Todos pela Educação. Eles acreditam que a educação brasileira vai mal e, enfim, a paulista vai pior ainda, por falta de capacidade didática dos professores. Estes, por sua vez, seriam fracos no conteúdo, despreparados e incapazes de montar um programa de ensino eficaz na tarefa de realmente educar nossas crianças e jovens. Sendo o diagnóstico este, o que Paulo Renato propõe é a ‘recapacitação’. (Aqui: entrevista de PR).

Como Paulo Renato tem pressa, diz que isso tem de ser feito pelo mecanismo do ‘ensino à distância’. Não passa pelas cabeças do pessoal do governo, tanto estadual quanto federal, que o correto seria capacitar através de regimes sabáticos. Embora eles próprios, enquanto professores universitários, tenham podido estudar e se preparar por conta de ‘sabáticas’ (não raro, até mesmo fora do país e com bolsas – é a praxe do professor universitário), eles negam isso aos professores da rede pública. Parece que estão preocupados de antes fornecer um tipo de treinamento ou de adestramento do que em recapacitar dando condições de fazer o professor estudar mais e se preparar melhor.

Não creio que, junto com esse treinamento à distância, não virá apenas um programa que dará oportunidade para que algum grupo político associado a Serra possa oferecer material. Temo que a tática de Paulo Renato possa não vingar para a melhoria do ensino e, sim, terminar em mais um episódio igual ao denunciado pelo deputado Ivan Valente quando da compra de revistas da Editora Abril para se colocar nas escolas (sem licitação!), o que Serra acabou de fazer.

Verdade nem sempre faz efeito

É triste saber que o PT de Fernando Haddad também não tem outra idéia senão a mesma do que faz Paulo Renato: didatismo e avaliação excessiva. Eis agora que o plano de Haddad, de reeditar a caricatura da Escola Nova no ensino médio, vai trazer de volta um dos piores erros do PSDB no governo paulista – aquele denunciado por todos e repudiado até por Serra, em campanha política (ele acusou Covas e Alckmin de tal coisa!). (Aqui: artigo sobre o assunto). A proposta do PT para a Escola Média nada mais é que uma versão do que Guiomar Namo de Melo já fez na secretaria da Educação paulista, que foi a criação das ‘áreas de estudo’, desprestigiando as disciplinas. Aliás, foi isso que, associado depois à progressão automática, conduziu o ensino paulista aos últimos lugares do ranking nacional.

No ano que vem, em dezembro de 2009, sairá o resultado da participação dos alunos brasileiros nas provas internacionais do PISA (Programme for International Student Assessment), que serão realizadas este ano. Teremos a confirmação de que o Brasil ainda estará entre os últimos lugares? Caso positivo, os paulistas ficarão tranqüilos. Poderemos dizer: nossa educação é ruim, mas vejam que o Brasil como um todo vai muito mal. Penso que isso será altamente reconfortante para Serra e Paulo Renato, dado a capacidade de ambos de chocar a opinião pública informada, e isso sem o menor pudor. E para Fernando Haddad será mais um momento dele poder imitar o próprio Paulo Renato quando este era ministro da Educação e, diante de resultados do Brasil no PISA, ele conseguia dizer que o último lugar ‘não era tão ruim’. Aliás, não será a primeira vez que Haddad terá chances de demonstrar essa sua habilidade de dizer o que Paulo Renato, sem rubor, disse durante oito anos. Pois Haddad não faz outra coisa senão errar os mesmos erros do PSDB.

Mas, agora, vamos para o lado esquerdo do ring. Lá está a Apeoesp. Cadê o treinador? Ninguém sabe.

Tudo parece indicar que, uma vez sem treinador, a tática do sindicato não mudará. Lutador sem treinador reproduz o arroz com feijão. Insistirá em reclamar direitos dos professores, batendo na tecla de que o governo Serra investe pouco em educação. Essa é uma verdade clara (também em relação ao governo federal). Mas a verdade nem sempre faz efeito.

O tipo de política educacional

O problema da Apeoesp – e isso, eu temo – é que este sindicato pode não estar preparado para proteger o que diz que quer proteger, o professor; e com isso acabe deixando a educação pública levar o soco fatal. Explico.

A população brasileira tem uma visão própria do serviço público. Aliás, ela tem uma relação de amor-ódio para com o emprego público. O salário mensal do servidor público e a idéia – nem sempre correta – da população em geral de que o patrão chamado Estado é bonachão, faz com que os brasileiros não-funcionários públicos sintam um pouco de dor-de-cotovelo dos professores. Em geral, os brasileiros não-professores ganham mais que os brasileiros professores, mas não possuem o status de serem, de certo modo, os donos da cultura e, além disso, nem sempre fazem o ‘trabalho limpo’, como é visto o trabalho do funcionário de uma escola, em especial o do professor. Por isso, não é difícil para essa população absorver a propaganda de Paulo Renato, Serra e mesmo de Fernando Haddad, insistindo na tecla de que o caos do ensino brasileiro é exclusivamente culpa do professor, que seria mal formado e vagabundo – e até mal intencionado, uma vez que estaria faltando às aulas com o fingimento de estar doente. Isso se propaga fácil.

A imprensa brasileira endossa com muita facilidade essa visão de Paulo Renato. Também os jornalistas, não raro, tendem a sentir raiva dos professores. Eles se ressentem de não poderem falar com a autoridade do professor, que é a autoridade do conhecimento, e só poderem falar por meio da (pseudo)autoridade de uma instituição empresarial, que forja essa autoridade por meio do poder do dinheiro – o dinheiro do patrão. Sendo assim, com rapidez os jornalistas tendem a dizer: ‘Os professores são burros.’ Ora, logo após isso, eles começam a achar que o clima editorial conservador que circula em torno dessa tese está correto: a educação só se faz com bons professores, estes são aqueles que ‘sabem a matéria’. A tese é correta, mas, sozinha, é tola e se torna falsa. Pois é necessário que tal tese sempre venha com o adendo: temos de pensar o que é que faz se ter ou não no país bons professores, e isso significa ver que tipo de política educacional se está desenvolvendo para tal.

