Quinta-feira, 17 de Outubro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1059
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CADERNO DA CIDADANIA >

Os bichos da Globo

Por Nídia Martins em 22/09/2009 na edição 556

A novela das sete da Globo Caras e Bocas tem um macaco como protagonista da trama de Walcyr Carrasco. Pelas características incomuns deste herói, a ação às vezes se parece com história em quadrinhos, já que humanos interagem com não humanos, como acontece naquela modalidade povoada por seres incomuns.

Notei então que não me lembrava de ter visto animais em outras novelas, provavelmente para atender exigências em lei e de parcela da população que prefere não ver a exploração de animais na telinha. Para a oposição dessa corrente, não representa qualquer mal-estar para o animal estar com humanos onde quer que estes estejam, por se tratar de animais nascidos e criados assim. Sem entrar no mérito, continuando o raciocínio de tratar-se de animais acostumados a humanos, imaginei um cão e se ele gostaria de interagir com humanos, por exemplo, numa novela. Curioso é que, na vida real, muitas pessoas têm animais de estimação, mas nas novelas ninguém tem cães, gatos ou sequer um peixinho!

Na vida real, quando temos um cão ou gato em casa, a maioria de nós fala com eles. Fazem parte de nosso mundo e interagimos com eles. Às vezes, nos fazem companhia para não fazer nada, só cafuné. Corremos com os grandes, mimamos os pequenos, e quem há de negar o quanto são importantes em nossas vidas? E se as novelas tentam reproduzir a vida cotidiana das pessoas, por que os bichos não estão lá? Por algum motivo, nesta particularidade a arte não imita a vida.

Sem pretensão intelectual ou política

É um risco para um jornalista assumir que vê a Globo, sem que a marcação da intelligentsia o rotule de pelego. Instalou-se um clima de que ver a Globo é sinônimo de alienação. Ver a Globo, de repente, passou a ser um demérito imperdoável para parcela da intelectualidade, para quem nada represento, nem sequer minha própria opinião. Teimosa, insisto em ter voz, exercitando a liberdade de opinião nos espaços democráticos que me permitem fazê-lo. Não me importo quando desqualificam o telespectador da Globo. Identifico qualidade no que vejo, considero de bom gosto a ausência de sensacionalismo piegas e apelativo, mesmo entendendo que seja superficial.

Os mais inflamados acusam-na de parcialidade, de manipular a opinião pública e atender a interesses de grandes grupos econômicos.

Por que, então, eu assisto a Globo? Acompanho novelas quando posso e as considero primorosas. Percebo por trás de cada cena o trabalho de profissionais qualificados cuidando de cada detalhe. Luz, som, cenários, figurinos, cabelos, estilos, fotografia, não se limitando ao talento dos artistas que aparecem em cena.

No jornalismo – sem entrar no mérito do exposto acima –, a parte técnica, cenários, posturas, qualidade de imagem e som, tudo funciona perfeitamente, de forma agradável. Críticos podem dizer que isso é uma forma subliminar de vender um ideal burguês, já que tudo é muito certinho. Peço licença para falar apenas do que me propus. Do macaco, do gato, do peixe, da qualidade técnica, sem qualquer pretensão intelectual ou política.

Limitações técnicas comprometem resultado

Sim, eu confesso. Tenho prazer em ver um telejornal que entra no ar na hora certa, exatamente ao mesmo tempo em todas as retransmissoras do país. Tenho prazer em não ter que esperar um segundo sequer para que um tape entre no ar, rigorosamente na ‘deixa’ do apresentador, que não erra nunca, ou quase nunca. Quem já fez telejornal sabe que não é fácil. Conquistar um padrão de qualidade em imagem e som é tão difícil quanto padrão na qualidade de conteúdo, além de custar muito caro.

Cito a Fundação Padre Anchieta e a TV Justiça, onde trabalhei, como exemplo. Encarregado por Delorgel Kaiser – secretário de Comunicação do Supremo na gestão Ellen Gracie – de preparar a emissora para a era digital, o então diretor da TV Justiça, Celso Fontão, começou a filtrar os programas da grade e após um tempo em que deveriam se adequar às novas regras eles foram reavaliados quanto a esses padrões. Muitos saíram do ar. Houve muita chiadeira, muitos reclamos, mas a mudança começou a ser operada. Com a mudança de comando no STF, assumiu a Secretaria o jornalista Renato Parente, que nomeou Giovanna Carla para dirigir a TV Justiça. Ela continuou a tarefa iniciada por Fontão, tirou mais programas do ar e mudou cenários, figurinos e a forma de disponibilizar a notícia, imprimindo mais qualidade ao trabalho jornalístico que já era bem feito ali.

Mas, limitações técnicas aborrecem e comprometem o resultado. Quando um áudio demora para entrar e fica aquele silêncio crucial de segundos no ar, o coração da Redação pára. Pior que isso só mesmo quando uma imagem não entra e fica um preto na tela. Pode ser um milésimo de segundo, mas mata a gente.

Excelência do trabalho

O delay, então – aquela diferença de tempo entre o movimento da boca falando e o som das palavras que estão sendo ditas – é coisa corriqueira para quem tem que comer ainda muito feijão para chegar a um padrão Globo de qualidade. Nada bom de ver, de ouvir, ainda que disponibilize informação de qualidade, o que nos traz de volta à experiência da Globo. É tão bom ver coisas bem feitas…

É por isso que a experiência com o usuário se renova a cada temporada.

Não sou refém da Globo, vejo outros canais, abertos e a cabo. Também acompanho o jornalismo de um segundo canal, dependendo de onde estou morando. Gosto do Jornal do SBT; gostava do jornalismo local da Record-Brasília, voltado para as classes D e E, baseado na prestação de serviço como principal característica do estilo Sérgio Amaral, no comando da equipe local. Completo minha informação básica com a leitura de um jornal diário. Revistas, parei de consumir depois do advento da internet, onde garimpo informações variadas que me interessem.

Sei que para um intelectual engajado e de categoria, minhas percepções não mereceriam sequer o espaço virtual que ocupam essas palavras. Que os espaços editoriais deveriam reservar-se exclusivamente para questões mais densas, abordadas em profundidade por profundos conhecedores, uma casta superior, não por gente comum que vê televisão. E que, por ver televisão, por ser ‘cliente’, reclama no exercício de seus direitos quando não recebe o mínimo esperado, mas também elogia quando há merecimento e faz observações que considera pertinentes.

Não sou marionete da Globo, nem de qualquer ideologia, política ou religiosa. Apenas gosto do que vejo, me agrada perceber a excelência do trabalho que antecede o que nos é oferecido e gosto de ser bem tratada. Neste sentido, a emissora se esmera para nos dar o melhor, o mais bonito, o mais moderno, o mais eficiente. Tudo funciona.

Se a mulher de César é honesta eu não sei, mas que parece honesta, isso parece.

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Jornalista

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