Sexta-feira, 15 de Novembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1063
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CADERNO DA CIDADANIA >

Os slogans das viúvas da ditadura

Por Celso Lungaretti em 12/10/2009 na edição 559

AVeja continua repetindo os mais surrados clichês da extrema-direita, como se fosse apenas a versão impressa dos sites fascistas. Estes, aliás, adoram disponibilizar a seus primatas… digo, seguidores, a propaganda enganosa da revista. Numa rápida incursão pelos depósitos de imundície virtual, encontrei:

** no Ternuma, ponto de encontro de todos os totalitários, link para matéria daVeja atacando o MST, 25 anos de crimes e impunidade;

** no A Verdade Sufocada, do Brilhante Ustra, há um sem-número de artigos de um tal Jailton de Carvalho citando sempre aVeja como fonte das informações tendenciosas, a exemplo deste aqui, atacando as Farc;

** no Mídia Sem Máscara, do Olavo de Carvalho, constantes citações da revistaVeja e elogios efusivos de OC ao blogueiro mais reacionário da revista, Reinaldo Azevedo, por ter explicado a crise hondurenha exatamente como Goebbels recomendava; e

** no Usina de Letras, que dá abrigo a Felix Mayer, um dos principais gurus das viúvas da ditadura, este também reproduz e recomenda a desinformação programada de Reinaldo Azevedo acerca dos eventos de Honduras.

E por aí vai, nos sites e blogues militares, nas correntes de e-mails golpistas, enfim, em todos os tentáculos dessa máquina de emburrecer e fanatizar cidadãos já tendentes à intolerância.

Umhouse organ obscurantista

Na edição de 14/10, que está nas bancas, aVeja ataca de novo as reparações concedidas pelo Estado brasileiro às vítimas da ditadura militar, em ‘O esquema do Bolsa Guerrilha’. Seu alvo, desta vez, é Ana de Cerqueira César Corbisier, que militou na ALN de Carlos Marighella.

Ana participou de duas expropriações de bancos (o que importa o roubo de um banco diante do crime inominável de se fundar um banco?, indagava Brecht), para sustentar a luta contra os usurpadores do poder daqui, exatamente como fazia a Resistência Francesa para sustentar a luta contra os nazistas de lá. A França reconhece e homenageia o martírio e o heroísmo dos que salvaram a honra nacional – não fosse a Resistência, o país ficaria identificado apenas com os colaboracionistas da República de Vichy.

AVeja continua denegrindo, injuriando e caluniando os bravos que aqui exerceram o milenar direito da resistência à tirania, salvando igualmente a honra brasileira – caso contrário, o país ficaria identificado apenas com os insensíveisyuppies do milagre econômico, aqueles que zurravam ‘Brasil, ame-o ou deixe-o!’ Ademais, a revista que virouhouse organ obscurantista quer anular os grandes marcos da civilização, fazendo-nos retornar a antes da Grécia antiga. Se depender dela, acabaremos voltando às cavernas. Falaciosamente, sempre omite que o Estado brasileiro seguiu à risca uma das recomendações da ONU para países que saem de ditaduras: o ressarcimento dos terríveis prejuízos que o arbítrio causa à vida dos cidadãos, assassinando-os, torturando-os, mutilando-os, enlouquecendo-os, perseguindo-os, discriminando-os.

Antijuridicidade é excluída

Para aVeja – e para os que, como ela, repetem até hoje os slogans criados e difundidos pelos serviços de guerra psicológica das Forças Armadas durante a ditadura –, Ana é ‘ex-terrorista’. Se alguém quiser maiores esclarecimentos sobre a impropriedade desse rótulo propagandístico, recomendo a leitura de ‘Militantes contra a ditadura: heróis ou terroristas’, no excelente blog do jurista All Mon. Ele reproduz um parágrafo do constitucionalista Daniel Sarmento que vai ao âmago da questão:

‘Não se deve caracterizar os atos praticados contra a ditadura militar como crimes políticos ou de terrorismo. Até porque, de acordo com a definição do art. 2º da Lei 7.170/83, foram os golpistas de 1964, e não os insurgentes de esquerda, que subverteram a ordem constitucional vigente, estabelecendo, sob a égide da violência, do terror e do medo, uma nova `ordem´ político-institucional, sem qualquer salvaguarda dos princípios básicos atinentes à fundamentação da soberania democrática do Estado.’

E conclui:

‘…a própria Lei da Anistia (que os próprios militares citam como uma lei pactuada democraticamente, mas não passou de mais uma decisão unilateral dos juristas da repressão) deixou de punir crimes considerados políticos. E se deixou de punir, excluiu a própria antijuridicidade destes atos.’

Trunfo à propaganda inimiga

Voltando à nauseabunda matéria daVeja, a revista ousa contestar o direito de Ana ser indenizada por todos os riscos que correu e todos os traumas decorrentes de haver travado luta tão desigual, tendo ainda de passar uma década inteira no exílio, para ficar a salvo de ser estuprada, torturada, assassinada:

‘Em 2001, Ana bateu à porta da Comissão de Anistia do Ministério da Justiça e, desde 2007, recebe da União uma pensão mensal vitalícia de 2.744,00 reais, além de indenização parcelada de 361.500 reais. Ana é um dos 30.967 brasileiros beneficiados com os 2,6 bilhões de reais concedidos a vítimas do regime militar. Já é absurdo chamar de `vítima´ alguém que entrou voluntariamente para uma organização terrorista e atuou num assalto que resultou em homicídio (não se tem notícia de que ela tenha sido presa ou torturada).’

Quem entrou voluntariamente para uma organização que jamais se caracterizou como terrorista na conceituação civilizada tinha uma coragem e um idealismo inalcançáveis para os pigmeus morais daVeja!

Infelizmente, 40 anos depois, Ana comete um deslize imperdoável: está pleiteando uma vultosa indenização trabalhista da Fundação Padre Anchieta por ter sido obrigada a deixar o emprego em função da perseguição política que sofreu. Só que a pensão por ela recebida da União já se destina, principalmente, a reparar o prejuízo que a ditadura causou à sua carreira profissional. Fornece, portanto, trunfo valioso à propaganda inimiga, assim como o fizeram Carlos Heitor Cony e Ziraldo. Em respeito ao papel que desempenharam no passado, esses três e alguns outros não deveriam exagerar em suas demandas.

Preservação da imagem da resistência

Como preço da magnanimidade com que se contemplaram certas celebridades, cujos casos foram priorizados e logo resolvidos pela anistia federal, houve, em seguida, uma redução acentuada nos valores das reparações dos resistentes anônimos deixados para depois (a grande maioria). A alguns vips, mais do que mereciam receber. A boa parte dos que não alcançaram a notoriedade, menos do que deveriam receber.

Quem passou pelo inferno e teve a felicidade conservar a vida e a lucidez, deveria ser mais zeloso na preservação da imagem de nossa resistência – até em manifestação de respeito pelos companheiros que não estão mais conosco.

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Jornalista, escritor e ex-preso político, mantém blogues aqui e aqui

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