Sexta-feira, 21 de Setembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1005
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CADERNO DA CIDADANIA > ENTREVISTA / GARY KNELL

‘Os produtos devem ser educativos e divertidos’

13/04/2004 na edição 272

A série televisiva Vila Sésamo, que encantou gerações de crianças e adultos no Brasil, estará de volta em 2005. É o que afirma o presidente da Sesame Workshop, Gary Knell. Em entrevista ao site da 4ª CMMCA, Knell explica que a nova edição – co-produção com o Canal Futura – terá o objetivo de satisfazer as necessidades locais das crianças brasileiras – elevando a auto-estima e o interesse pelo aprendizado.

Presença confirmada na 4ª CMMCA, Gary Knell afirma que o maior desafio da indústria de mídia de hoje é o ritmo acelerado com que as crianças estão crescendo. ‘Crescendo num mundo diferente do que vivemos há somente uma geração’, destaca.

Segundo ele, para assegurar a qualidade dos produtos neste mundo globalizado é preciso investir em produção, conteúdo e pesquisas. Ele conta que o processo de produção de um programa do Sesame Workshop é minuciosamente trabalhado da pré-produção até a pós-produção – o que vem garantindo sucesso de crítica e de público ao longo de 35 anos. ‘A princípio, muitos profissionais diziam que este modelo não teria sucesso devido aos diferentes panos de fundo e de valores. Contudo, o modelo foi eficiente e seu primeiro produto foi o Sesame Street (Vila Sésamo), sucesso em diferentes países e culturas’.

Sucesso garantido pelo próprio processo de trabalho. Cada co-produção possui a essência do Sesame Street original, mas também tem sua própria forma, ritmo, humor e música extraídos da cultura local. ‘Direcionadas às crianças em idade pré-escolar, as lições do Sesame Street são ilustradas por meio do humor, da fantasia e das situações do cotidiano’, conta Gary Knell, que participará da Sessão Plenária ‘Produção globalizada, uma visão industrial’ (dia 20 de abril).

***

Como surgiu o Sesame Workshop e quais eram os seus objetivos?

Gary Knell – O Children’s Television Workshop (CTW), hoje mais conhecido pelo nome Sesame Workshop, surgiu com o trabalho do seu co-fundador Joan Ganz Cooney. No final dos anos 60, Cooney começou a usar a TV para ajudar no rendimento das crianças na escola. Já naquela época, a TV tinha um enorme impacto no dia-a-dia do público infantil. As pesquisas indicavam que as crianças gostavam e se identificavam mais com as cantigas publicitárias do que com os programas que assistiam. Cooney e sua equipe acharam então que as crianças aprenderiam conteúdos importantes se estes fossem apresentados de uma maneira atraente. Desta experiência, surgiu o programa infantil mais assistido de todos os tempos: o Sesame Street. O programa, lançado em outono de 1969 (no dia 10 de novembro), tinha o objetivo de ensinar conhecimentos e valores para as crianças, especialmente para crianças pobres e de minorias, na faixa etária entre dois e cinco anos. Com uma duração diária de uma hora, cada episódio era minuciosamente estudado e pesquisado. Ainda hoje, o CTW continua a inovar em nome das crianças em 120 países, utilizando sua própria metodologia para assegurar que seus programas e produtos sejam atraentes e enriquecedores. O Sesame Workshop está por trás de programas premiados como ‘Dragon Tales’, ‘Sagwa’, ‘The Chinese Siamese Cat’ e produções multimídia de imenso sucesso em Israel, Palestina, Jordânia, África do Sul e Egito.

O Sesame Workshop reúne educadores, pesquisadores, psicólogos, especialistas em desenvolvimento da criança, artistas, escritores e músicos para traduzir idéias em ação, canalizando a atração natural da criança pela mídia de forma construtiva. Este trabalho é difícil? Como ele é possível?

G.K. –
O Sesame Workshop tem desenvolvido produtos de mídia educativos desde 1968. Desde então, acreditamos que os produtos devem ser educativos e divertidos. Para isto, investimos na produção, no conteúdo educativo e em pesquisas. Estas três ações não estão diretamente associadas, tradicionalmente, à produção de mídia. A princípio, muitos profissionais diziam que este modelo não teria sucesso devido aos diferentes panos de fundo e de valores de cada uma das três áreas. Contudo, o modelo foi eficiente e seu primeiro produto foi o Sesame Street. No modelo do Sesame Workshop, o desenvolvimento de um projeto maior passa por diversos estágios. Seminários de pré-produção reúnem produtores, educadores e pesquisadores para definir metas curriculares e explorar formatos educacionais que sejam eficientes para atingir os objetivos traçados. Enquanto escritores e produtores preparam roteiros e outros materiais, especialistas em conteúdo e pesquisadores colaboram no refinamento dos formatos das produções, aliando os preceitos educativos e as necessidades e capacidades das crianças. Nos estágios iniciais da produção, pesquisadores testam elementos do formato e do desenho do programa para ajudar a qualificar a produção. Quando as peças ficam prontas, os pesquisadores realizam testes para averiguar sua atratividade e compreensão. Com a produção em série terminada, investiga-se, por meio de amostras, a eficiência educacional dos programas. Em todo o processo de produção, especialistas de conteúdo verificam se os objetivos curriculares são claros em todos os aspectos da execução. O Sesame Workshop tem funcionado eficientemente por 35 anos com benefícios evidentes para a educação de crianças no mundo inteiro.