Um esquema para formação de professores alternativo

Uma boa parte dos jornalistas não se pergunta como é que se pode gerar bons professores se a carreira do magistério é desprestigiada. Afinal, o que o professor da Escola Média ganha é bem inferior ao de outras profissões com o mesmo tempo de estudo. E em todos os países em que a educação era ruim e, depois de um tempo, melhorou, a regra foi uma só: os professores devem ao menos empatar em salários com as outras profissões com o mesmo número de anos de estudo. Isso é o pré-requisito para qualquer medida em educação. Aliás, nesse sentido, o PT nada fez senão baixar salários, pois esse foi o resultado concreto, nas grandes cidades, da medida do piso salarial em 950 reais (e nos lugares pobres não mudou nada, pois a lei não é cumprida e, em alguns casos, nem pode ser cumprida).

Diante de tudo isso, a tática da Apeoesp do arroz com feijão pode ser um erro. O que a Apeoesp vai dizer é verdadeiro. Ela vem dizendo a verdade – e disso não tenho dúvida. Mas o que ela não diz é exatamente o que ela precisa dizer se quiser não levar um cruzado de direita logo de início, na luta contra Paulo Renato, deixando tal cruzado resvalar para a educação. E o que ela não diz? A Apeoesp não põe na praça um esquema para a formação de professores que seja alternativo ao do governo.

Recapacitação feita pelas universidades

Em outras palavras: Paulo Renato vai começar a recapacitação, então, o papel da Apeoesp deveria incluir as idéias desses quatro itens abaixo, ou coisa parecida:

1) Propor um plano de recapacitação, oferecido ao governo, que inclua a idéia de que o professor só pode voltar a estudar se tiver períodos sabáticos, pois o professor precisa de tempo para estudar; o governo não pode dizer que quer o ‘treinamento em exercício’. Caso diga isso, estará provando que não quer a recapacitação real.

2) Nesse plano de recapacitação, a Apeoesp e a sociedade de um modo geral, inclusive intelectuais individuais, poderiam se oferecer para colaborar, e isso por meio de começarem a trabalhar ativamente na formação dos professores. Ou seja: o plano de recapacitação deveria começar, simplesmente, por uma convocação de todos os professores (principalmente os professores universitários que não estão em universidades públicas ou, mesmo, os que estão fora do sistema universitário), inclusive os aposentados, no sentido de virem a pegar turmas de professores do Ensino Médio e Fundamental para acompanhá-los nos estudos. Um bom professor (universitário?), com bom currículo, não raro pode estar parado ou, talvez, encostado. Que tal dar a ele a motivação de um ganho extra? Ele poderia se inscrever num plano de recapacitação e orientar uma turma de professores da rede pública, desejosos de voltar a estudar em regime sabático. Isso poderia ser feito presencialmente, e também, com alguma parte, à distância. E isso não excluiria a recapacitação feita diretamente pelas universidades, com participação da própria Apeoesp.

Dizer a verdade pode implicar derrota

3) Agora, a Apeoesp, ela mesma, deveria começar a ter a sua escola de formação de professores. Não estou falando, aqui, de algo como a substituição do governo pelo sindicato. Minha idéia é outra: a de que o sindicato tem de ter uma formação alternativa ao que é proposto e executado pelo governo, e isso tem de ocorrer realmente, em paralelo com o que é feito pelo governo.

4) A carreira do magistério precisa valorizar aquele que estuda, e isso em termos financeiros. A idéia de que para melhorar na carreira do magistério público é necessário sair da sala de aula, ficando na diretoria de uma escola ou na supervisão ou em cargos comissionados em secretarias e outras funções, não pode continuar vingando. Nem pode continuar a valer a idéia de que para melhorar de salário é necessário deixar o ensino de nível médio e ir, necessariamente, para o ensino universitário. Tanto como idéia quanto como prática real, isso precisa desaparecer em nossa sociedade. A Apeoesp precisa ter força na Assembléia Legislativa para criar mecanismos que empurrem essas idéias para o limbo e eliminem de vez tal caminho.

Volto ao ring.

Não vejo chances para a Apeoesp na luta contra Paulo Renato? Até vejo, mas a luta da Apeoesp não é fácil, pois a cada secretário da Educação, só vem sofrimento.

O sindicato pode até, com várias greves, derrubar também o Paulo Renato que, afinal, não tem a capacidade de ficar no cargo para além do que outros ficaram. Ele não é o super-homem que imagina ser, o santo que foi agraciado por FHC. Nem FHC é o deus que a imprensa quer nos fazer acreditar. Mas, uma greve para derrubá-lo poderá não ser considerada uma vitória para a Apeoesp. No frigir dos ovos, se após a queda de Paulo Renato, ou simplesmente o aumento de seu desprestígio, a sociedade ainda comprar o discurso do Serra de que nosso professor é mal formado pelas universidades, pois nestas há muita teoria e pouca prática, e de que ele é vagabundo porque não quer trabalhar por mérito do bônus, então a Apeoesp terá dito a verdade e, no entanto, terá sido derrotada. E terá feito a educação sofrer também uma grande derrota. Talvez por nocaute.

Os velhos bíceps do braço direito de Paulo Renato podem parecer flácidos, mas num soco fora de propósito, acertando um assistente, e não um lutador (a educação), o estrago pode ser enorme.

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Filósofo e escritor

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