Segunda-feira, 18 de Março de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1028
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CADERNO DA CIDADANIA >

Os sem-professores

Por Aparecida Tornero em 01/05/2007 na edição 431

Em reportagens de televisão e jornais, constantemente, têm sido mostrados neste ano letivo crianças e adolescentes a reclamar a falta de professores nas salas de aula. Parece que os salários não atraem mais para a profissão e se criam bandos de meninos e meninas que vão a colégios públicos, em muitos lugares do Brasil, e não encontram os professores.

Este é o tempo dos ‘sem’! Tem o movimento dos sem-terra, crescente, organizado, ofuscante em suas marchas e demandas. Há o grito dos sem-arma, o apelo dos sem-destino, a crueldade dos sem-alma, a desfaçatez dos sem-perdão, o lamento dos sem-amor, a tristeza dos sem-ninguém, a esperança dos sem-carinho, o lugar comum dos sem-vergonha, a sobriedade dos sem-álcool, o clamor dos sem-teto, a angústia dos sem-justiça.

Poder-se-ia classificar uma boa parte deles no grupo maior dos ‘sem-voz’, na razão direta do grande grupo que não os escuta, ou faz de conta que não os ouve, ou nem tem a disposição de prestar atenção nas reivindicações das tais minorias que, ao se unirem, e isso é fato, tornam-se maiorias, legiões de injustiçados caminhando pelo mundo.

Dos ‘sem-ouvido’, emergem figuras caricatas, em reuniões de comando dos ricos, dos poderosos, dos comandantes de um mundo em crise.

Uma voz que grita

Quando a imagem de um receptor de TV transmite o protesto em qualquer lugar do mundo contra o terrorismo ou a violência, é comum que se veja em contraponto à ação de policiais, aqui e ali, dominando manifestantes de ânimos mais exaltados, como se fora o entrevero necessário para que se aceite a repressão como remédio que acalme o exacerbado protestante de qualquer causa.

Nada como um ‘sem-voz’ apaziguado, para que um ‘sem-ouvido’ possa jogar sua partida de golfe em paz, no aconchego do seu fim de semana, em seu retiro de grandeza e paz. Nada como um ‘sem-voz’ mais calado ainda para que um ‘sem-ouvido’ se considere dominador do processo injusto de conduzir as massas como rebanhos amansados.

Quando vejo os meninos e meninas a reclamarem nas matérias de jornais e televisões que vão a escolas sem professores há mais de mês, e que voltam para casa com a frustração de não conseguirem estudar, o que percebo é que eles ainda têm alguma voz, infantil que seja, pura que seja, idealista que seja, com o futuro pulsante em seus pequenos corações, gritando que querem estudar.

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Jornalista, Rio de Janeiro, RJ

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