Quais são as dificuldades que o Sesame Workshop enfrenta hoje para desenvolver/produzir mídia de qualidade para crianças e adolescentes?

G.K. – Nossas crianças estão crescendo num mundo diferente do que vivemos há somente uma geração. Trata-se de um mundo mais global e mais complicado que apresenta novos desafios e oportunidades. Desta forma, procuramos alcançar, cada vez mais, um maior número de crianças, lançando novas iniciativas para ajudá-las a progredirem no mundo de hoje. No ano passado, participamos de uma cúpula global sobre educação na mídia. O seminário defendeu o respeito intercultural e a compreensão entre as crianças de dois a 14 anos. Participaram da cúpula grupos de educadores, pesquisadores, representantes de emissoras de TV, produtores, governos e organizações internacionais. Hoje, seja criando programação no Oriente Médio, no Japão ou na Irlanda do Norte, estamos, mais do que nunca, apresentando imagens positivas e temas como amizade e respeito.

O Sesame Workshop e o Canal Futura produzirão novos episódios de Vila Sésamo a partir de 2005. Quais serão os objetivos desta nova série?

G.K. – O Sesame Workshop e o Canal Futura estão se reunindo para co-produzir o Sesame Street para uma nova geração de crianças. A versão brasileira, Vila Sésamo, foi a primeira produção internacional e estreou no Brasil em outubro de 1972. Desde então, mais de 20 adaptações locais da série foram ao ar em diferentes países como Alemanha, México e África do Sul. Com 52 programas de meia hora, a nova Vila Sésamo vai incorporar um currículo inovador criado por produtores e educadores brasileiros, especialistas em desenvolvimento infantil. A idéia é satisfazer as necessidades locais das crianças. Vamos também ajudar a elevar a auto-estima do público infantil e o interesse pelo aprendizado. Direcionadas às crianças em idade pré-escolar, as lições de Vila Sésamo serão ilustradas por meio do humor, da fantasia e das situações do cotidiano.Vila Sésamo, que apresentará bonecos desenvolvidos especificamente para o Brasil, está planejado para ir ao ar no canal Futura em 2005. A série será distribuída pela Fundação Roberto Marinho para mais de dez mil instituições educativas.

Como o Sesame Workshop trabalha com as regras impostas pelo mercado e os interesses culturais, educativos e de entretenimento de cada região onde suas produções são veiculadas?

G.K. – Vila Sésamo, por exemplo, é uma experiência compartilhada no mundo inteiro. A chave do seu sucesso é que cada co-produção possui a essência do Sesame Street original, mas também tem sua própria forma, ritmo, humor e música extraídos da cultura local. Toda criança que assiste à série se identifica. E quando as lições refletem suas próprias experiências as crianças são beneficiadas. Produtores locais, diretores e escritores traduzem então estes objetivos em conteúdo televisivo. No Egito, por exemplo, o foco de ‘Alam Simsim’ é na educação das meninas – em todo o país, somente metade das meninas é alfabetizada. O ‘Takalani Sesame’, na África do Sul, enfatiza a alfabetização, o ensino dos números e habilidades para a vida. Além disso, na última temporada, introduzimos Kami, um boneco HIV-positivo para combater o preconceito e favorecer o diálogo e a amizade entre as pessoas. Hoje, a AIDS é uma doença que afeta um de cada nove sul-africanos. Desta forma, causamos um impacto direto no dia-a-dia das populações locais – com conteúdo relevante e apropriado para cada idade.

Quais são suas expectativas para a 4ª Cúpula Mundial da Mídia para Crianças e Adolescentes no Rio?

G.K. – Nosso objetivo ao participar desta Cúpula mundial é aprender com o que os nossos companheiros de trabalho estão fazendo no mundo inteiro e explorar novas áreas de colaboração/produção. Utilizaremos este fórum também para discutir e apresentar o trabalho que fazemos. Nosso status de organização sem fins lucrativos nos dá poder de responder às necessidades para as quais os governos não dispõem de recursos e que os mercados não têm os incentivos para satisfazer. Nossa motivação é nossa missão – criar conteúdo atraente e inovador que maximize o poder educativo de toda a mídia para ajudar as crianças a atingirem seu potencial máximo.

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