Domingo, 27 de Maio de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº988
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CADERNO DA CIDADANIA > MEIO AMBIENTE

Os limites do politicamente correto

Por Teócrito Abritta em 09/12/2008 na edição 515

Fui à ‘V Feira Nacional da Agricultura Familiar e Reforma Agrária’, realizada no Rio de Janeiro, de 26 a 30 de novembro, pelo Incra e pelo Ministério do Desenvolvimento Agrário. Esta feira teve o apoio do estado e da prefeitura do Rio de Janeiro, sendo patrocinada por grandes empresas e organizações como Petrobras, Eletrobrás, BNDES, Caixa Econômica Federal, Banco do Brasil, Banco do Nordeste e Sebrae.

Neste evento, tudo estava indo às mil maravilhas, com agricultores, apicultores, artesãos e outros trabalhadores rurais vindos dos quatro cantos do Brasil, apresentando seus produtos, sempre com a preocupação da sustentabilidade ambiental, até que deparei com crimes contra a natureza sendo praticados à luz do dia. Foi como se a feira de Caxias – sempre tolerada pelas autoridades – tivesse sido transplantada para a Marina da Glória, em pleno Rio de Janeiro, com a exposição e venda de pássaros torturados. Em um dos estandes desta feira de agricultura estavam sendo vendidos dezenas de cocares feitos com penas de arara azul, uma ave silvestre em perigo de extinção (ver Projeto Arara Azul).

Pistolagem científica e cultural

Este crime ambiental era praticado pela Associação Indígena Terena, de Peixoto de Azevedo (MT). Nos estandes do estado de Alagoas também eram comercializados objetos feitos com penas de pássaros, o que é proibido por lei. O mais grave é que estava presente uma das maiores lideranças indígenas nacional – que divide a ocupação de cargos públicos em Brasília com uma suposta representação dos povos da floresta – que justificava o crime ambiental em nome de uma ‘indenização social’, dentro daquele espírito malufista de ‘estupra, mas não mata’, o que aqui não se aplicava, pois em geral as aves são mortas de imediato para não atrapalhar a coleta de suas penas debatendo-se de desespero e dor.

Compareceram a esse evento também os ministros do Desenvolvimento Agrário, Guilherme Cassel, e do Meio Ambiente, Carlos Minc, o que configura um crime de irresponsabilidade por fecharem os olhos às agressões praticadas contra a indefesa fauna silvestre brasileira.

O incrível disto tudo é que a venda de restos de animais em extinção não merecesse uma linha sequer, nem na grande imprensa, nem na imprensa alternativa, contando também com o silêncio de representantes de ONGs ambientalistas que presenciaram este fato. Os populares que protestavam eram ameaçados de agressão pelos expositores ilegais e advertidos por truculentos seguranças que seriam expulsos se não ‘circulassem’.

O desinteresse da grande imprensa com o meio ambiente é compreensível, já que, como diário-oficial do governo, tem dado apoio irrestrito aos grupos da base de sustentação de Lula, que são recompensados com a ‘licença para desmatar’.

Mas a omissão de certas ONGs ambientalistas cheira a certa ‘pistolagem científica e cultural’, parodiando aquela autoridade sabichona que adooora aparecer na imprensa.

Teoria do bom selvagem

Para combater a destruição ambiental no Brasil, é necessário praticar um ambientalismo de resultado, dando os ‘nomes aos bois’. O governo Lula sempre acobertou a rotina de crimes ambientais com uma política de marketing usando certas personalidades bem relacionadas internacionalmente, como Marina Silva – que sobrevive até hoje à custa do assassinato de Chico Mendes – e agora Carlos Minc, que faz a falsa fachada preservacionista de Lula. A eles, tudo é permitido. Diante do desmatamento desenfreado, somente na Amazônia, com o desaparecimento em um ano de uma área florestal de quase 12.000 km2, equivalente a uma área de mais de dez cidades no Rio de Janeiro, Minc apenas afirma, sem qualquer questionamento: ‘A taxa de derrubada ficou milímetros acima do ano anterior’ (sic).

Para Marina Silva, tudo sempre foi tolerado, ainda mais agora que aspira ao governo do Acre e não pode desagradar ninguém com discursos na tribuna do Senado. Depois de passar mais de cinco anos encenando um bla-bla-blá preservacionista, mais de 100.000 km2 de floresta desapareceriam nas mãos dos aliados de Lula. Hoje em dia, como senadora, prefere passar o tempo pregando o criacionismo ou fazendo poesias de gosto duvidoso.

No fundo, esta omissão criminosa daqueles que deveriam estar ‘esperneando’, vem daquelas ‘fraquezas humanas’, como ocupar um carguinho público, ou, quem sabe, uma ‘colocação’ para aquele filho inepto? Criticar quem é bem articulado, também pode arruinar aquele convite para uma palestra em um congresso internacional, com passagens e estadia totalmente pagas. Criticar comportamento de indígenas? De jeito nenhum, pois está além dos limites do estabelecido para o politicamente correto e, afinal de contas, os europeus adoram a teoria do bom selvagem e as suas lideranças bem nutridas, bem vestidas, ostentando em seus pulsos vistosos Rolex, enquanto a ‘massa indígena’ perde a sua cultura, não conhece mais a sua própria língua e definha fisicamente.

É… Parece que muita coisa precisa mudar neste imenso Brasil…

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Físico e escritor, Rio de Janeiro, RJ

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